SEPARAÇÃO IGREJA E ESTADO

Agora mais do que nunca é necessária a separação da Igreja e do Estado

A votação do projeto pela legalização do aborto no senado mostrou mais uma vez, que os nefastos tentáculos da hierarquia eclesiástica na vida (e na morte) de toda a população.

sexta-feira 10 de agosto| Edição do dia

“Se pretende legitimar pela primeira vez na Argentina que um ser humano possa eliminar a seu semelhante”. A frase foi dita na noite de quarta na catedral metropolitana pela Arcebispo de Buenos Aires Mario Poli, não tinha como ser mais hipócrita.

Poli esteve à frente de uma “missa pela vida”, organizada pela Conferência Episcopal da Argentina, sabendo que o lobby e a pressão (com requintes de violência em alguns casos) já havia conseguido “convencer” senadoras e senadores suficientes para permitir que o aborto siga sendo clandestino.

Mais uma vez, a mesma hierarquia eclesiástica que abençoado e sustentando os genocidas na Argentina, consumado no século XIX contra os povos originários no “deserto” patagônico como o executado na década de 70 no século XX contra dezenas de milhares de operárias, operários intelectuais, estudantes e pobres; o que mostra seu cinismo maligno.

Dentro do congresso, uma casta reacionária de senadores e senadoras (que representam uma ala minoritária da população) resolveu manter na clandestinidade milhões de mulheres. Do lado de fora, no centro portenho e em muitas cidades de províncias, centenas de milhares de pessoas exigiram o fim da clandestinidade e com ele, a morte injusta de tantas mulheres.

Também é parte desse cenário a impossibilidade da igreja em transformar seus multimilionários recursos e exclusivos privilégios em uma mobilização de rua que poderia superar a contundente força do 1-10 em relação à maré verde que foi mobilizada em trens, metrôs, ônibus e a pé.

Cruzes e Cutucões

Se hoje a igreja católica estufa o peito e comemora sua vitória medieval sobre o direito básico das mulheres em decidir pelos seus próprios corpos, entre outras coisas, porque nenhum governo, independentemente de suas conclusões, se amimou em tocar em seus privilégios.

O peso que tem a igreja católica na formação do estado argentino se ampliou ferozmente com a ditadura, onde se reforçaram os laços com o estado. Naquela época esses genocidas cometeram as piores atrocidades e as ações foram legitimadas discursivas e “moralmente”. A serviço dessa legitimidade, os retribuíram com a hierarquia eclesiástica com enormes privilégios econômicos e institucionais. A ditadura terminou, mas os privilégios não.

Hoje seguem vivos e empurrando decretos de Videla, Galtieri e Bignone que dão salários e pensões especiais a bispos e sacerdotes, que subsidiam seminaristas para sua formação clerical e financiam diversos itens para o sustento do culto católico.

A cruzada continua

Nem o alfonsinismo (apesar da promulgação da lei do vínculo de divórcio), nem o menemismo, nem a Alianza, nem Duhalde e nem o kirchnerismo romperam os laços materiais que permitem que a igreja tenha uma interferência predominante na vida social e política da Argentina.

Apesar da legislação histórica de leis onde o matrimonio igualitário e identidade de gênero são garantidos, durante anos o governo kirchnerista fez o pacto da Casa Rosada com a Hierarquia católica, inclusive, colocou pesadas lapides sobre as demandas de milhões sobre o Aborto. Tudo no quadro do oficial precisa agradar o sucessor de Joseph Ratzinger no Vaticano.

Por outro lado, nas instancias de Cristina Fernandez ( arranjo com Jorge “Francisco” Bergoglio através) em 2014 incorporou um novo código civil com a definição “A existência de uma pessoa humana começa com a sua concepção”.

Pode até parecer paradoxal, mas aqueles que encheram suas bocas reclamando contra a CFK hoje acabaram agradecendo-lhe por aquela preciosa contribuição, incorporando-a em suas intervenções para basear seus votos contra no Senado.

Por outro lado, foi a mesma Fernandez de Kirchner que durante anos "bajo línea” (passou dos limites) para seus legisladores e legisladores para anular até mesmo a possibilidade de que o projeto de lei de interrupção voluntária da gravidez, apresentado pela Campanha Nacional de O direito ao aborto em repetidas ocasiões. E durante quase todos esses anos o Kirchnerismo manteve a maioria nas duas casas do Congresso.

Fiel ao seu estilo, a ex-presidente nunca pediu desculpas por tais traições dos direitos das mulheres, embora este ano ela tenha acabado reconhecendo o direito ao aborto dando seu voto no Senado. Talvez ele tenha feito isso apenas para impedir que o triunfo da reação obscurantista fosse mais volumoso

Basta!

O deputado do PTS-FIT Nicolás del Caño lembra que, segundo dados oficiais, o orçamento destinado para remuneração dos bispos este ano totaliza o montante de $130.421.300 (pesos). Com esse orçamento, os salários de $46.800 são pagos aos bispos diocesanos e aos administradores apostólicos e de $40.950aos bispos auxiliares e eméritos.

São números mais que suficientes para que Del Caño impulsionasse uma petição de revogação dos privilégios da Igreja Católica.

Várias lições deixarão o movimento das mulheres (e os milhões de homens que o acompanham) na votação desta madrugada no Senado. Algumas delas foram construindo suas posições no calor das assembleias, debates e declarações daqueles que defendem esses direitos elementares. Outros já podem ser escritos.

Entre estes últimos está aquele que já se transformou em uma campanha e que começou a povoar as ruas com lenços cor de laranja com o slogan "Igreja e estado são coisas separadas". Uma campanha que se forma quase naturalmente no meio do debate parlamentar sobre o aborto e que contém em si uma ameaça real aos interesses da instituição milenar e obscurantista.

É por isso que Bergoglio, Poli e seus aliados lançaram uma guerra santa contra um direito elementar para metade da humanidade. Eles abençoaram tanta morte disfarçaram com fervor e agora se recusaram a deixar que o Estado se encarregasse de garantir a saúde das mulheres numa absurda "defesa da vida".

É por isso, então, que a conquista do aborto legal, seguro e livre estará intrinsecamente ligada à luta pela efetiva separação da Igreja e do Estado. Hoje mais que nunca.




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