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Acordo secreto de Bolsonaro e presidente paraguaio desperta crise ao impor submissão em torno de Itaipu

Toda a imprensa já noticia o escândalo que envolve os governos paraguaio, de Mario Abdo Benítez, e brasileiro, de Jair Bolsonaro, sobre o acordo secreto assinado por ambos presidentes sobre a Usina Hidrelétrica de Itaipu. Um escândalo de grande proporção no Paraguai que já levou a renúncia de vários funcionários do governo e tem gerado grande escracho do povo e de importantes figuras contra o conservador presidente paraguaio e em defesa da soberania nacional do país.

quinta-feira 1º de agosto| Edição do dia

Há poucos dias veio à público um polêmico acordo secreto de Jair Bolsonaro e Mario Abdo Benítez, Presidente paraguaio e membro do também conservador Partido Colorado, abrindo uma importante crise no Paraguai, que por outro lado é um importante passo do governo brasileiro em nome dos interesses da burguesia nacional e dos capitalistas instalados em nosso país, que avança contra as riquezas e recursos naturais de nosso país vizinho, escancarando assim a submissão que o Governo Bolsonaro quer impor aos menores países da América Latina, submissão essa que acompanha a agressividade e a rapidez com que atua na entrega dos recursos brasileiros ao Imperialismo norte americano, rifando nossas riquezas e nossos direitos através de medidas anti-populares como a Reforma da Previdência para satisfazer os interesses de Trump e a sede de lucros dos capitalistas.

O acordo de Benítez com Bolsonaro, que está sendo questionado pelo Congresso, pelo povo e por importantes nomes da intelectualidade política no Paraguai, reverte um acordo sobre a divisão da energia feito em 2009 entre os Presidentes Lula (PT) e Fernando Lugo, também de centro esquerda e que sofreu um golpe do Partido Colorado que governa desde 2013. Mudança que na época triplicou a compensação do Paraguai na venda da energia excedente ao Brasil chegando a atingir 360 milhões de dólares (1,365 bilhão de reais) anuais ao país e que agora pode se reverter num ônus de 200 milhões de dólares anuais.

Segundo revelações do jornal paraguaio ABC Color, uma empresa “supostamente ligada” à família de Jair Bolsonaro está por trás do acordo de Itaipu – a Leros Distribuidora. O advogado José Rodríguez Gonzalez, apontado como assessor jurídico do vice-presidente nas negociações, teria informado que o Paraguai não poderia comercializar energia ao Brasil porque era preciso “reservar o negócio” para a empresa Leros, supostamente “ligada à família presidencial” brasileira.

Essa crise que já impulsionou a renúncia do Presidente da ANDE (empresa estatal de eletricidade), assim como de seu sucessor, além do Ministro das Relações exteriores, do Embaixador do Paraguai no Brasil e até da Ministra Anti-Corrupção do país, e que levou também a oposição a criar uma comissão de investigação, além de falarem até no Impeachment de Abdo Benítez, acusado de querer entregar o país e as riquezas do povo paraguaio.

O povo paraguaio, que no Séc. XIX já foi alvo do espólio de potências latino-americanas como o Brasil e Argentina durante a conhecida guerra do Paraguai e depois novamente saqueado com o Tratado de Itaipu em 1973, assinado pelos generais Emílio Garrastazu Médici do Brasil e por Alfredo Stroessner do Paraguai, durante a Ditadura Militar brasileira, que deu então início a construção da Usina – uma das maiores do mundo, reivindica nada mais, nada menos que a soberania nacional e fim da submissão de 50 anos imposta com a assinatura desse Tratado, que em seu texto já previa que o Paraguai entregasse todo o excedente de energia à preço de custo ao Brasil, dado que população consome apenas 15% do que é gerado, ou seja, deixando de vender essa energia pelo preço de mercado e assumindo dessa uma dívida que seguirá até 2023 e que vem pagando há mais de quatro décadas(!), exatamente pelo empréstimo feito com o Brasil para construção de Itaipu.

O Esquerda Diário entrevistou Marcelo Pablito, dirigente do MRT - organização que compõe a Fração Trotskista pela Quarta Internacional e é trabalhador do bandejão da USP – Universidade de São Paulo e diretor de base no SINTUSP – Sindicato dos Trabalhadores da USP, sobre a crise em torno da Itaipu, veja abaixo:

“Essa importante crise que envolve Bolsonaro e Benítez, ambos governos ultrarreacionários da América Latina, é a expressão dos interesses do Estado brasileiro de subordinar os países ainda mais dependentes que o Brasil em nosso continente ao mesmo espólio com que entrega as riquezas e vende o futuro da classe trabalhadora brasileira em nome dos interesses do Imperialismo e dos capitalistas, para que o povo paraguaio pague, assim como nós pela crise que desde 2008 vem sendo recorrentemente despejada sob nossas costas. Medida que remete também a xenofobia despejada sob a Venezuela e ao conjunto dos imigrantes de países saqueados pelo Imperialismo que buscam uma nova vida nos EUA e se deparam com as fronteiras levantadas pelo discurso racista de Donald Trump, exatamente para manter a política de saqueio dos países economicamente subordinados e por outra via, de entreguismo desses países que encontram em políticos como Bolsonaro e Benítez a disposição de negociar a vida da nossa classe.

A Itaipu toca numa aspiração legítima do povo paraguaio pela sua soberania e contra a opressão exercida pelo Estado brasileiro que mantém uma relação de exploração há quase cinquenta anos e que gera um lucro bilionário à burguesia brasileira e as multinacionais instaladas em nosso país, isso enquanto os trabalhadores sofrem com sistemáticos aumentos no custo da energia elétrica que em nada correspondem aos baixos salários e a realidade de 13 milhões de desempregados do Brasil... Frente à tudo isso é nosso dever exigir junto ao povo paraguaio a imediata publicação do conjunto do acordo orquestrado por Bolsonaro e Benítez, para que cesse a diplomacia secreta que serviu para entregar nosso país ao Imperialismo como no acordo com a União Europeia e que agora é utilizada para promover a opressão e a exploração de nosso país vizinho. E exigir também que caia o sigilo que existe sob documentos brasileiros sobre o Paraguai, inclusive sobre a guerra que saqueou esse país que reflete em suas condições há mais de 140 anos(!). Defendemos a soberania paraguaia acima dos interesses do seu Governo capitalista, que assim como no Brasil impõe ao povo uma miserável condição de vida ao seu povo para vender os recursos naturais nacionais em benefícios dos empresários e capitalistas. A unidade da nossa classe pode atropelar as fronteiras impostas pelo capitalismo e efetivar uma força que expresse a solidariedade dos povos na luta pela autonomia e gestão de seus recursos hídricos, naturais e de toda a riqueza que pertence ao povo, ativando o potencial instalado da união entre os trabalhadores dos Estados da América Latina em prol de um objetivo Socialista em todo o sub-continente.”




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