Política

DEBATE COM A GRANDE MÍDIA

Agenda de ataques emperrada e o mistério da correlação de forças: debate com os editoriais do dia

Diferente dos dias de campanha concentrada como na véspera de atos pelo impeachment os editoriais dos três grandes jornais da elite brasileira aparentam discrepar nesta manhã de domingo. Como fazemos frequente no Esquerda Diário, trazemos a nossos leitores uma análise dos editoriais dos grandes jornais e com isso buscamos traduzir quais são as preocupações de parte das classes dominantes no país. Como dizia o revolucionário italiano Antônio Gramsci, frequentemente os jornais assumem o papel de um partido político, e isto é mais verdade ainda em situações onde há crise de representatividade dos partidos tradicionais.

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

domingo 14 de agosto| Edição do dia

Percorrendo os argumentos díspares para chegar na agenda comum

Enquanto a Folha centra seus argumentos na reforma política em “Salto no Escuro”, na necessidade de avançar mais na reforma da previdência com seu “Regalias na Caserna”, o Estadão concentra ataques à juventude e funcionalismo em furioso “universidade dividida”, seu editorial principal “a política pode ser diferente” discute o fisiologismo e as falhas de Temer em implementar uma agenda de ajustes, por fim fecha sua tríada editorial “ideias perigosas” um editorial que mostra o projeto de Lei reacionário que dá poderes de Big Brother a nossas assassinas polícias militares. O jornal carioca O Globo traz um ataque ao funcionalismo público com seu “Direito de greve de servidores precisa ser regulamentado” e no editorial principal argumenta a favor da energia nuclear.
Nesta miríade de argumentos podemos, se os percorrermos, ver a real preocupação do partido midiático.

A Folha, utilizando o mesmo argumento de Gilmar Mendes diz que a reforma política aprovada no ano passado consistiu em um “salto no escuro”, e tal como ele e os tucanos advoga pela cláusula de barreira e critica a proibição de financiamento empresarial. São elogiosos das restrições democráticas como a diminuição do tempo de campanha, o que favorece aos políticos conhecidos, endinheirados e artistas, e prejudica os trabalhadores. E querem mais: excluir a esquerda via clausula de barreira.

Seu outro editorial, tomando como alvo os militares e seus privilégios tem como objetivo não o ataque a este setor do Estado brasileiro, que, como sempre é tratado a pão de ló, mas trazer maior coerência ao ataque a todos trabalhadores.

O Globo consegue a proeza de escrever um editorial que utiliza a greve dos professores do Rio, para seus fins, sequer mencionar que tiveram cortes de salário. É tipo assim, esqueçamos a crise brutal naquele Estado e em nome de representar os interesses dos pobres alunos de escolas públicas, que de resto a família Marinho pouco se importa, critiquemos o abuso dos grevistas. Seu editorial advoga pela aprovação de lei para maior regulamentação de greves no funcionalismo estipulando uma quase proibição a que ocorram. Proibição a que professores deem aula sem salário, bem isso pouco importa a esse jornal.

O Editorial principal do Estado traz como introdução em sua edição eletrônica a seguinte passagem “a defenestração do PT, portanto deveria sinalizar a reversão desse processo de desmoralização da democracia, reestabelecendo o princípio das alianças em torno de projetos, e não de verbas, sinecuras ou coisas pior”. O problema é do fisiologismo lulista, como se fosse uma criação da mente perversa de Lula e Dirceu, e não expressão e continuação petista da mesma política capitalista também praticada pelo PMDB, PSDB e outros.

Feita esta crítica ao PT, todo argumento do jornal da família Mesquita é de criticar os parlamentares que “esses políticos não fazem outra coisa senão pensar na eleição seguinte, é o caso de perguntar se em algum momento o governo poderá contar com eles para aprovar medidas relevantes para o país”. Por trás da demagogia de preocupação com a democracia o jornal expressa sua real preocupação: 55 parlamentares da base de Temer não votaram a favor do ataque ao funcionalismo estadual e em especial o Solidariedade do arqui-pelego Paulinho da Força.

O que se mostra neste conjunto de argumentos diferentes que o partido midiático nos brinda neste domingo é uma preocupação em como avançar em ataques aos trabalhadores e para isso avançar em restrições na nossa já restrita democracia do suborno. Essa preocupação vem à tona na mesma semana que criticaram Temer por demorar na implementação da agenda e os tucanos no Senado também ergueram sua voz. Do plano à execução há dificuldades. E parecem não querer ver isso.

Como é de se prever com suas mentalidades embebecidas por penas ébrias de caros e raros Romanée-Conti e seus vícios de classe, os jornais todos ficam prostrados diante de algo que lhes escapa o controle e a compreensão: a correlação de forças. Querem brutais ataques. Temer está disposto a fazê-lo. Os parlamentares são representantes das elites. Estão em sua amplíssima maioria com Temer e por que, se espantam nossos editorialistas da classe adversária porque não aprovam as coisas? Por que 55 vacilam? Por que a arqui-pelega Força Sindical nascida do bolso e cérebro patronal vacila e chega até o desproposito de convocar uma burocrática e falida jornada de lutas nesse dia 16?

Não compreendem e não querem compreender que os parlamentares por mais orgânicos e convictos representantes dos empresários que sejam, por mais conciliadora e pró-patronal que seja a Força Sindical todas essas pessoas não passam é de mediações políticas e sindicais, e como tais precisam expressar algo de seus eleitores e suas bases sindicais. Uma coisa é defender a reforma da Previdência no seus editorais, outra é levar isso como uma vitória de “nosso deputado” para a porta de uma fábrica. O mesmo vale para o ataque ao funcionalismo.

Distorcidamente essas vacilações na frente golpista mostram a correlação de forças. O enigma para a burguesia brasileira. A vitória do impeachment ainda está longe de significar uma vitória da aceitação da agenda da FIESP em um pleito eleitoral e mais ainda em um pleito sindical.

A correlação de forças permite resistência a estes ataques planejados diariamente e rotineiramente defendido nos editoriais dos grandes jornais. Não será da burocrática e pouco construída manifestação do dia 16, encampada, no papel, por todas centrais sindicais do país, que virá uma força decidida nessa resistência.

A fotografia da maioria parlamentar discrepa com a correlação de forças nos locais de trabalho. Isso não durará para sempre. E a agenda de ataques para avançar neste sentido está posta. A elite não entende a correlação de forças, olha embasbacada a essa esfinge. Ao PT pouco lhe importa isso também. Seus cálculos se resumem a 2018 e não se defendemos a Petrobras e nossas aposentadorias, direito de greve e vários outros direitos em xeque primeiro por seus ataques e agora das mãos de Temer.

A situação política e seu descompasso entre a verdadeira correlação de forças e a inação dos sindicatos do país, seguindo seus interesses burocráticos e aceitação do golpe por parte da cúpula lulista, abre espaço e necessidade para surgir uma esquerda que tenha influência nas massas e supere a conciliação de classes do PT, e a este desafio que orientamos o Esquerda Diário para contribuir. O não desenvolvimento de uma força como essa abrirá espaço para alternativas patronais sejam elas verde-oliva como Bolsonaro, verde-dólar como Marina ou velhos representantes patronais tucanos, travestidos de mudanças.




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