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ONDE ESTÁ SANTIAGO MALDONADO?

ARGENTINA: Panorama político, entre o caso Maldonado e a reta final da campanha eleitoral

A dias do começo da reta final da campanha, Cristina Kirchner saiu à cena pública. Hoje Durán Barba instruirá aos candidatos de Cambiemos no Parque Norte, na capital argentina. A crise por Maldonado atravessa o cenário político. A esquerda nas lutas atuais.

sexta-feira 15 de setembro| Edição do dia

Nos últimos dias, apesar de que a campanha eleitoral para as eleições de outubro não tenha começado oficialmente, o macrismo e o kirchnerismo finalizam detalhes do que será a reta final da larga batalha política de meio término.

O intervalo entre as PASO (eleições primárias argentinas) e outubro está assinalado, sem dúvidas, pela crise política desatada pelo desaparecimento forçado de Santiago Maldonado por mãos da Gendarmeria. Os festejos de Cambiemos pelo resultado eleitoral de agosto (que apenas mostraram uma primeira minoria com algo mais de um terço dos votos) deram a eles uma imagem bem menos republicana.

A manipulação dos resultados eleitorais na noite do dia 13 de agosto ficou como um jogo de criança em comparação com o que seguiu: um uso intensivo dos serviços de inteligência, funcionários judiciais e meios de comunicação para encobrir, implementar pistas falsas, demonizar aos mapuches, reprimir a marcha do 1º de setembro e desviar a investigação sobre o desaparecimento de Maldonado.
Nos últimos dias, depois de ter fracassado em impor muitas de suas mentiras como verdades, o macrismo tentou instalar a “teoria dos policiais soltos” contra a realidade do desaparecimento forçado no contexto de uma repressão estatal.
Independentemente de como se desenvolva a crise nas próximas semanas, o custo que paga o oficialismo já é alto: o descrédito de alguns de seus mais importantes funcionários, em primeiro lugar Patricia Bullrich, e o desprestígio de uma força estatal como a Gendarmeria, que nas últimas décadas foi a preferida dos distintos governos para reprimir manifestações sociais e inclusive cumprir funções de polícia civil.

A imagem dos uniformizados de verde reprimindo manifestantes contra as consequências dos planos de ajuste, terá de agora em diante, uma conotação profundamente distinta. Surge assim uma complicação adicional para a orientação econômica do Governo, depois de outubro, que em sua agenda tem eixos importantes como as reformas trabalhista, da previdência e tributária.

A curto prazo, entretanto, há outras análises que entram em jogo. Nessa quinta-feira, 14, o jornal Clarín apresentou uma reunião do oficialismo para preparar a reta final da campanha eleitoral. Sem dar nome a quem faz a declaração, o jornalista Marcelo Hugo Helfgot, informa que um dos participantes do encontro analisou a crise atual como uma boa notícia eleitoral para Cambiemos: “O caso Maldonado não vai impactar negativamente, pelo contrário. Analisamos que contribuiu para acentuar a polarização com o kirchnerismo, o que fará com que percam votos”.

Além desse cínico e frio cálculo eleitoral, nesta sexta-feira, 15, novamente no Parque Norte, em Buenos Aires, os candidatos de Cambiemos se reunirão junto a seu guru Durán Barba para afinar os discursos e a estratégia de campanha. Seguramente a obra pública e um discurso otimista a respeito da evolução da economia estarão em peso no folheto oficial.

Enquanto isso, as notícias sobre a causa Nisman também servem oportunamente a Cambiemos para lembrar à sua base eleitoral as acusações que pesam sobre o kirchnerismo. Por sua vez, os próximos julgamentos por corrupção a Julio de Vido e Amado Boudou buscarão montar novas tribunas de agitação para atrair os votos anti-kirchneristas para a legenda oficialista.

Cristina Kirchner relançou sua campanha eleitoral

O jogo da polarização também afetou Cristina Kirchner. Diante de um cenário complexo para ela, busca atrair todos os votantes “anti-ajuste”, como demonstrou com sua “Carta aberta a todos os cidadãos e cidadãs que votaram listas opositoras na Província de Buenos Aires”.

Depois de ter apostado em sua campanha para as PASO no “piloto automático”, com um baixo perfil, esperando que o mal-estar econômico fizesse seu trabalho e dando notas somente a seus jornalistas amigos em C5N, nessa quinta-feira, 14, a ex-mandatária tentou um giro mais ousado, apresentando-se a uma entrevista na mídia Infobae com Luis Novaresio. Depois do insatisfatório resultado nas primárias, joga algumas cartas mais fortes e usa um tom mais de confronto, menos “cidadão”.
No que foi sua principal definição e referindo-se a 2019, Cristina Kirchner declarou na entrevista que vai “fazer todo o necessário para que o peronismo e uma frente ampla ganhe as eleições”, objetivo em função da qual se poderia autoexcluir de uma eventual candidatura presencial para este ano.

As apelações à unidade do peronismo têm também um objetivo mais imediato, que é atrair para outubro votos de Randazzo, de Massa e de todos aqueles que se identifiquem sob esse nome. Nesse marco, e igual ao que diz em sua carta aberta, a ex-mandatária oculta o papel do peronismo sob o governo de Macri. Colocamos, mais uma vez, que sem o PJ-Frente para a Vitória, que é a maioria no Senado, assim como sem o Bloco Justicialista e o massismo em deputados, Cambiemos, que é minoria, não teria conseguido aprovar nenhuma de suas leis de ajuste e entrega.
Para outubro, Cristina Kirchner convoca a votar aos futuros Pichetto e aos futuros Bossio (que chegaram ao Congresso Nacional nas listas armadas por ela), como podem ser Jorge Taiana do Movimento Evita, o ex-menemista Daniel Scioli ou Fernando Espinoza, entre tantos outros que são candidatos junto com ela.
Sintomático é também o giro de amplos setores da burocracia sindical da CGT, que nos últimos dias manifestaram seu apoio à candidatura da ex-presidente, como Héctor Daer, o metalúrgico Antonio Caló ou o mecânico Ricardo Pignanelli.
Não resulta muito convincente o convite de enfrentar o ajuste com todos eles, assim como também com mandatária Alicia Kirchner, que segue levando adiante o ajuste.

Nós, a esquerda

Frente a situação polícia, o PTS e a Frente de Esquerda é parte de um amplo setor da luta por massivas mobilizações para que Santiago Maldonado apareça com vida e para lutar contra as mentiras do Governo e seus aliados. Nessa segunda-feira, 18, há onze anos do desaparecimento de Julio López, haverá uma nova mobilização até a Praça de Maio junto ao Encontro Memória, Verdade e Justiça sob essas mesmas bandeiras e exigindo o fim da impunidade no caso do testemunho contra Miguel Etchecolatz.

Ao mesmo tempo, a esquerda apoia todas e cada uma das lutas contra o ajuste, como PepsiCo ou Cresta Roja, pela educação pública junto aos secundaristas ou aos jovens científicos do CONICET, luta por um movimento estudantil de esquerda junto com os trabalhadores como nessa semana nas eleições da Universidade de Buenos Aires e se coloca em todo o país em todas e em cada uma das lutas dos trabalhadores, das mulheres e da juventude.

Para outubro e para a preparação para os novos ataques que estão por vir, chama a reforçar essas lutas com mais deputados da Frente de Esquerda, com batalhas importantes no estado e na cidade de Buenos Aires, em Mendoza, Jujuy e em todo o país por uma alternativa política dos trabalhadores. A única verdade é que no curso do governo Macri a única coalisão que é coerente no Congresso e em todos os dias com o que se faz nas ruas e em cada luta, que não votou com Cambiemos nem uma lei de ajuste ou entrega, é a Frente de Esquerda.




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