Educação

ESCOLA SEM PARTIDO

Ainda sobre o Escola sem Partido: o irrazoável Gustavo Ioschpe, Max Weber e o “ensino socialista”

Mauro Sala

Campinas

segunda-feira 5 de setembro| Edição do dia

Sempre acho curiosa a visão que os partidários da causa da Escola sem Partido tem dos professores e da juventude que estão nas nossas escolas públicas. Eles enxergam uma predominância socialista por parte dos professores e uma incapacidade de crítica da juventude frente ao “abuso de autoridade” docente. Detrás de sua cegueira ideológica, os partidários desse projeto são incapazes de enxergar a realidade de nossas escolas públicas, que só não acontece embaixo de seus narizes porque eles estão, quase sempre, bastante distante delas.

Esse domingo, mais uma estrela dessa constelação decadente de partidários do Escola sem Partido se manifestou na Folha de São Paulo. Num texto publicado na Ilustríssima, Gustavo Ioschpe deixou seu ponto de vista sobre o assunto.

Para ele, “todo cidadão brasileiro deveria saber que nossas escolas são templos de doutrinamento político e ideológico” que tem “impactos nefastos no nosso sistema educacional”, e que essa doutrinação, “quase sempre” tem um “viés filossocialista”. Para ele está acontecendo uma grande ideologização das escolas, já que a maioria dos professores acreditam que o papel principal do professor seja “formar cidadãos conscientes” e não simplesmente “proporcionar conhecimentos básicos” ou “formar para o trabalho”. Para ele, isso reflete esse papel politizador de nossas escolas.

O fato de os professores não acreditarem que sua função docente deva se sustentar numa insustentável posição de neutralidade também é utilizado pela estrela dos reformadores empresariais para sustentar sua tese. Para Ioschpe, o fato de a grande maioria dos professores concordarem com a afirmação de que “a liberdade e igualdade são importantes, mas, se tivesse que escolher uma das duas, consideraria a igualdade como mais importante, isto é, que ninguém se veja desfavorecido, e que as diferenças de classe social não sejam tão fortes” é prova do viés político “filossocialista” do nosso professorado.

Ele vai mais longe: toda a tentativa de produzir materiais didáticos que busquem fomentar a igualdade social, de gênero ou étnico-racial, é prova desse viés socialista e igualitárista. Até mesmo a formulação presente num edital para a publicação dos materiais didáticos onde se defende a “formação de um cidadão do século 21, pronto para aprender como bem utilizar e conservar os recursos naturais, respeitar os direitos humanos, a diversidade cultural e para lutar pela construção de uma sociedade mais justa, solidária, sem preconceitos e esteriótipos” é visto por Gustavo Ioschpe como um problema ou uma manobra ideológica da esquerda.

Indo sempre muito mais longe no seu irrazoável, Ioschpe diz que a própria Filosofia e a Sociologia foram incluídas no currículo para, se por algum motivo todas as outras falharem na inculcação ideológica, haver “mais duas oportunidades de doutrinamento, para que todos possam realizar seu catártico praguejamento contra as elites, o neoliberalismo e o jugo capitalista”.

O interessante é que ele vai defender seu ponto de vista sobre a importância da Escola sem Partido justamente recorrendo a um sociólogo: Max Weber.

Ioschpe cita longamente o sociólogo alemão para defender a separação entre escola e política. Em uma das passagens citadas, Weber diz que “num auditório, deve o professor falar diante dos seus ouvintes, e estes devem guardar silêncio; os estudantes, em vista de sua progressão, são obrigados a frequentar as aulas de um professor e nelas não é permitido fazer críticas. Considero, pois, uma irresponsabilidade que o docente aproveite esta circunstância para estampar nos ouvintes as suas próprias ideias políticas, em vez de se limitar a cumprir a sua tarefa: ser útil com seus conhecimentos e com as suas experiências científicas. […]. Sempre que o homem de ciência surge com o seu próprio juízo de valor, cessa a plena compreensão dos fatos”.

Comentemos a colocação de Max Weber por partes.

Primeiramente, temos que dizer que a relação entre estudantes e seus professores, tal como descrita por Weber no início dos anos 1920, é muito distante das relações entre os estudantes e seus professores nas escolas de hoje. Seja por abertura ou licenciosidade, essas relações são muito mais horizontais que as relações estabelecidas no tempo de Weber. Os estudantes não apresentam muita disposição para aceitar de forma submissa qualquer autoritarismo por parte de seus professores. Na escola de hoje é permitido fazer críticas. E frequentemente os alunos as fazem.

Para o bem ou para o mal, o que vemos é a juventude nas escolas questionando os seus professores a todo momento, seja nas questões de “ponto de vista” seja na questão dos conteúdos “objetivos” de suas disciplinas. Os estudantes questionam tanto as visões políticas “filossocialista”, quanto as machistas, homofóbicas e elitistas de seus professores. Mas eles também questionam os conteúdos da teoria da evolução das espécies nas aulas de biologia, ou as teorias do escravo-coisa ainda tão presentes em nossas aulas de história. Não há nada de passivo em suas atitudes perante seus professores.

Na escola não é apenas os professores que levam seus pontos de vista para serem debatidos; os próprios estudantes constantemente o fazem. Essa lei não vem para calar os professores apenas: ela vem para silenciar justamente os questionamentos da juventude.

Tanto o ponto de vista dos estudantes como o ponto de vista dos professores, muitas vezes são um misto de verdade e engano, ou seja, uma visão que traz muito do bom senso e de um conhecimento científico acumulado quanto dos preconceitos também acumulados e reproduzidos no nosso tempo. Em muitas das questões debatidas em sala de aula, são os educadores quem precisam ser educados.

Uma breve busca na internet pode nos dar uma mostra de quantas vezes os estudantes tiveram que questionar suas escolas e professores por atos de machismo, racismo ou homofobia, por exemplo. Ou o exemplo que nos deram nas ocupações de suas escolas em vários estados brasileiros, questionando as políticas de seus próprios Estados. E isso não veio de nenhuma doutrinação “filossocialista” ou “igualitarista” de seus professores; isso surgiu como uma necessidade posta pela própria experiência concreta da juventude nesse início de milênio.

Assim, discordando do grande sociólogo alemão, irresponsabilidade seria silenciar esses debates e essas iniciativas. As únicas vezes que eu debati o projeto do Escola sem Partido em sala de aula foi porque os próprios estudantes questionaram e promoveram esse debate. O que eu deveria dizer para eles? Que de acordo com a Lei do Escola sem Partido eu não posso responder sua pergunta sobre o Escola sem Partido? Acho que não seria uma boa saída.

Entretanto, parece que a recomendação do Weber, apesar do engano do maniqueísmo e da unilateralidade, tem algo importante para ser explorado: de fato, um professor deve, sobretudo, “ser útil com seus conhecimentos e com as suas experiências científicas”.

Não penso que possamos nos esquivar de expor nossas “próprias ideias políticas”, embora pense que nesses casos devemos estabelecer com o maior rigor os nexos lógicos e históricos que nos levam a esse ou àquele posicionamento. E mais, temos que ter claro, e deixar claro para os alunos, que se trata de uma visão política que diz respeito à um ponto de vista, que também deve e pode ser lógico e historicamente formulado.

Mas vamos lá. Embora não se resuma a isso, penso que a escola tem sua razão de ser, sua especificidade insubstituível, na contribuição que os professores podem dar a partir de “seus conhecimentos e suas experiências científicas”.

Se tirar a política da escola é esvaziá-la, preenchê-la somente com política também é. A política faz parte da escola, mas jamais a escola pode ser reduzida a um simples espaço do debate político.

Como nos ensinou Dermeval Saviani, a escola cumpre sua função política justamente quando socializa os conhecimentos historicamente sistematizados e acumulados pela humanidade para as crianças e jovens da classe trabalhadora. Ser socialista na escola é antes de tudo lutar para que ela seja um espaço de apropriação do conhecimento sistematizado.

Ou ainda, como dizia o insuspeito Lenin, é um equívoco pensar que para formar para o comunismo basta “aprender as consignas comunistas ou as conclusões da ciências comunista” sem “haver aprendido os conhecimentos acumulados pela humanidade”. Lenin nos diz que “da velha escola” (que ainda é a nossa escola!) temos que reter o essencial, pois “só se pode chegar a ser comunista quando se enriquece a memória com todo o tesouro de conhecimentos acumulados pela humanidade”; que ainda é “o conhecimento conquistado pela humanidade sob o jugo da sociedade capitalista, da sociedade proprietária, da sociedade burocrática”.

Os professores sabem disso e tentam todos os dias, nas condições mais adversas imagináveis, trabalhar para que seus alunos aprendam mais, e da melhor forma possível, os conteúdos escolares, ou seja, os conhecimentos das ciências, das artes, da filosofia, da ética… E por isso eles precisam discutir a política que todos os dias negam as condições objetivas para esse trabalho; o seu e o dos seus alunos.

Diante de salas com quarenta ou mais alunos, com jornadas de trinta ou mais aulas semanais, tendo que dar aulas para quinze ou mais turmas diferentes, às vezes em mais de três ou quatro séries, outras tantas em duas ou três escolas, muitos com contratos precários e lecionando disciplinas para as quais não tem formação específica e recebendo pouco mais que R$ 2000,00, os professores precisam falar de política para poderem ensinar. Eles lutam por melhores condições para o seu trabalho educativo.

Já os estudantes, sofrem a mesma condição, mas vista pelo outro lado da carteira: as salas superlotadas corroem seu interesse; as imensa jornada de trabalho dos seus professores os afastam da escola, adoecendo-os; os baixos salários e os contratos precários impõem uma alta rotatividade que atrapalha a aprendizagem; muitos são pobres e precisam tentar conciliar a escola com uma imensa e mal paga jornada de trabalho; tantos outros trabalham em suas casas e não tem tempo para estudar fora da escola. Os estudantes precisam falar de política para poderem estudar. Eles lutam por melhores condições de aprendizagem.

A escola não é socialista nem vive sob sua doutrinação. Se ela fosse, ela seria uma escola de ensino do mais alto nível baseado nos avanços mais significativos das ciências, das artes, da filosofia… a escola é apenas uma escola pobre, e por isso é tão necessário discutir como e porque as elites, o neoliberalismo e o capitalismo tem mantido a escola assim. Sem um entendimento crítico das condições históricas e ideológicas que levaram a educação a ser como está, é impossível encaminhar qualquer solução. E se a escola é pobre, não é culpa dos professores “filossocialista” que o Ioschpe parece ver por todo lado, mas antes da elite, do neoliberalismo e do capitalismo que o Ioschpe tanto defende.

Discutir e superar essas limitações é uma das condições necessárias para termos uma escola de qualidade que possa ensinar – socializar – os conhecimentos sistematizados e acumulados pela humanidade. O neoliberalismo rouba o dinheiro de nossas escolas públicas, precarizando o trabalho educativo dentro delas. Mas isso, para o bem pago e distante Gustavo Ioschpe, não passa de mimimi ou ideologia; e deve ser silenciado.




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