Cultura

AGNÈS VARDA E O PERSONAGEM DA MARGEM. NOTAS

O nome de Agnès Varda está ligado a Nouvelle Vague francesa dos anos 50. A cineasta belga (ela nasceu em Bruxelas) pertence à “agenda libertária” que tanto marcou a nova onda francesa e seus jovens e inquietos cineastas. Um erotismo pungente, um romantismo tragicômico, uma leitura anárquica do mundo social e uma câmara preocupada em “documentar o real” e em borrar as fronteiras entre ficção e documentário, uma perspectiva agitada que se sabia consciente do mundo circundante e que vinha de um recente passado trágico (guerra, nazismo, antissemitismo, etc.). François Truffaut, Eric Rohmer, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Claude Chabrol, entre dezenas de novos realizadores começam a filmar aproveitando o clima propenso à renovação que culminaria em “Maio de 68”.

Romero Venâncio

Aracajú (SE)

quarta-feira 5 de outubro| Edição do dia

A Nouvelle Vague foi um movimento de juventude, protagonizado por uma geração de jovens amadurecidos na guerra fria, numa Europa pós-guerra sem inocência, massificada e bombardeada por imagens de cinema, publicidade e pela recém-consolidada televisão… Mas estes jovens tinham também a filosofia de Sartre no seu cotidiano. O filósofo francês era naquela época a maior influência da juventude libertária europeia e que se espalhava pelo mundo e isto fica mais claro quando percebemos que esta geração da Nouvelle Vague começa a escrever e fazer filmes quase adolescente, com a irresponsabilidade política dos “vinte e poucos anos”, mas com raro acúmulo cultural para jovens dessa idade. Essa geração nova do cinema francês, que, da escrita cinematográfica, passa às ruas de Paris, é, sobretudo oxigenada pelo clima que a filosofia existencial e radical de Sartre havia popularizado. As ruas, os marginais, comportamento libertário em termos de costumes conservadores, irresponsabilidade juvenil, paixão pela vida, relações trágicas… Tudo isto marcou o cinema da “nova onda” francesa e influenciou toda uma geração de cineastas pelo mundo a fora.

Mesmo que o movimento tenha um começo e um fim bem preciso (a Nouvelle Vague tem seu fim pós-maio de 68), a maioria dos seus representantes mantiveram algo da “poética da nova onda”. É o caso de Agnès Varda. Dois filmes são marcantes na carreira da cineasta belga: “Cléo das 5 às 7” (1962) e “As duas faces da felicidade” (1965). O primeiro trata do perambular de uma jovem pelas ruas de Paris enquanto espera o resultado de um exame que pode indicar que tem câncer. Já o segundo retrata um quadro abstrato de satisfação e prazer entre um casal. Ambos, temas característicos do estilo da Nouvelle Vague e que Varda os manterá, levando em conta as mudanças na sua filmografia depois dos anos 70. Nesse percurso, “Sem teto, nem lei” (Sans toit ni loi, 1985) merece destaque. Um filme original e marcante em diversos aspectos: na personagem e sua história recontada (Uma sem teto), pela forma de narrar a história da personagem já morta (sabemos desde o início), pelo passeio da câmara por uma “França dos de baixo” (trabalhadores imigrantes, prostitutas, jovens delinquentes, lugares miseráveis e figuras a altura dos lugares) e o significado existencial de se viver na rua com todas as contradições possíveis de uma “opção como esta”.

O filme é dedicado à escritora Natalie Sarraut, conhecida pela sua passagem pelo “Novo romance francês”. Escritora dos fluxos de consciência e por uma profundidade existencial da construção dos seus personagens (características que aparecem no filme de Varda). O file tem uma estrutura narrativa interessante: o filme começa com a personagem já morta e sem sabermos nada das razões de seu fim. Aos poucos e por informações daqueles que conviveram algum pouco tempo com ela. O filme é claramente de ficção, mas nos momentos em que as pessoas falam do seu encontro com a garota de rua, a câmara nos passa a ideia de que estamos diante de um documentário onde as pessoas olham para a câmara, narram como se estivessem vendo o acontecido e logo após, aparece a cena um pouco diferente do que foi contada, geralmente de maior extensão do que a história contada. Uma marca permanente em Varda desde os tempos da Nouvelle Vague é a opção por narrar situações cotidianas e aparentemente banais de uma vida. Sabemos aos poucos a vida errante de Mona, a protagonista. Sabemos um pouco de uma moradora de rua: sua solidão, sexo por dinheiro, violência, bebida, comida ou a falta dela.

O filme não se pretende ser um filme de tese sociológica, mas não renuncia em tudo a denúncia de uma França cruel com seus imigrantes (antecipador para a situação em que a Europa vive hoje na temática da migração) e trabalhadores em geral e do desespero do abandono. Diante de todo um “realismo cinematográfico” que lhe é próprio, temos o “frescor juvenil e rebelde” da Nouvelle Vague das origens. A personagem nos transmite uma situação de liberdade dos vagueadores e conquistadores de submundos só vistos nas obras de um Kerouac ou nos “Uivos poéticos” de Guinsberg. Um filme provocante para gerações que tem como projeto se tornar celebridade tola e midiática ou que passou a acreditar que o sentido de suas vidas será encontrado num Shopping Center. Há algo no filme que nos diz que liberdade é conquista, é projeto, é construção cotidiana individual e coletiva e por vezes fatal. Parece um “manifesto” contra a pseudo-história da vitória da vida liberal burguesa. O filme ainda parece com uma história narrada a contrapelo em chave benjaminiana: existe algo na “história dos de baixo” mal contada pelos “vencedores de sempre” e que precisa vir a tona para a percepção das gerações presentes e futuras.




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