Mundo Operário

GREVE DOS CORREIOS

Agências fechadas, atendentes em luta!

Na greve deste ano uma das novidades é a entrada em cena dos atendentes como uma força que não se tem registro

quarta-feira 23 de setembro de 2015| Edição do dia

A greve dos Correios de 2015, que nitidamente é uma das mais fortes dos últimos anos, parece também se destacar como a maior greve de atendentes de que se têm notícias. É realmente difícil afirmar os números, pois a ECT distorce os dados na imprensa, e não detalha também por setor. Mas em muitas notas, informes dos sindicatos, e também nas fotos da greve se percebe uma presença significativa de atendentes, com várias agencias paradas pelo menos na região de Campinas, São Paulo, e nos estados de Santa Catarina, Rio de Janeiro e Bahia.

Tradicionalmente, os carteiros, maioria na base da categoria, são a vanguarda e o setor mais combativo nas lutas. Os operadores de triagem e transbordo, que estão presente em menor número na empresa, mas concentrados em unidades estratégicas onde a carga é triada, também participam mais do que os atendentes.

Atendente Comercial 26.739 22,39%
Carteiro 60.951 51,04%
Operador de Triagem e Transbordo 14.065 11,78%
Outros cargos 17.656 14,79%
Total 119.411 100,00%

* do site dos Correios www.correios.com.br

Do ponto de vista do “conforto” e desgaste físico, as atividades de carteiro e ott são realmente mais pesadas, porém os atendentes são bastante explorados. Conversando com qualquer trabalhador dessa área, rapidamente se chega a uma listinha: vidas em risco devido aos constantes assaltos, sistema que varia entre lento, inoperante ou funcionando com erros; péssima climatização, metas (de “combos”; sedex 10, 12, e convencional; de embalagens, de mala direta, de selo personalizado, Telesena, PostalCap, abertura de contas, empréstimos, CDs do Hospital do Câncer de Barretos, Telegrama na hora, e cabe ainda um bom “etc”), variedade de serviços, já que trabalhamos para a ECT, para o Banco do Brasil, para a Receita Federal, para o Sílvio Santos... E muito assédio moral.

Apesar de oferecer abertura de conta, empréstimo, saque, consulta de saldo e extrato, depósito, a jornada de trabalho e o salário não são os mesmos que os de bancários. E enquanto reivindicamos a redução, a empresa está anunciando aumento de jornada.

O que explica a baixa adesão dos atendentes na maioria das greves é, por um lado, o fato de o número ser realmente menor que o de carteiros, e ainda, mais distribuído em diferentes unidades. O ritmo de trabalho e a relação com público e gerencia também dificultam a discussão e consequentemente a organização dos atendentes. Nenhuma dessas pressões é combatida pelos sindicatos, ao contrário, embora as reivindicações apareçam nas pautas historicamente, pouco esforço é feito para quebrar a cultura de assédio moral e de distanciamento dos atendentes.

O problema é que nos últimos anos além de ter aumentado a politização na sociedade como um todo, fazendo com que em muitas agências os diálogos com os clientes sejam cada vez menos sobre futebol e novelas, e cada vez mais sobre política e economia, e os anseios por uma sociedade melhor pra se viver; a ECT tem abusado cada vez mais dessa “cultura” de versatilidade e paciência dos atendentes, sem limites no aumento das cobranças e serviços, e sem oferecer nada em troca. Chega ao ponto de que, em algumas agencias, sugere-se que os próprios atendentes tenham que realizar serviços bancários ou fazer doações, pra bater as metas. Por outro lado, cada falha, cada erro, por menor que seja, ou ainda que seja induzido pelo sistema, pelo ritmo de trabalho, pela boa vontade do atendente em resolver problemas sem suporte, a consequência é sempre cobrança.

O que os atendentes em greve estão dizendo é que, além de se reconhecer como parte da categoria, e estarem dispostos a lutar por um reajuste salarial e em defesa do Convênio Médico, mesmo com a legítima desconfiança que sentem dos sindicatos, das traições das burocracias e divisão da categoria, não suportam mais a superexploração nas agências. Estão dizendo: chega!




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