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RACISMO INSTITUCIONAL

Absurdo caso de racismo em concurso público de Goiás

No último dia 15, um concurso público na pequena cidade Morrinhos, sul de Goiás, deu mais um exemplo de como a lógica racista está enraizada nas instituições.

Allan Costa

Militante do Grupo de Negros Quilombo Vermelho - Luta negra anticapitalista

segunda-feira 29 de janeiro| Edição do dia

Foto: TV Anhanguera/Reprodução

Não é de hoje que o racismo encontra diversas formas de perpetuar seus valores asquerosos na sociedade. Isso acontece através de meios que vão desde piadas e estereótipos de beleza até a violência policial e a naturalização das condições sub-humanas a que a grande maioria dos negros é submetida hoje no mundo.

A prova do concurso para o cargo de "Fiscal de Posturas" foi feita por mais de 3 mil pessoas e trazia em suas páginas uma proposta de reflexão sobre a "Origem do Racismo", onde listava uma série de afirmações supostamente históricas e religiosas seguidas de alternativas onde todas as possíveis respostas eram escancaradamente racistas. O texto descrevia a ideia formulada século XV por teólogos europeus de que a escravidão seria "natural", baseando-se no trecho bíblico que dizia que Canaã, um dos netos de Noé, havia sido punido com a servidão depois de seu pai ver seu avô nu e embriagado.

Logo após, a prova pedia para apontar qual era a alternativa correta ligada a esse tema. As alternativas, para a revolta de vários candidatos, eram: “negro parado é suspeito, correndo é ladrão, voando é urubu”; “negro quando não suja na entrada, suja na saída”; “negro deitado é um porco, e de pé um toco” e "Negro só tem de gente os dentes", sendo que esta última, segundo os organizadores, seria a resposta "correta".

Apesar de a organização do concurso negar que a questão tenha um cunho racista, vários candidatos, dentre eles muitos negros, se sentiram constrangidos e ofendidos com a questão. Uma denúncia foi feita e agora os responsáveis serão chamados para esclarecimentos na Polícia Civil.

Ao mesmo tempo em que usam um argumento bíblico totalmente descontextualizado para explicar a servidão na antiguidade (que nada tinha a ver com a cor da pele), os organizadores demonstram completa falta de crítica histórica sobre a elaboração das teorias racistas como forma de justificativa para a absurda e catastrófica empreitada europeia que escravizou milhões de negros africanos, empreitada essa profundamente ligada com o desenvolvimento do próprio capitalismo moderno. Ou seja, não explicavam a origem do racismo e ainda, pelo contrário, destilaram racismo ao não colocar uma explicação que de fato repudiasse essas teorias racistas.

Em tempos de crise e reformas, fazer um concurso público é para muitos trabalhadores a chance de conseguir um emprego que garanta alguma estabilidade (cada vez mais frágil com a aprovação das reformas). Porém, para a maioria do povo negro que tem seus direitos mais básicos a educação negados, essas provas são um filtro que garantem que a grande maioria não consiga acesso a essa possibilidade. Para os que passam por cima de tudo para tentar, ainda resta ter que se deparar com esse tipo de conteúdo humilhante nas provas.




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