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ÁSIA | Mais de meio milhão de operários em greve na Coreia do Sul: isso não é Round 6

Caio Rosa

ÁSIA | Mais de meio milhão de operários em greve na Coreia do Sul: isso não é Round 6

Caio Rosa

A greve de mais de meio milhão de trabalhadores sul-coreanos na última quarta por melhores condições de trabalho se contrasta com o mais novo sucesso do país na Netflix, Round 6, uma metáfora da sociedade capitalista. O neoliberalismo pode ser muito distópico, mas só a classe operária organizada pode destruir esse sistema de miséria - o que a Netflix e todo o imperialismo tanto temem.

A Confederação Coreana de Sindicatos (KCTU), a maior organização sindical do país com mais de um milhão de membros, convocou uma jornada de protestos no dia 20, na qual trabalhadores de diferentes setores, tais como construção civil, transporte e serviços, participaram. Suas várias reivindicações incluíam o fim do "trabalho irregular" (trabalho a tempo parcial, temporário ou contratado com poucos ou nenhuns benefícios) e a extensão da proteção trabalhista; mais poder aos trabalhadores nas decisões de reestruturação econômica em tempos de crise; e a nacionalização de indústrias-chave juntamente com a nacionalização de serviços básicos como educação e moradia.

Leia mais: Mais de meio milhão de trabalhadores realizam jornada de greve na Coreia do Sul

Essa mobilização ocorre concomitantemente ao estouro mundial da série sul-coreana Round 6. Com seu tom distópico, ela é uma metáfora do capitalismo neoliberal, na qual vários trabalhadores e pessoas pobres com dívidas imensas e impagáveis participam num jogo de vida ou morte por um prêmio bilionário - tudo para a diversão dos VIPs, burgueses entediados que apostam na vida e na morte dos competidores.

Leia mais:Round 6: uma alegoria da sociedade capitalista

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência: o endividamento das famílias na Coreia do Sul aumentou acentuadamente nos últimos anos, chegando a superar 100% de seu Produto Interno Bruto (PIB) — o maior da Ásia. Os 20% mais ricos do país têm um patrimônio líquido 166 vezes maior que os 20% mais pobres, uma disparidade que aumentou em 50% desde 2017.

Além disso, a Coréia do Sul tem atualmente o terceiro maior volume de horas de trabalho anual e, em 2015, ficou em terceiro lugar em acidentes de trabalho entre os países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Estima-se que mais de 40% de todos os trabalhadores estão "irregularmente empregados". Como em outros países, muitos desses trabalhadores precários trabalham na economia de aplicativos.

É evidente que a indústria cultural, da qual a Netflix faz parte, tem interesse em divulgar obras cinematográficas que expressam sim a miséria capitalista, mas com um tom distópico. A série nos leva a crer que a solidariedade entre as pessoas é impossível, ou pelo menos algo distante. Como se, diante de eventos extremos, tais como os jogos macabros de Round 6, uma “natureza humana” se mostrasse e tudo se reduziria à competição.

Mas, como diria Hegel, a realidade é concreta. O fato é que a classe operária sul-coreana está levantando a cabeça, com centenas de milhares de trabalhadores se mobilizando, fazendo greve e reivindicando seus mínimos direitos.

A partir daqui, o texto tem alguns spoilers!

E isso não é de hoje. Na verdade, talvez o “ponto fora da curva” da série, o protagonista Seong Gi-Hun, seja uma boa expressão disso. No quinto episódio, quando os jogadores montam barricadas na hora de dormir, o personagem relembra da repressão policial à uma greve que participou, a qual vitimou um colega de trabalho. Mais interessante ainda, é que essa greve é baseada em fatos reais.

Trata-se da greve da montadora SsangYong em 2009, na série denominada “Dragon Motors". Depois da crise de 2008, a controladora da fabricante, a chinesa SAIC Motors, declarou falência demitindo cerca de 2500 trabalhadores na fábrica de Pyongtaek. No entanto, 974 trabalhadores não aceitaram as condições de demissão e iniciaram uma greve dentro da fábrica, ocupando-a por 77 dias. A greve sofreu dura repressão policial, tendo suas reivindicações quase que integralmente não atendidas.

Assim, 52% dos grevistas receberam uma "aposentadoria precoce", enquanto 48% dos funcionários receberam uma licença temporária de um ano para serem recontratados em seguida. Mesmo com o acordo, 153 pessoas foram demitidas e, as que tiraram licença temporária, não foram chamadas para trabalhar novamente. Desde então, 26 desses trabalhadores cometeram suicídio, devido à demora para recontratação, depressão e lesões corporais obtidas nos confrontos.

Seong, o protagonista, também foi demitido da fabrica após mais de uma década de serviços, começou a aceitar empregos informais e acumular dívidas - o que o levou para o jogo. É esse o cenário subjetivo que perpassa a Coreia do Sul.

A reiterada recusa do protagonista em ser mais uma peça do jogo, procurando a empatia entre os outros jogadores, no limite do paradoxo dessa suposta “natureza humana” é uma forma de expressar essa vontade de luta dos trabalhadores - mas para expô-la como uma fraqueza, uma fonte de derrota diante da competição inevitável da vida.

No entanto, a ficção burguesa é uma coisa, a realidade é outra. A disposição de luta e experiência de organização exemplar dos operários em 2009, assim como na greve geral nesse mês de outubro - a vanguarda operária leva consigo essas experiências e isso ninguém pode apagar.

A ocupação da fábrica em 2009, assim como os trabalhadores reincorporados na planta, boa parte vanguarda da ocupação que até hoje lutam por seus direitos - é essa experiência humana, de classe, que aponta um caminho para uma verdadeira sociedade sem exploração e opressão, uma verdadeira solidariedade - isso é o que os capitalistas mais temem. Não à toa, a série vem nesse mesmo momento em que os trabalhadores sul-coreanos levantam a cabeça.

Fica evidente, que a realidade da luta de classes inverte a tese reacionária da Netflix, de uma impossibilidade da solidariedade humana, diante dos métodos de organização e luta da classe operária. A série bebe de processos reais da luta de classes para torná-los inofensivas manifestações, com um viés derrotista e sem vida. Os capitalistas querem nos convencer, e essa série é produto disso, de que a classe trabalhadora está derrotada.

Mas podemos ver na história da classe operária internacional que, mesmo diante de duras derrotas físicas, com dezenas de anos para reavivar a moral dos trabalhadores, a classe operária sempre se levanta, querendo os capitalistas ou não. Foi assim na Itália com a resistência anti-fascista, na ditadura militar brasileira com o ascenso operário nos anos 70. Em outras proporções, podemos ver isso na onda de greves nos EUA, a primeira desde a década de 80.

A Netflix e os capitalistas querem nos convencer de que não existe futuro. Mas a verdade é que não existe futuro dentro do capitalismo. São investimentos bilionários em séries como essa, com viés ideológico explicitamente distópico para semear a desmoralização e o ceticismo na juventude, que a burguesia imperialista sul-coreana e o conjunto da classe dominante tanto querem ver.
Mas a classe operária e a juventude sul-coreana mostram o contrário. De que ela está viva e respira luta, mesmo diante de uma direção sem a perspectiva de enfrentamento ao governo e ao capital.

Por isso, é preciso um partido revolucionário da classe trabalhadora, munido de uma estratégia revolucionária e socialista, capaz de atuar em cada local de trabalho e estudo para estimular a auto-organização e ganhar o direito de dirigir os operários, trazendo junto de si as massas oprimidas rumo um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo.

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Caio Rosa

Estudante de Relações Internacionais na UnB
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