Cultura

CARNAVAL 2018

Alegoria combativa: porque a Escola de samba Paraíso do Tuiuti deu uma aula de Estética e História

Nas mãos de um alegorista as imagens podem ser inflamáveis. Intuitivamente os brasileiros sabem que a alegoria é um procedimento que explode feito serpentina no carnaval. Mas atualmente no país não se trata de algo que acaba na quarta feira de cinzas: a alegoria no seu sentido artístico profundo, é uma estratégia fundamental na crítica política.

Afonso Machado

Campinas

domingo 18 de fevereiro| Edição do dia

É precisamente isso o que a escola de samba Paraíso do Tuiuti demonstrou no desfile crítico do último dia 12 de fevereiro. A rapaziada do Paraíso Tuiuti fez brotar com muita criatividade as imagens dos oprimidos.

A arte de contestação se beneficia e muito das sacadas alegóricas. O pessoal do Paraíso do Tuiuti deu uma aula disso: os escravos( do período colonial e imperial ) e os trabalhadores de hoje, aparecem no mesmo céu histórico. São as imagens dos oprimidos que chegam com o samba no pé e a coragem nos olhos. Logicamente que os setores reacionários da sociedade brasileira ficaram mudos, indignados e de nariz virado. É através do recurso alegórico que a crítica política ganha densidade: escravos, operários e um vampiro são imagens articuladas cujo efeito é um retrato preciso do Brasil de 2018. Este acontecimento cultural foi uma manifestação política que tornou evidente o inconformismo social. Aqui a arte saiu na frente nos instrumentos políticos tradicionais.

A palavra alegoria vem do grego: allos(outro) e agourein(falar). Ou seja: “ falar o outro “. No dizer do filósofo Aristóteles, a alegoria envolve uma “ metáfora continuada “: são imagens encadeadas que geram um significado. Artisticamente falando, o grande barato da alegoria é realizar uma montagem em que as barreiras de espaço e tempo da história são abaladas. O artista que faz uso da alegoria retira as imagens do seu significado histórico habitual e realiza uma combinação de efeito único. Isto requer habilidade, e não é por acaso que quem saca de samba saca de alegoria: é preciso ter muito molejo para criar imagens que fazem da história um objeto móvel: as imagens não ficam empoeiradas no museu, pois elas surgem como algo novo/vivo na avenida.

O que o jornalismo burguês e a indústria cultural defendem é um mundo estático, polvilhado de imagens rápidas e vazias. Já para um artista atento ao poder da alegoria, as imagens renascem a partir de muitas possibilidades de montagem. A classe dominante pode tentar esculhambar, pode censurar, pode até tentar esmagar a cultura dos trabalhadores. Mas ninguém pode controlar a energia e a criatividade da cultura popular: é dentro desta última que a alegoria torna-se um instrumento de resistência. As críticas sociais que surgiram no carnaval devem adentrar pelas águas de março, assustar o coelhinho da páscoa e esquentar pra valer as fogueias das festas juninas. Agora é torcer para que o movimento operário acompanhe a rebeldia dos alegoristas populares.




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