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BELCHIOR

“ALUCINAÇÃO” DE BELCHIOR: 40 ANOS OU CANÇÕES PARA TEMPOS NEFASTOS

São dez composições num espaço de tempo de quase 38 minutos... São elas: LADO A Apenas Um Rapaz Latino Americano Velha Roupa Colorida Como Nossos Pais Sujeito de Sorte Como o Diabo Gosta LADO B Alucinação Não Leve Flores A Palo Seco Fotografia 3x4 Antes do Fim.

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Em 1976 estávamos todos enfiados numa triste ditadura que que iniciava como golpe de estado em 1964... Um Brasil que caminhava para o esgotamento e com poucas esperanças... Era fim completo do nefasto “milagre brasileiro” que em economia, enricou quem já era rico e empobreceu ainda mais uma sofrida classe trabalhadora desarmada na defesa de seus direitos... Mas criou a ilusão de poder da classe média. Obviamente, o álbum do cearense não se reduz a uma análise de conjuntura usando a música. Jamais. Belchior é poeta da canção. Mas um porta que tem a palavra comprometida com a minha e tua vida, parafraseando outro poeta, o Thiago de Melo. A palavra cantada de Belchior rasgava fundo como faca esse mundo torto que era o Brasil em transe da ditadura. E o fez com maestria para ficar na história e por isso, ainda hoje o escutamos e o rendemos glória... Álbum testemunha que sabia muito das feridas vivas em nossos corações... “Apenas um Rapaz Latino Americano” virou hino de uma juventude espremida por uma ditadura moralista e vazia de sentido... Virou vontade de meter a cara e encarar o mundo de frente e sem nada nos bolsos... Ser “Latino Americano” na música de Belchior era ter uma identidade sofrida, mas resistente e saber (diferente de Gil e Caetano) que nada é divino e nada é maravilhoso. Ironia com um tropicalismo otimista com os contrastes que fazem este Brasil. Mas nunca devemos pedir ao compositor que faça música para agradar. Eram tempos nefastos... “a vida é diferente, quer dizer: a vida é muito pior”. No fundo, o Brasileiro comum e sem dinheiro no banco é o Latino Americano que vale ser lembrado em sua poesia. Genial. Mas é em “velha roupa colorida” que temos a capacidade criativa de Belchior chega a um ponto extraordinário... A composição nos joga na cara o envelhecimento de uma geração que sonhou tanto e hoje veste uma “roupa que não lhe (nos) serve”. Podemos até não sentir e nem ver, mas essa mudança parecia aponta apesar dos pesares... A palavra de ordem era: “rejuvenescer” numa ditadura que se tornava velha desde seu nascimento. A música abriga uma poesia corajosa em seu lirismo quase prosaico bem harmonizada pela melodia (lindíssima!).

A composição que melhor nos coloca em 1976 é, sem dúvida, “Alucinação”. Chegava a um certo esgotamento um certo “esoterismo riponga” sem rumo em plena ditadura. Uma clara alienação perante um mundo concreto que pedia uma leitura crítica e não frases vazias de um espiritualismo pobre de espírito... Belchior vai na veia: “a solidão das pessoas dessas capitais” e “os policiais que cumprem seu duro dever”. A violência batia a porta e entrava (e entra, ainda mais hoje). Era necessário saber o que anunciava o “profeta do terror” (era tempos de tantas laranjas mecânicas): “amar e mudar as coisas me interessa mais”. Mesmo em tempos sombrio, há tempo para se amar... Para mudar as coisas. Belchior nos remetia a um desinteresse a essas teorias que em nada toca no real e ficam floreando o que não conhecem... Imediatamente após “Alucinação”, vinha a assertiva para que não se levasse flores a cova do inimigo em nome das lágrimas dos jovens que ainda rolavam naquelas paradas de 76... Trata-se de “Não leve flores”. Uma complementa outra ou porque “nossas esperanças de jovens não aconteceu”. Ou como diz de maneira bela: “façamos o destino com o suor de nossas mãos”. Uma música que virava propulsora de ideia... Que motivava e fazia pensar implacavelmente nosso mundo. Mas merece destaque essa que á mais bonita e desconcertante canção de Belchior nossa opinião: “À palo seco”. Como dizia em verso o poeta de Pernambuco João Cabral de Melo Neto:

"Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;
se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino."

Belchior queria o que diz: “que esse canto torto corte a carne de você”... E mais que isso, queria nos fazer que esse “desespero” em 1976 deveria ser entendido o que significar ter 25 anos onde “o sonho e o sangue” nos consome... e não se trata de moda alguma... Muito bom para nosso tempos nefastos.. Há uma geração em dias atuais que não sabe ainda de sonho e sangue; do que é feito essa matéria cruel que é existir em tempos de transe político.

Existem leitura que caracterizam esse trabalho de Belchior como pessimista ou deprimente. Discordo redondamente. Trata-se de uma obra marcada pela poesia que não pode esconder o mundo em que vive e ama... Belchior é o nosso Dylan Thomas da canção... Tem que ser implacável com seu mundo ou “Veloso o sol não é tão bonito pra quem vem” (quem vem do Nordeste para um Sul frio, excludente e preconceituoso em média com os pobres!). Ser “sempre jovem” da composição final “Antes do fim”, não significa ser cabeça de vento ou tolo, mas em sintonia com as cinzas das horas que nos queima e queima a todos e todas... “Alucinação” é um trabalho que chaga aos 40 novinho em folha, inspirador de futuros mas sem perder uma gota de realismo que nos faz pensar e lutar. Em tempos nefastos precisamos de arte a altura desse tempo e Belchior ainda é um poeta de nosso tempo.




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