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Alemanha: princípio do fim da era Merkel?

O fracasso das negociações para a formação de um novo governo de coalizão demonstra as crescentes dificuldades de Merkel para unificar os divergentes interesses e estratégias capitalistas sob seu mando. Sem perspectiva para um novo governo, se desenvolve uma incerteza política que não era vista há anos na Alemanha.

sábado 25 de novembro| Edição do dia

No domingo à noite, os liberais do FDP (Partido Democrático Livre) se negaram a selar o pacto: seu líder Christian Lindner anunciou o fracasso das negociações para formar um governo junto com a União Cristã (CDU) de Ángela Merkel e dos Verdes: “melhor não governar do que governar mal”, disse o líder liberal. Durante décadas os liberais tinham sido os sócios fiéis dos maiores partidos, sobretudo da CDU. Com isso, Lindner terminou aquela sociedade.

Isso não se deve só a seu próprio ego ou a manobras táticas. O que mais pesa na decisão dos liberais é a crise de autoridade de Merkel, cujo poder de integração ou de liderar os partidos burgueses, está se desmoronando lentamente.

Como chegou essa crise?

Depois das eleições, todos os partidos envolvidos sabiam que as negociações para formar uma coalizão seriam difíceis. O FDP tinha deixado aberto desde o princípio a possibilidade de abortar ou não as negociações se não se acordasse nos temas de impostos, migração, energia ou flexibilização laboral. No domingo, ainda existia um catálogo de questões não resolvidas e durante a noite, Christian Lindner, presidente do FDP, anunciou: “Se demonstrou que os quatro sócios não têm uma visão comum da modernização de nosso país e sobretudo não têm uma base de confiança”.
Enquanto que os Verdes cederam em assuntos como o abandono da energia de carvão ou de um limite superior para refugiados, Merkel não conseguiu seduzir suficientemente os Liberais.

A chanceler tem um problema: não pode oferecer à pequena-burguesia, que tem suas expressões políticas nos Verdes, nos Liberais e na extrema direita Alternativa pela Alemanha (AdF), mais que um plano insuficiente para o desenvolvimento da União Europeia como veículo das ambições alemãs.

Os partidos pequeno-burgueses tampouco têm uma visão de um projeto europeu. Mas as aspirações da grande burguesia representada pelo merkelismo, as quais se poderiam orientar, tampouco têm causa. Como seguir com a China, os Estados Unidos e a Rússia? Como evitar a desintegração da União Europeia? O que fazer com a política financeira? A todas essas questões, Merkel não tem resposta, o que se expressou na crise imigratória, que na realidade é uma crise do imperialismo. Só os Verdes, que se instalaram no status quo merkelista, seguem sendo seus sócios fiéis.

O rechaço dos Liberais, portanto, não é um capricho de Christian Lindner. O FDP o apontou como “modernizador” em 2013 depois de seu desastroso fracasso eleitoral para consolidar o partido como representante da pequena-burguesia. Mas mais além de que fosse Lindner o motor do fracasso das negociações, a dinâmica política acabou em uma grande crise política do Regime. E sobretudo no que concerne à UE, Merkel não soube oferecer uma posição consistente para manter a liderança hegemônica da burguesia alemã de conjunto sem questionamentos, a qual o FDP se subordina.

Depois de ter evitado um quarto mandato de Merkel, Lindner pode utilizar esse triunfo apelando ao eleitorado da extrema direita, Alternativa para Alemanha (AfD). E criticar os Verdes de que deixaram quase todas as suas posições políticas para poder formar governo e agora estão sem nada.

Mas o fracasso das negociações não é só uma derrota para os Verdes, representantes da pequeno-burguesia, e sim também para os partidos da grande burguesia. Na verdade, todos os editoriais tinham apostado pela coalizão CDU-Verdes-Liberais para deste modo resgatar por um tempo mais estabilidade de Merkel.

Que a burguesia não tenha conseguido, apesar de suas inumeráveis redes, manter o FDP nas negociações, que é relativamente marginal socialmente, demonstra a falta de claridade que ela mesma tem sobre qual estratégia seguir.

Novas eleições, grande coalizão, governo da minoria?

Diante do fracasso das negociações, os Verdes e a União Cristã foram, em grande medida, surpreendidos. Nas semanas que estão por vir, eles e outros partidos farão suas Conferências partidárias para se relocalizar.

É de esperar algumas mudanças, mas a cabeça mais importante, a de Merkel, que está no centro da crise política, provavelmente ficará por agora intacta por falta de alternativas.

Em vez de um grande estouro, a crise de governo alemã, como parte de uma crise de representação e de partidos, é expressão das tendências à crise orgânica a nível internacional, que terá um longo desenvolvimento.

O governo federal, “gestor” entre a CDU e a social-democracia, ficará por alguns meses mais, enquanto que os partidos e os meios de comunicação apelarão à “responsabilidade” do SPD para formar uma nova “grande coalizão”, ainda que por agora não pareça possível. Em contrapartida, um governo da minoria não promete suficiente estabilidade política.

Para convocar novas eleições, o presidente Frank-Walter Steinmeier necessita convocar antes um voto sobre a chanceler no parlamento. Mas é de se duvidar se iriam se modificar tanto as proporções de votos entre os partidos para facilitar a formação de outro governo.

A longo prazo, a “Alternativa pela Alemanha” será um ganhador em tudo isso. Diante do fracasso do “campo burguês” de encontrar uma solução comum para seus interesses capitalistas, aumentará sua propaganda racista contra os refugiados, com a qual conseguiu direitizar o discurso político de todos os partidos durante todo esse ano de 2017.




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