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Abricó-de-Macaco, João Bosco e os “críticos da crítica crítica”

Guilherme Pinho

Abricó-de-Macaco, João Bosco e os “críticos da crítica crítica”

Guilherme Pinho

Não sou um crítico musical. Esse texto têm uma motivação e um objetivo. A motivação é a crítica desonesta da Folha ao Álbum Abricó-de-Macaco e o objetivo é incentivar o leitor a escutar o álbum com olhar atento que a obra de arte merece. Vamos tentar desconstruir alguns mitos que a crítica da Folha se cria, também por sua falta de criatividade, ao menos reproduz.

1) João Bosco toca e Aldir pensa, sem Aldir João é um caramujo que vive na casca do violão

Aldir Blanc faleceu durante a pandemia, de Covid-19. A parceria dos dois se estendeu por muitos anos, mas essa não era de todo harmoniosa, possuía competição e conflitos. As músicas de João e Aldir também questionavam a ordem social vigente em muitos sentidos e como é, infelizmente, muito comum, a mídia se põe no papel de falsificar a vida, as ideias e a obra daqueles que enfrentam as ideias dominantes.

Para Aldir, João vivia dentro da “casca do seu violão”, uma referência ao papel de executor que João supostamente cumpria na dupla e a personalidade ego-centrada de João Bosco. Nas recentes entrevistas sobre o Abricó, João compara Aldir a um Don Quixote, alguém que “entrava nos livros e ali ficava”. Para ele, sobrava o papel de Sancho Pança. Esse é mesmo um pouco a imagem que fica ao lermos as críticas ao Abricó-de-Macaco da Folha, do G1 e de outros sites especializados r de notícias. Não creio que seja à toa que a lei de auxílio a cultura durante a pandemia, proposta pelo PT, chama-se Aldir Blanc.

Mas a ideia de que João executa (toca) e Aldir que pensa não passa de um desconhecimento muito grande da obra de João Bosco, que possui dezenas de letras autorais e com outros parceiros, como Francisco Bosco e os já citados Waly Salmoão e Antônio Cícero. E vários de outros, incluindo Rom Jobim, Paulinho da Viola e Vinicius de Moraes, com quem compôs o hino “Samba de Pouso” tomando Whisky (“Odete” apelidado pelo escritor João Ubaldo Ribeiro) às 5 da manhã.

Vale lembrar que o disco, lançado dia 15 de maio desse ano e que cujo lançamento foi adiadona expectativa da recuperação de Aldir, marca o primeiro disco de João desde a morte de seu irmão. O excelente músico Tunai morreu em sua casa em janeiro desse ano. Um grande compositor brasileiro que tem contribuições tão grandes para a música brasileira como canções como “Frisson” e “Dom”. A mídia faz questão de não relembrar a trajetória desse artista. Em entrevista ao Canal Brasil do lançamento do álbum (e também DVD) João cita a poetiza Elizabeth Bishop para falar das “perdas” da vida e dos “tropeços”.

No Abricó tem três músicas regravadas que são em parceria com Aldir Blanc. São “Profissionalismo é isso aí” do Álbum Bandalhismo de 1980, “Transversal do Tempo” do Álbum Galo de Briga de 1976 e “Nação” do “Comissão de Frente” de 1983. Todas as regravações são bastante diferentes das originais, com atenção especial para “Nação’ que vira um Pot-Pourri com um samba de roda, que é face mais tradicional do samba, originária na Bahia, que será reverenciado na letra de em outra músicas do disco, “Terreiro de Jesus”, marcando uma posição importante na música brasileira sobre as origens do samba.

2) O álbum Abricó-de-Macaco é um álbum de “memórias”

A Folha classifica o mais novo álbum de João Bosco de um álbum de “memórias”. O CD tem 16 canções, ou faixas, e apenas 2 inéditas. Mas isso faz dele um álbum de “memórias”? Acho um pouco difícil concordar se com isso a folha faz referência as músicas retrabalhadas no álbum.

Uma música não é só letra. Pode parecer óbvio, mas nem tanto. As “releituras” muitas vezes são canções inteiramente novas. Pegue, por exemplo, “My Favorite Things” canção do filme “A Noviça Rebelde” de 1965 e antes do musical alemão homônimo de 1959 e música “My favorite things” do álbum de 1961 do saxofonista John Coltraine. É mesma música, se é que podemos dizer isso, uma tem letra e a outra não. O clima é outro e, logo, as interpretações possíveis da música também podem variar. A dialética entre arranjo, letra e interpretação que dão o sentido, o significado, da música.

Convido a ouvirem as duas versões. E também a versão do João Bosco no “Abricó-de-Macaco” de 2020, que quem guia é o violão percussivo, “africano” a la Banden Powell de João, com um balbucio jazzístico que diz sem palavras ou quase diz.

Julie Andrews, a Noviça Rebelde: https://www.youtube.com/watch?v=33o32C0ogVM
Jonh Coltraine: https://www.youtube.com/watch?v=qWG2dsXV5HI

Abricó-de-Macaco:https://www.youtube.com/watch?v=oWaIysFMqtk&list=PLUHPt54xYw0tBn4oF1DtwyjFZR3odEFs3&index=14

Outro exemplo de como as músicas mudam seu sentido mais profundo com as mudanças de arranjo é a música “Holofotes”. Orginalmente, gravada no álbum “Zona de Fronteira” de 1992 em parceria Waly Salomão e Antônio Cicero. A música de 1992 parece fazer um balanço ao mesmo tempo que carrega os fortes elementos sonoros da década de 80. A música dos 90 carrega um pouco mais de alegria, esperança talvez, uma música mais noturna, que lembra a sonoridade das discotecas dos 80, expressando o impulso democrático e transformações sociais da abertura, com um relativo fortalecimento da produção artística independente e autoral de arte que se fortaleceram na luta contra a ditadura, incluindo João Bosco que ia para censura quase que diariamente, combinado ao entorpecimento que o regime democrático começa a criar. A combinação de letra e arranjo fornece o espirito que predominava nesse tempo.

Em 2020, o cenário é distinto. As artes sofrem um profundo retrocesso, com o impulso contraditório que novas mídias dão aos artistas somados aos ataques sistemáticos a educação que rebaixam o nível cultural geral, ao mesmo tempo que surgem novos modos de sentir e ser e uma profunda rejeição a tudo que não seja novo. Nesse terreno desconhecido, o artista tem que se reinventar e tatear, por isso essa regravação é mais cadenciada, com menos êxtase, mais sombria até.

“Holofotes” de 1992: https://www.youtube.com/watch?v=BH9xeUhBta0

“Holofotes” de 2020: https://www.youtube.com/watch?
v=7smL_lhDlDc&list=OLAK5uy_m91lrKOyuQRgnOnlaXgowxywZHzeHL51M&index=6

3) Os músicos e a música de João, produto da estrada

João é samba, mas também é funk, blues, jazz, jongo, afoxé. É violão, bateria, guitarra, baixo, clarinete, tambor, atabaque. As análises da disco de João pecam num outro elemento bastante importante. Unindo o primeiro e segundo ponto dessa análise, ou seja, minimizando o papel dos arranjos no significado da música e supervalorizando o papel das letras e de quem escreve, esquecem ou minimizam o papel de uma porção de músicos e musicistas, artistas que são a estrutura da música brasileira, da mais moderna música brasileira e que são meio que o prato principal do álbum Abrico-de-Macaco.

Pra começar o álbum foi gravado em “Take 1”, ou seja, em duas noites e isso só é possível com músicos extremamente competentes, como são os músicos da banda de João Bosco, Kiko Freitas na bateria, Guto Wirtti no baixo, Ricardo Silveira na guitarra e Marcelo Gonçalves no violão de sete cordas. O álbum conta também com a participação no clarinete e no sax-soprano da excelente Nat Cohen, que fornece um peso do próprio nas canções em que toca, fundindo-se com a música brasileira.

João Bosco recebeu o apoio, no início de sua carreira, e fez parcerias com a geração da Bossa-Nova, Vinicius de Moraes, João Gilberto e Tom Jobim, que também tem canções regravadas no álbum, pra citar os que estavam à cabeça.

O álbum também dá espaço a uma nova geração de talentosos músicos da Lapa, que tocam músicas “sem preconceitos” de todas as regiões do Brasil, divulgando a história da música brasileira. São Moisés Marques, Pedro Miranda, João Cavalcante e Alfredo del-Penho e tocam o Forró do Limoeiro do músico baiano Jackson do Pandeiro, o maior ritmista brasileiro, outra grande referência da música.

Mas não é só a música brasileira que está em questão no álbum. O jazz e a música negra olhados. Na última música do disco, “Blue in Green Transversal do tempo” não se poupam elogios a Miles Davis, em uma fusão da música “Blue in Green” com “Transversal do Tempo”, que fala sobre um sujeito num taxi, na cidade, com a vida lhe passando, indo e vindo, revirando o tempo na sua cabeça. A música é linda.

Essas fusões, regravações, participações e releituras que dão movimento a música são possíveis por um aspecto que perpassa toda a obra de João Bosco: a estrada. João não para de correr o Brasil e o mundo, conhecendo, “bebendo da fonte” de cada região, de cada lugar, de cada músico e remodelando seu próprio trabalho, como diz ele, sempre olhando pra frente.

4) O nome do disco

As críticas ficam no superficial. O nome do disco fala de um fruto-flor tropical, com casca dura, mas que se abre em uma bela e exuberante flor. Abricó-de-Macaco. O que muitas parecem não saber é que o Abricó exala um cheiro muito ruim, que repele as pessoas de se aproximar. Quando analisam o nome, ficam presos a metáfora, da coisa difícil, com casca dura que, com o cort-tempo, numa estação adequada, se torna bela flor.

João é bamba, sabe “dar migué” como ninguém. Abricó é fedido e os críticos desprezam isso. Mas que é muito relevante, por que são cegos que não querem ver, surdos que não querem ouvir, que na política, como os reformistas, postergam, esperam, embelezam a realidade, e na arte, meramente contemplam, mas não se aproximam, ficam a distância, confortáveis em seus escritórios, dizendo o que é bom e o que é ruim. Não sentem o cheiro, o fel e não tem nenhum interesse de tocar a flor. Se esquecem obstinadamente de Maiakovski:

"Fiz ranger as folhas de jornal, abrindo-lhe as pálpebras piscantes

E logo de cada fronteira distante subiu um cheio de pólvora perseguindo me até em casa

Nesses últimos 20 anos, nada de novo há no rugir das tempestades

Não estamos alegres decerto, mas por que razão haveríamos de ficar tristes?

O mar da história é agitado

As ameaças e as guerras haveríamos de atravessa-las, rompe-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas"

“Reclamado” (sic) por João Bosco em programa da TV Cultura de Março de 2010.

Leia a crítica da Folha na íntegra: Com ’astral de caramujo’, João Bosco é guiado pelo violão em disco de memórias

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