Opinião

Adaptação oportunista “como meio e não como fim” às Diretas?

André Augusto

Natal | @AcierAndy

sexta-feira 7 de julho| Edição do dia

Enquanto a crise do governo golpista de Temer motoriza o ‘vazio de governo’, fica cada vez mais claro que a campanha encabeçada pelo PT de “Diretas Já” não apenas não mobiliza setores de massas, mas fica mais fraca no curso dos dias. Não à toa: o objetivo do PT não é emplacá-la agora, mas utilizá-la para sua estratégia “Lula 2018”.

Apesar disso, organizações da esquerda como o MAIS não abrem mão de defender esta política de subordinação ao petismo. Dentro da série ininterrupta de piruetas para justificar o injustificável, o MAIS criou uma nova concepção de “meios e fins”, dissolvendo o vínculo dialético entre os dois, e concluindo que um mesmo “meio” (a política de Diretas) poderia conduzir a fins divergentes segundo quem os utilizasse. Voltaremos abaixo sobre essa confusão.

Nem mesmo a adoção da consigna de ‘Diretas’ por um considerável arco de figuras, organizações e instituições burguesas – como o tucano FHC, partidos como o PSB e o PDT, e grupos como a Folha de S. Paulo – foi capaz de convencer o MAIS de que se trata de uma política para a revitalização do regime político corrupto da burguesia com a benção das urnas. A salvação era inventar que “nenhuma fração burguesa” defendia eleições diretas.

A alegação do MAIS sempre foi que era “preciso levar em conta o anseio da população em votar, e não tratar com indiferença este anseio”. De fato, fomos os mais consequentes em defender o direito do voto sequestrado da população, enquanto boa parte da esquerda apoiava o golpe institucional. Mais de uma vez discutimos que levar em consideração o anseio legítimo da população de votar seus representantes, contra os golpistas desse Congresso corrupto e seu presidente, não significava dobrar a espinha diante de um programa oportunista que tem literalmente como lema “diretas já é a única saída para estabilizar o regime”, lema da Frente Ampla pelas Diretas da qual o MAIS ainda (sic) faz parte, junto a partidos burgueses como PSB e PDT, além de PT e PcdoB.

O modo da esquerda revolucionária não ser indiferente à consigna de Diretas Já é mostrar como se trata de uma armadilha sob máscara "democrática", a forma que mais beneficia os planos do PT de sequestrar o ódio legitimo anti-Temer da população para assegurar governabilidade ao regime político burguês e aplicar as reformas à sua maneira; e não abraçá-lo cegamente como se fosse a única maneira de dialogar com a vontade de voto das massas.

Essa adaptação oportunista conduzia o MAIS a explicar sua diferença com a consigna do PT dizendo que, ao contrário dos petistas, “queremos eleições gerais, para o Congresso e a presidência”.

Afinal, essa seria a grande discussão de estratégia com o PT? Que eles só querem um novo presidente, e a “esquerda radical” deve querer não apenas isso, mas também "renovar" o Congresso? Com essa política o MAIS se afundou e se debateu no pântano da política sem um átomo de independência de classe (“é uma saída por dentro do regime”, como reconheceu o próprio Valério Arcary.

Sentindo a fragilidade dessa posição, o MAIS desincumbiu-se da pobre carga polêmica do argumento anterior, para uma mais “audaz”: a questão era que para eles “as Diretas são apenas um meio, e não um fim em si mesmo”, como era para o PT. A situação ficava cada vez mais difícil, para não dizer ridícula. A saída talvez fosse que o MAIS inscrevesse em sua bandeira em cada ato “Diretas Já, como um meio e não como um fim!”. Faria pouco em elevar o caráter independente da política, já que certamente a consigna de Diretas serve como meio para restituir legitimidade ao sistema político corrupto e autoritário da burguesia.

Sendo impossível esconder que se defendia uma política que facilitava o Lula 2018, a mais recente tentativa de explicar tamanha capitulação oportunista pelo MAIS foi encontrar um benefício adicional às Diretas: permitiria que a população “completasse sua experiência com o PT”.

Para os marxistas, nunca foi necessário tornar-se responsável político por um programa do inimigo a fim de elevar o nível de consciência de classe dos trabalhadores. Leon Trotski, especialmente, não poupava esforços em enfatizar a importância de nunca tornar-se responsável, nem mesmo em partes, pela linha de outro partido, muito menos ajoelhar-se diante da bandeira de outro partido. Que a subordinação sirva como “meio” não melhora as coisas.

Combater a estratégia petista de conciliação de classes exige, pelo contrário, denunciar seu sistema de pactos com a direita a serviço da governabilidade burguesa, a ausência de qualquer luta séria contra o golpe institucional, sua política de oposição responsável e pacífica e o papel de bloqueio à luta de classes que cumpre através de sua influência nas organizações sindicais de massas. Ter ilusões na burocracia sindical, ao ponto de dizer que a crítica da CUT e da CTB poderia “trazer a Força Sindical e a UGT de volta para a luta” vai na contramão desse objetivo.

A consigna de Diretas dissolve toda esta crítica. Talvez por isso seja difícil encontrar nas publicações do MAIS pós 30 de junho chamadas enfáticas em defesa das Diretas. O que não deixa de ser uma defesa mais envergonhada da mesma política, tão errada agora como era antes.

Mas e se as Diretas mobilizassem alguns setores, estaria correta a concepção do MAIS? Seguiria tão oportunista como antes, pois aqui a pergunta é: essa política mobilizaria em função de que estratégia? O objetivismo morenista está aqui em sua plenitude como herança do PSTU: basta seguir o movimento, adaptar-se a ele tal como ele surge e evolui, que a realidade por si só tratará de revesti-lo de um caráter revolucionário. O papel de uma direção independente fica reduzido a zero. Esta ilusão, sedimentada ao nível da teoria morenista, coloca hoje o MAIS a reboque de uma política de conciliação de classes pela via da estabilização do regime político.

Cumprir um papel de influência revolucionária sobre a consciência de classe dos trabalhadores vai na contramão disso. Exige não adaptar-se ao movimento “tal como ele é”, base do objetivismo morenista. Para nós, junto à batalha por exigir das centrais sindicais majoritárias um plano de luta consequente contra as reformas de Temer e do Congresso corrupto, ouvir o anseio pelo voto significa defender a eleição de representantes para uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, a única maneira de batalhar para que este anseio popular esteja dirigido contra todas as instituições do regime político burguês, enfrentando a vontade dos trabalhadores contra a vontade dos empresários, começando por anular todas as reformas de Temer e lutando para que os capitalistas paguem pela crise.

Por ora, o MAIS dá indícios de que segue amarrado à carruagem do regime político que precisa ser destruído.




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