Política

RODA VIVA

Alckmin, o herdeiro do golpe

No Roda Viva da última segunda-feira (23/07), o que se viu foi um verdadeiro teatro orquestrado pela produção do programa junto ao tradicional jornalismo golpista d’O Globo, Veja, Estadão e Folha de São Paulo. Com o objetivo de isentar de perguntas incisivas o candidato para presidência pelo PSDB e o chamado Centrão, Geraldo Alckmin, as questões levantadas pelos entrevistadores foram todas moderadas e, diferente de outras entrevistas com outros candidatos, interrupções não aconteceram enquanto o tucano discursava em defesa das reformas de Temer e ensaiava até uma possível extinção do Ministério do Trabalho.

quarta-feira 25 de julho| Edição do dia

Com uma grande margem para se localizar bem na entrevista, Geraldo Alckmin adotou a postura de uma oposição moderada ao governo golpista de Michel Temer, ao mesmo tempo em que defendeu suas reformas – como a reforma trabalhista, que é um verdadeiro ataque aos direitos históricos da classe trabalhadora do país. Disse ainda que o responsável pelo governo de Temer é o PT, uma demagogia que tenta esconder que o seu partido, além de ter sido parte decisiva do golpe institucional, hoje também integra a base do governo com cargos e ministérios.

Em debate com a questão do fim do imposto sindical obrigatório, cuja revogação seria o ponto chave para o apoio do Solidariedade à sua candidatura, Alckmin apenas diz que é necessário “olhar para frente” e que não se governa olhando para o passado. O Ministério do Trabalho de Temer é comandado pelo PTB, partido ao qual PSDB se aliaria, e que vem sendo acusado de esquemas de corrupção. A solução do ex-governador foi dita com muita naturalidade: ao invés de se averiguar ou criticar qualquer medida que seja, ele anuncia que pretende extinguir a pasta, como se isso anulasse todo o restante.

Quando questionado sobre as acusações de corrupção por parte dele no recebimento de caixa 2 pela empreiteira Odebrecht e com a estatal Dersa, a impressão é de que foram perguntas para “cumprir tabela”, já que bastou negar os casos ou dar a volta por cima, chegando ao absurdo de defender publicamente e em rede nacional Laurence Casagrande Lourenço – ex diretor/presidente da Dersa –, indiciado nessa segunda-feira no escândalo de corrupção referente ao Rodoanel.

Geraldo Alckmin e seu Tucanistão

Alckmin tem uma longa carreira política em São Paulo, se coloca como o favorito de SP para a presidência, mesmo perdendo para Bolsonaro em algumas pesquisas no estado em que está a frente do governo há quase 30 anos, iniciado como vice no governo de Mario Covas em 1994, passando a governador em 2001.

Durante os governos tucanos, o estado esteve imerso em inúmeros escândalos de corrupção, sendo o escândalo da Máfia das Merendas o mais recente, onde membros do Governo Alckmin foram acusado de envolvimento em contratos superfaturados de merenda escolar à Secretaria de Educação e outras 22 prefeituras do estado de São Paulo. Fernando Capez (PSDB-SP) e Luiz Roberto dos Santos, então presidente da Assembleia Legislativa do Estado de São e o ex-chefe de gabinete da Casa Civil do Governo Alckmin, respectivamente, foram acusados de envolvimento direto no esquema de corrupção. E segundo o próprio Ministério Público, esse superfaturamento das merendas chegava a cerca de 25% do valor pela unidade.

Outro escândalo de corrupção envolvendo o Governo Alckmin foi a crise hídrica em 2014. Mesmo com avisos da própria Universidade de São Paulo sobre a crise hídrica que se avizinhava, graças ao descaso com a manutenção das represas que abastecem o Estado, sobretudo no Sistema Cantareira, os governos Alckmin e Serra seguiram não investindo no setor. Pelo contrário, mantiveram a Sabesp imersa a novos esquemas de corrupção que favoreciam 13 empresas de engenharia em contratos entre 2008 e 2013, o que se tornou o outro escândalo abrindo uma nova CPI. Dessa vez a CPI da Sabesp.

E quem não se lembra do Propinoduto? O esquema milionário envolvendo multinacionais da área ferroviária em fraudes de licitações, pagamento de propinas e superfaturamento de obras. O esquema funcionou desde o fim dos anos 90 até 2012, quando veio à tona, graças a investigações feitas na Suíça sobre a Siemens, em que apontavam por meio de delações nomes de diversas lideranças tucanas de São Paulo envolvidas, incluindo os secretários do Transporte, Jurandir Fernandes e José Luiz Portella.

Entre a lista dos muitos escândalos que acometeram o Governo Alckmin, um dos mais emblemáticos sem dúvidas foi o caso do “Socorro à Mídia Tucana”, quando o governo efetuou a compra de mais de 15.000 tiragens da Revista Veja, Estadão e Folha de São para que fossem distribuídas nas escolas de São Paulo como “incentivo a leitura”, sem sequer isso ter sido discutido na pasta de Educação e muito menos orientado nas escolas. Esse incentivo significou um custo milionário, mas sem dúvidas seus frutos são presentes até hoje, dada a relação diplomática dessas mídias com o ex-eterno-governador no último Roda Viva. Ou o correto seria dizer Roda Amiga?

Do Tucanistão ao Centrão

Apesar de só ter ganho as mídias nos últimos dias, o Centrão é bastante antigo. Conformado durante a Assembleia Constituinte de 87, reunindo na época partidos como o PMDB, PL (hoje PR), PDS, PTB e PDC, originou-se um bloco de deputados do espectro de direita que visava garantir uma constituinte sem aspectos muito progressistas.

Hoje o Centrão é formado por parlamentares do DEM, Solidariedade, PP, PR e PRB. Por hoje, esses partidos representam 145 deputados dentro da câmara. Mas sua influência fisiológica pode se ampliar e chegar a outros partidos fisiológicos, entre eles PSD, PHS, PPL entre outros. Se aliados ao PMDB, podem significar uma somatória de mais de 300 deputados, ou seja, mais que a metade da câmara.

O Centrão, apesar do nome, não tem nada de centro ou moderado, mas sim de direita e que atua conforme interesses próprios e de determinados setores da classe burguesa. Há muito está na base dos sucessivos governos, de FHC, passando inclusive pelos governos petistas até chegar no governo Temer. No último período foi dirigido por Eduardo Cunha, num esquema de compra e venda de votos, e teve papel central para a consumação do Golpe Institucional de 2016.

Recentemente diversos candidatos ensaiaram alianças com o Centrão, pois isso além de garantir votos dentro da câmara, também garante considerável tempo de TV durante as eleições para o candidato que o bloco apoiar. Ciro Gomes foi um desses candidatos que tentou demonstrar flexibilidade política para conseguir apoio do bloco ao mesmo tempo que faz discurso demagógico para garantir uma parte significativa do eleitorado progressista que, caso Lula não concorra de fato as eleições devido sua prisão arbitraria, poderiam enxerga-lo como saída ou mal menor. Mas fato é que o Centrão parece ter se decido pelo candidato tucano.

Uma herança de cortes de direitos e ataques aos trabalhadores e oprimidos

Durante todo o Roda Viva, apesar de tentar esconder da população e contar com a colaboração do jornalismo golpista para isso, Alckmin deixou claro que aprova todos os ataques de Temer desferidos aos trabalhadores, pois vê com bons olhos a reforma trabalhista e tece elogios a nefasta reforma do ensino médio.

Alckmin faz demagogia e tenta se localizar como algo novo, tenta se alçar como o candidato que pode voltar a unir um Brasil que, segundo ele, está dividido. Se há algo que se pode concordar com Alckmin é que o Brasil está dividido, sim. Divido não como Alckmin insinua, não entre lulistas e bolsonaristas, mas sim dividido entre uma massa explorados e uma minoria de exploradores, dividido entre golpeados e golpistas. E sabemos bem qual é o lado que o tucano está: o lado dos golpistas, o lado daqueles que ambicionam herdar o legado de Temer contra os trabalhadores. Uma herança que dê continuidade ao projeto liberal senil de cortes em direitos trabalhistas históricos, de arrocho salarial, de repressão aos movimentos sócias, de pagamento religioso da dívida pública e de completa submissão ao imperialismo norte-americano.




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