Internacional

ROMPIMENTO NA ORDEM MUNDIAL

Abalo mundial: Estados Unidos suspendem financiamento à OMS em plena pandemia

Trump procura se livrar da culpa por sua gestão desastrosa da crise, passando a culpa para a OMS. Mais uma prova de que não podemos deixar nossas vidas em suas mãos.

quinta-feira 16 de abril| Edição do dia

O epicentro da pandemia de Covid-19 definitivamente se mudou para os Estados Unidos e está no caminho do desastre. A conta é muito alta no país mais rico do mundo, porém também um dos mais desiguais. Na última terça-feira, registrou-se quase 2.300 mortes em apenas 24 horas, elevando o número total de mortes para mais de 25.700. Quanto ao número de contaminados, estima-se que seja de pelo menos 600.000. É o país mais afetado do mundo, superando a Itália, Espanha, França e China. Essa situação faz com que a maioria dos norte-americanos desaprovem a gestão da crise pela administração Trump. Somam-se a isso os 17 milhões de trabalhadores e trabalhadoras que perderam seus empregos em apenas 3 semanas diante das medidas de confinamento implementadas para conter a propagação da epidemia.

Todos esses elementos sanitários, sociais e econômicos reunidos em um ano eleitoral representam um grande risco para as ambições de reeleição de Donald Trump. Sem nenhuma dúvida, esta é uma das principais razões que explicam o anúncio do presidente estadunidense na terça-feira passada. Em síntese, ele disse que os Estados Unidos congelariam o financiamento da OMS, da qual é o principal doador. Por que? Porque a organização teria participado da ocultação do perigo real do vírus, tornando-se cúmplice das mentiras do governo chinês e, assim, teria impedido que os Estados Unidos e o mundo se preparassem bem para combater a pandemia. Tudo isso, segundo Trump, mostraria que a OMS se tornou muito próxima da China. "Os contribuintes americanos fornecem entre 400 e 500 milhões de dólares por ano à OMS, enquanto a China contribui com 40 milhões de dólares por ano, ou menos", disse ele.

Essas declarações imediatamente atraíram condenação unânime nos Estados Unidos e internacionalmente. De fato, em meio a uma pandemia que mata milhares de pessoas todos os dias e exige respostas coletivas, a decisão do governo representa um obstáculo adicional na luta contra o vírus. Mas essa decisão não afetará apenas a luta contra o Covid-19, mas também terá consequências para milhões de pessoas em todo o mundo, mergulhadas na miséria crônica e dependentes dos programas da OMS para sobreviver.

A atitude de Trump é ainda mais criticada pelo fato de que, no início da crise, o próprio presidente dos Estados Unidos felicitou a China por sua luta contra o Coronavírus em um tweet de 24 de janeiro: "A China trabalhou muito duro para conter o coronavírus. Os Estados Unidos apreciam muito seus esforços e sua transparência. Tudo vai ficar bem. Em nome do povo americano, quero agradecer especialmente ao presidente Xi”. Hoje, a OMS teria tornado-se cúmplice das mentiras do governo chinês. Mais importante, foi o próprio Trump quem por várias semanas subestimou o perigo representado pelo vírus.

De qualquer forma, isso alimenta uma situação internacional muito tensa devido ao atrito associado à gestão do coronavírus, mas também devido a uma situação econômica degradada. E como sempre em tempos de crise, as organizações multilaterais internacionais criadas pelas potências imperialistas são as primeiras a pagar quando as tensões mundiais aumentam, em particular entre as potências que elas mesmas criaram essas instituições para melhor impor seu domínio no mundo. em diferentes aspectos. Nesse sentido, esse “congelamento” do financiamento da OMS é um fato importante que marca uma ruptura na ordem mundial.

OMS, uma instituição imperialista imersa em corrupção

A OMS foi fundada em 1948 e é uma das agências das Nações Unidas mais poderosas do mundo. Mas, como a própria ONU, a OMS não é de forma alguma uma organização multilateral "neutra". Pelo contrário, o próprio fato de um de seus principais financiadores serem os Estados Unidos, a principal potência imperialista, sugere que ela deve responder aos interesses dessas potências.

De fato, a atitude do próprio governo norte-americano revela o funcionamento real desse mecanismo de direção indireta da agência. Porque é verdade que a OMS demorou a reagir ao vírus e também é verdade que houve uma certa conivência com as mentiras do governo chinês. Além disso, o atual diretor da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi eleito em 2017 graças ao apoio de Pequim. Isso é percebido pelo governo Trump como uma proximidade "inaceitável" com um país que contribui para o financiamento da instituição com apenas US$40 milhões por ano, "ou até menos". Em tempos de "paz", isso poderia ser mais ou menos tolerado, mas nesses tempos de crise e tensões, empurra Trump a suspender seu financiamento.

Mas os Estados não são os únicos a financiar a OMS. A organização também recebe fundos privados. Assim, seu segundo maior colaborador não é outro senão Bill Gates, um dos homens mais ricos do mundo, co-fundador da Microsoft e apoiador ativo de produções de Organismos Geneticamente Modificados. Mas Bill Gates, através de sua fundação de caridade "Bill and Melinda Gates", não é o único fundo privado a financiar a OMS. Incrivelmente, a indústria farmacêutica também está entre os financiadores privados. Como apontado há alguns anos por Corine Lepage, ex-ministro do Meio Ambiente de Alain Juppé, portanto inacusável de qualquer tendência "anticapitalista": "Quem imaginaria o Conselho de Segurança financiado pela indústria de armas? No entanto, grandes laboratórios farmacêuticos contribuem para o financiamento da OMS. Da mesma forma, seu principal doador, a Fundação Bill e Melinda Gates, cujas atividades de caridade não podem ser negadas, também é um dos maiores promotores de OGMs do mundo”. Considerando que, na década de 1970, 80% dos doadores da organização eram os Estados membros, hoje (de acordo com números válidos para o período de 2016-2017) dos 4,4 bilhões de dólares do orçamento da OMS, apenas 880 milhões são contribuídos pelos Estados.

Isso levou a um escândalo global quando o WikiLeaks revelou que, entre 2009 e 2010, os lobbies da indústria farmacêutica, no meio da crise do H1N1, levaram a OMS a exagerar o perigo do vírus para aumentar a produção de medicamentos. Ao mesmo tempo, esses mesmos laboratórios privados fizeram lobby para modificar um relatório confidencial de uma comissão da OMS encarregada de investigar "doenças negligenciadas" em países pobres cujos grandes laboratórios farmacêuticos estão desinteressados ​​porque não lucram com elas. Algumas disposições propunham taxar os laboratórios para financiar a produção desses medicamentos ou para abrir as patentes.

É claro que, neste contexto de descrédito da OMS, a organização precisa melhorar sua imagem internacional. Por isso que, na atual crise, ela pode opor-se às políticas de alguns de seus principais financiadores, caso sejam contrárias à efetiva luta contra o Covid-19. E mesmo que essas críticas sejam bem medidas, parecem ser "muito" para um governo criticado por sua gestão desastrosa da pandemia, como o de Donald Trump.

Nossa saúde é preciosa demais para deixar nas mãos deles

A política de Trump é criminosa e coloca em risco a vida de centenas de milhares de pessoas, não apenas em todo o mundo, mas em seu próprio país, onde são as classes populares e as minorias oprimidas que pagam o preço mais alto. No entanto, as organizações internacionais criadas pelas potências imperialistas para aperfeiçoar sua dominação não são de forma alguma uma garantia da proteção de nossas vidas. E, deste ponto de vista, o exemplo da OMS é um dos mais nefastos, com essa organização usando o "rótulo" das Nações Unidas para promover os lucros de grandes grupos farmacêuticos ou do agronegócio.

Nesse sentido, a pandemia de Covid-19 mostra cada vez mais que trabalhadores, jovens e setores populares precisam se organizar para defender seus próprios interesses. E isso obviamente inclui a proteção da saúde, da humanidade e do meio ambiente. Um programa assim deve atacar profundamente os interesses dos grandes monopólios capitalistas. Por exemplo, a atual pandemia expõe a necessidade de desapropriar toda a indústria farmacêutica sob controle dos trabalhadores; de lutar pelo financiamento massivo de pesquisas públicas e pela socialização das patentes, a fim de acelerar a produção em massa de medicamentos que permitirão salvar milhões de vidas, especialmente nos países mais pobres onde doenças tratáveis ​​causam estragos brutais a cada ano. Tais medidas seriam um primeiro passo para retirar das mãos dos capitalistas os destinos de nossas vidas.

Artigo originalmente publicado em francês no portal Revolution Permanente, parte da rede internacional La Izquierda Diario.
Tradução para o português: Caio Reis




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