Mundo Operário

Álcool-gel gratuito para todos? Sim, se os operários químicos controlassem as fábricas

Faltam nos hospitais produtos de higienização básica. Indústrias e supermercados foram proibidos de aumentar ainda mais os preços destes; ainda assim, os itens são caros para grande parte da população, o que de nada importa para as empresas que lucram cada vez mais com esse novo “mercado”, como relata aqui um trabalhador de fábrica de sabão. Seria assim se os trabalhadores controlassem essas fábricas?

quinta-feira 19 de março| Edição do dia

Foto: O Globo.

Em algumas cidades, como Recife, o preço do produto aumentou 194%. Do dia para a noite o produto tornou-se indispensável em todos os estabelecimentos. Não só ele, mas também outros itens de higienização, como sabão, cândida, etc. Nos hospitais, esses itens são essenciais para garantir o cuidado dos pacientes e a integridade física dos profissionais de saúde, verdadeiros heróis da classe trabalhadora que estão arriscando suas vidas em situações completamente inadequadas para salvar vidas em meio a essa pandemia.

A União das Indústrias de Cana de Açúcar só ontem anunciou a doação de álcool para a produção de insumo e o Estado autorizou a produção de álcool em gel nas farmácias de manipulação. Mas isso ainda é insuficiente com a produção brasileira, tanto que foi autorizado zerar os impostos de importação de 67 produtos de fora, o que ainda assim não garante toda a demanda. Indústrias e supermercados foram proibidas de aumentar os preços de maneira exorbitante, mas ainda assim os produtos são bastante caros para grande parte da população. Estas empresas vêem tudo como uma grande oportunidade de mercado enquanto suas cifras estiverem subindo, deixando milhares de pessoas sem estes produtos. Não só isso, seguirão também explorando até a última gota de sangue de seus funcionários sem nenhuma medida de proteção, inclusive não liberando os funcionários que fazem parte do grupo de risco.

É o que relata Heitor, operário de uma fábrica de sabão do interior de São Paulo, que afirma que apesar do receio e da negligência da patronal com proteção, os trabalhadores entendem a importância do papel que estão cumprindo. “Desde quando começou a divulgação sobre os casos de epidemia e tudo mais, é impressionante porque uma linha que antes era uma pedra de sapato para empresa, essas linhas de sabão líquido passaram a rodar dia e noite. E uma coisa que eu acho que mais me chama atenção assim é que, mesmo com o pessoal com receio, está todo mundo meio com medo de trabalhar, de ficar nessa aglomeração assim, todo mundo tomando cuidado lavando as mãos e tal, mas mesmo com isso eles falam assim, o pessoal que trabalha comigo eles falam que eles têm que estar trabalhando porque é um produto que a população vai precisar… É até bonito assim escutar eles falando”.

Para garantir um serviço essencial como este sem colocar trabalhadores em risco, seria fundamental espaços de discussão dos trabalhadores, através das CIPAs ou fomentados pelos sindicatos, para que discutam quais medidas de prevenção devem ser tomadas, como por exemplo exigir o afastamento dos que estão no grupo de risco e a contratação de mais funcionários em substituição a estes. A contratação também seria importante para que fosse possível reduzir a carga de serviço e exposição dos que já estão trabalhando e que não precisassem pegar ônibus e trens lotados nos horários de pico. Isso, é claro, não poderia ser feito com redução de salário, uma vez que mais que nunca os trabalhadores precisam estar amparados com seu salário integral em meio a essa crise.

Mas é claro que nada disso é do interesse das empresas, querem apenas manter a fábrica a todo vapor, não pela funcionalidade dela para a população, mas sim para garantir suas cifras. “A empresa não quer fechar a fábrica porque ela tem os motivos dela, ela tá lucrando muito em cima, é justamente isso que dá um choque, porque a gente está lá trabalhando, entende que pode fazer muita diferença a gente trabalhar nesse momento para ajudar a combater essa epidemia, a gente vai no mercado assim vê o preço do produto e, se não aumentou, já é muito caro, entendeu. Então a empresa ela tá aproveitando de uma situação super absurda para conseguir lucrar mais sabe”, relata.

“A gente fica pensando por exemplo, eu converso com uma ou outra pessoa que trabalha comigo assim”, continua Heitor, “que se fosse produzido esse sabonete ali para para lavar a mão para evitar que contamine e fosse distribuídos por exemplo a preço de custo nos postos, nas escolas, eu acho que ia ter um impacto muito grande sabe, poderia reduzir pelo menos na população mais pobre assim sabe os casos, mas é isso assim, ao mesmo tempo que tem esse medo também tem esse sentimento mais bonito e dá um ódio de saber que a empresa ela tá usando essa situação de desespero para lucrar mais sabe.”

Ou seja, se fossem os trabalhadores a controlarem as fábricas, não seríamos nós a pagar por essa crise. Como discutimos aqui, é possível, com toda a tecnologia e capacidade produtiva disponível, criar uma saída para esta crise sanitária. No texto citado, apresentamos um exemplo da Inglaterra, em que o próprio governo britânico, encurralado pela crise, solicitou a Ford, Jaguar, Land Rover e Honda que comecem a converter parte de suas plantas de automóveis para fabricação urgente de respiradores, equipamentos essenciais para as UTIs. A própria Ambev no Brasil teve que ceder e produzirá 500 mil unidades de alcool em gel para doar para hospitais.

Entretanto, nas mãos dos capitalistas, para aplicar esta solução em larga escala, em todas as fábricas que possam servir para solucionar essa crise, há um limite mortal: o respeito à propriedade privada, os benefícios das grandes empresas e o desprezo das nossas condições de segurança por parte dessas patronais.

É por isso que medidas como esta precisam ser encampadas pelas grandes centrais sindicais, que neste momento apenas consentem com as parcas medidas já apresentadas pelos governos. Centrais como a CUT e CTB que dirigem centenas de sindicatos de categorias fabris deveriam estar criando em cada fábrica comitês de segurança em que os trabalhadores discutissem uma saída para essa crise e tivessem ações como esta.

Centrais à esquerda destas, como a Intersindical, que têm relativo peso nos sindicatos de Químicos no Estado de São Paulo, deveriam estar sendo exemplo de exigência dessas questões, entretanto panfletam nas fábricas assuntos rotineiros, sequer tratando da questão do vírus. Mais que nunca os trabalhadores precisam unir suas forças, se organizar e exigir destas direções. Nós do Esquerda Diário batalhamos nos locais de trabalho em que estamos por esta perspectiva, e nos colocamos lado a lado de cada um que queira buscar uma saída para esta crise em que não sejamos nós a pagarmos a conta.

Veja mais: confira este e outros relatos no novo episódio do podcast Peão 4.0 - “Contra o coronavírus, previna-se do patrão”, que está no Spotify, Youtube, Facebook, Deezer, Apple Podcasts e AudioBoom.

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