Cultura

Abra caminho para Aláfia

Gabriela Farrabrás

São Paulo | @gabriela_eagle

quinta-feira 21 de julho de 2016| Edição do dia

A banda

A banda paulistana nascida em 2011, que também bem poderia ser chamada de bando, pela quantidade de integrantes que soma, reunindo metais diversos, múltiplos batuques, guitarra, baixo, além de um trio afinadíssimo de vozes. Como sua formação já entrega, trata-se de uma banda singular. Como definir o seu som? Uma categorização possível seria black music, mas o que é black music afinal? Música de preto, numa tradução livre, é um termo que serve para designar sonoridades que se nutrem da herança dos sons ancestrais africanos, o que congrega um vastíssimo repertório. Samba, jazz, blues, soul, funk, hip hop, rap, são algumas das produções que carregam em seu DNA traços de uma ancestralidade negra. E são por essas ondas sonoras que a banda navega com maestria, trabalhando com todos esses sons de preto. Mas o trabalho deles com a cultura negra não para na música, sua sonoridade é também preenchida por conteúdos que buscam valorizar a herança e a história dos negros, tão marginalizada, negligenciada e até silenciada. Nas músicas encontramos também elementos das religiões africanas, a presença dos orixás, da cultura da periferia, com o “baile black”, a gíria. Isso é um pouco, um resumo, do todo grandioso que é Aláfia.

Temporada no Grazie a Dio

No primeiro domingo do mês, Aláfia subiu ao palco com Mateus Aleluia, compositor e cantor, nascido em Cachoeira na bahia, único integrante vivo do grupo “Os Ticoãs” e que sempre colocou em sua música elementos afro-indígenas acreditando no músico também como formador cultural de seu público. Entre Seu Mateus Aleluia, que iniciou sua carreira nos anos 60 e a banda Aláfia, de 2011, a mesma vontade de resgatar a cultura africana e indígena, a cultura brasileira, e coloca-la em cima do palco para a sua plateia.

No domingo seguinte, 10 de julho, foi a vez de KL Jay, dj do grupo racionais, subir ao palco com Aláfia e transformar o Grazie a Dio em um verdadeiro baile black, “um pouco de terreiro”. Na mesma semana em que tocaram em Campinas no 13° Arraial Afro Julino celebrando a resistência negra e receberam o Esquerda Diário, falaram em cima do palco em São Paulo, que se bastasse tirar o Temer a situação estaria boa, mas que não basta isso para acabar com o genocídio da população negra. E o show ficou ainda mais negro quando subiram ao palco Mc Sofia para cantar “menina pretinha, exótica não é linda, você não é bonitinha, você é uma rainha”, letra de seu hino “Menina Pretinha” e Tássia Reis pra acompanhar a banda em “Preto Cismado”.

No terceiro domingo, dia 17, Aláfia subiu ao palco com As Bahias e a cozinha mineira. Com as integrantes, Assucena Assucena e Raquel, as bahias, duas cantoras incríveis transexuais e Rafael na guitarra, a cozinha mineira, subiram ao palco pra tocarem sua “Apologia às virgens mães”. A banda com suas vocalistas incríveis vem tomando os palcos cada vez mais com seu disco “Mulher”, lançado no ultimo ano. Além das bahias subiram no palco Liniker e Tássia Reis para completar o baile.

Liniker não cantou uma de suas músicas no último domingo apesar dos pedidos da plateia, pois segundo a banda seria um spoiler do domingo que virá. “”Preta”, “bicha” e poderosa expoente da nova música brasileira, Liniker questiona padrões e quebra paradigmas apenas por se aceitar como é, de maneira plena e confiante”; esse texto da jornalista Aline Oliveira em reportagem para a revista Rolling Stone desse mês não poderia resumir melhor quem é Liniker, que estourou na cena musical brasileira no último ano com suas composições Zero, Caeu e Louise du Brésil e se vestindo como não era esperado para um homem, e que estará no palco com Aláfia no dia 24 de julho.

Nessa temporada no Grazie a Dio a banda não só se apresenta como cumpre o papel de anfitriã recebendo a cada semana um convidado para compor junto sua já imensa festa. Como na cultura africana em que os 3 elementos: música, espiritualidade e celebração, estão indissociavelmente ligados, assim é a atmosfera que a banda consegue invocar para as performances.

Não são meras apresentações, são rituais, a banda emprega toda a potencialidade inerente a musica, ser instrumento de comunhão das pessoas, como dito em suas canções “os preto dança todo mundo igual”.

Como num ritual, num culto, a banda faz a sua pregação, seja durante as músicas, que são permeadas pelas suas posições, seja em pequenas intervenções. Como exemplo, no último show numa dessas intervenções feitas pela vocalista Xênia França, a cantora se colocou cobrando respeito aos pretos e pretas que lidam com o racismo diariamente, e intimidando os brancos presentes a refletirem também como transpor esse momento de comunhão tão facilmente concretizável num show para a construção de uma sociedade mais igualitária.

O que gerou uma repercussão em seu facebook, a cantora tendo recebido comentários de brancos ofendidos protestando contra o seu posicionamento. O episódio sintetiza bem o papel que cumpre a banda colocando a frente, sem recuo, a afirmação da cultura negra e a luta contra o racismo.




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