Gênero e sexualidade

PÃO E ROSAS

A voz das mulheres sobre o lançamento do Manifesto do Pão e Rosas na UERJ

sexta-feira 2 de junho| Edição do dia

Aconteceu na última quarta feira, 31/05, na UERJ Maracanã, a atividade as “Mulheres não vão pagar pela crise”, impulsionada pelo grupo de mulheres Pão e Rosas, e teve a presença de Desirée Carvalho, estudante de Serviço Social e coordenadora do Centro Acadêmico de Serviço Social (CASS-UERJ), e Rita Cardia, professora do Colégio Pedro II e uma das fundadoras do Pão e Rosas, que fizeram a apresentação do Manifesto Internacional do Pão e Rosas publicado no dia internacional das mulheres deste ano em 11 países, como parte da reflexão sobre o forte movimento de mulheres que vem ocorrendo internacionalmente. Estiveram presentes na atividade estudantes da UERJ, da PUC, secundaristas e servidores do Estado.

Rita Cardia, ressaltou a importância deste lançamento este ano comemorava-se dez anos de existência do Pão e Rosas no Brasil e 100 anos da Revolução Russa. Resgatou o protagonismo das mulheres nas lutas travadas ao longo da história, trazendo a luz a imprescindível participação das mulheres no processo que desencadeou na Revolução Russa, e deu origem ao primeiro estado a garantir direitos elementares às mulheres, como direito ao divórcio e ao aborto e garantiu lavandeiras e restaurantes coletivos e públicos para que as mulheres fossem se liberando das atividades domésticas, isso ainda no começo do século XX, em 1917. Direitos que foram retrocedidos com a política estalinista alguns anos depois.

Também aprofundou no elemento central para o feminismo socialista, que é entender a relação entre opressão e exploração no capitalismo, e que apesar do patriarcado e de várias formas de opressão, seja de gênero, raça, nacionalidade, não terem surgido no sistema capitalista, foram apropriadas e são funcionais para a perpetuação da exploração de uma classe (burguesia) sobre a outra (classe trabalhadora). E neste sentido se torna fundamental uma perspectiva anticapitalista e revolucionária ao lado da classe trabalhadora, para lutarmos por nossos direitos democráticos e para combater nossos verdadeiros inimigos que são o Estado capitalista e suas instituições, com o objetivo de nos auto-organizarmos junto com a classe trabalhadora para avançar na luta pela derrubada desse sistema.

Em seguida Desiree abordou a necessidade de refletir na atualidade qual o feminismo necessário para que possamos arrancar a emancipação efetiva das mulheres. E que na atualidade, o progressismo na sociedade em relação ao reconhecimento dos direitos das mulheres é utilizado como nicho de mercado por parte de empresas que alimentam uma resposta individual de emancipação das mulheres, ao mesmo tempo que seguem lucrando e explorando o trabalho das mulheres.

Afirmou que hoje, diante da crise econômica, se coloca mais do que nunca a necessidade de um feminismo da luta de classes, principalmente nos marcos do enorme ataque que as mulheres vem sofrendo nesse governo golpista de Temer, e com esse congresso reacionário e machista. E que sem ter hoje a construção de um movimento de mulheres que trave uma luta de morte e vida com as reformas, não será possível garantir os direitos mínimos das mulheres, principalmente das mulheres negras, periféricas e transsexuais, que já são as mais exploradas, e avançarmos nas pautas democráticas e para que não trabalhemos até morrer! Por isso reafirmou que as mulheres não vão pagar pela crise e sim os capitalistas e é fundamental a participação ativa de todas as companheiras na luta pela construção de um plano de luta e a greve geral nas bases.

Desiree também ressaltou que a resposta para a crise política não pode se limitar em trocar um político por outro se as regras do jogo deste regime seguem as mesmas, e que é fundamental lutar a partir da mobilização por uma constituinte em que possamos barrar todos os ataques que estão passando e poder avançar em garantir direitos fundamentais das mulheres.

Ao final foram pensadas algumas ações como um grupo de estudos, que resgate o debate entre feminismo e marxismo e de estratégia entre as diferentes vertentes do feminismo debatendo qual a estratégia necessária para barrar os ataques e garantir nossa emancipação. Também discutiram a construção de um material nacional do Pão e Rosas impresso para panfletagem em locais de trabalho e estudo e chegar em centenas de milhares de mulheres e o fortalecimento e a participação do Pão e Rosas do Comitê no Serviço Social para que seja construído na base um plano de luta e a construção de uma nova greve geral para barrar as reformas, e derrubar o Temer.

Leia depoimentos de algumas mulheres que estiveram presentes no lançamento:

“O manifesto Pão e Rosas foi uma excelente forma de reunir mulheres e homens para conversar sobre o como o machismo e o capitalismo estão atrelados. E como é importante pontuar como o patriarcado é decisivo para esse sistema manter-se explorando a classe trabalhadora e principalmente as mulheres com as famosas triplas jornadas. Na nossa reunião conseguimos permear situações cotidianas onde modificamos visões machistas que quando fazemos parte de um grupo como o Pão e Rosas fica mais fácil compreender e lidar de diferentes táticas. Por fim conseguimos pactuar um grupo disposto a retirar as mulheres da sua rotina e normalidade para refletir sobre o seu poder social, no sentido de auto compreender e empoderar-se sem o consentimento do outro. Porque assim com consciência de que é oprimida pelos capitalistas uniremos a massa contra esse sistema machista.”

Gabrielle, estudante de Serviço Social

“Acredito que a luta das mulheres não se desvincula da luta anticapitalista e classista. O capitalismo legitima o machismo e a burguesia que detém o controle da reprodução social através das forças de trabalho exploradas e alienadas. A verdadeira emancipação só será dada com a derrubada desse sistema. Não devemos esquecer de momentos históricos marcantes, como a Revolução Russa, que esse ano completa 100 anos, por conquistar direitos políticos e sociais importantes para as mulheres. Devemos seguir essa perspectiva e não nos deixar levar pelo empoderamento neoliberal. Por isso enalteço o grupo feminista de mulheres Pão e Rosas, que mobiliza e constrói essa verdadeira luta. O encontro para anunciar seu manifesto foi bastante importante para conscientizar e organizar todas as mulheres pela base de como nos fortalecer.”

Pamela, Serviço Social

“Acredito que a atividade realizada pelo Pão e Rosas na tarde de ontem foi essencial para compreendermos qual a corrente ideológica do grupo, além de nos fazer refletir sobre o fato de que se queremos uma sociedade onde mulheres e homens sejam realmente iguais, não é necessário apenas superar o que se reproduz culturalmente, ou seja, a superioridade dos homens e a dominação e submissão da mulher. Mas é necessário que uma nova ordem social seja estabelecida através da luta e essa luta deve ser travada pelas mulheres ao lado da classe trabalhadora.”

Antonia, estudante de Serviço Social

“Conheci o Pão e Rosas justamente no ato na Rio Branco do dia 8 de março desse ano e gostei dá ideia de ter um coletivo que tem por objetivo garantir os direitos as mulheres nesse contexto opressor que vivemos. Porém a partir do encontro de lançamento do Manifesto Pão e Rosas pude concluir que a luta é além de garantir direitos à mulher como também deter o sistema de produção que vêem impondo um ordem hierárquica da sociedade e coloca a mulher, juntamente com os demais trabalhadores ,na base inferior dessa organização. Posso dizer que a discussão no evento de lançamento ampliou minha visão de luta social.”

Elisama, estudante de Serviço Social

"Foi excelente o lançamento do manifesto e de retomarmos com força as atividades do grupo neste momento tão crucial de luta contra as reformas e o governo golpista de Temer. Na UERJ sempre estivemos na luta pela efetivação de todas as terceirizadas, pelo direito a creches. Nossa tradição é o marxismo revolucionário que sempre enxergou a necessidade das mulheres estarem ombro a ombro com a classe trabalhadora para lutar contra esse sistema! Por isso é fundamental que o movimento de trabalhadores e estudantil também tomem para si a luta pelos direitos das mulheres e contra toda forma de violência de gênero. Diferente de correntes do feminismo que enxergam a luta das mulheres como uma luta contra os homens, para nós é uma luta contra os governos, patrões, a Igreja e todas as instituições deste estado capitalista. Estaremos lutando por cada demandas das mulheres, e combatendo cada ato de machismo, mas com a perspectiva de superar este sistema que tanto nos oprime e explora"

Carolina Cacau, estudante de Serviço Social e professora do estado do RJ, coordenadora do CASS

“Eu gostei muito, acredito que devemos ter mais debates como o de ontem. Ocupar todos os espaços e nos unirmos mais fará com que tenhamos uma saída. Enfim, foi ótimo e esclarecedor.”

Isabele, secundarista

"Durante o lançamento do Manifesto internacional do Pão e Rosas consegui perceber como as mulheres têm necessidade de participar de algo que as mova, que as leve pra frente e que dê suporte para que leve uma mensagem para outras mulheres de que elas têm poder e valor em si. Foi um momento muito esclarecedor, o qual deixou boas expectativas para formar um movimento coeso, esclarecido e que apresenta uma saída de tudo o que está sendo posto, mas em coletivo para as mulheres. As expectativas são de fortalecimento/ preparação através de estudos e rodas de conversas, onde seja permitido que as mulheres se preparem para lutar contra os ataques a partir de suas relações cotidianas. Seria algo como combater a insegurança de falar sobre o feminismo, sobre a luta das mulheres de forma mais natural. Incluir os debates no dia a dia. Que mostra que todas nós temos direito ao pão, mas também às rosas, usando um jargão já conhecido por aqui".

Silvia, estudante do Serviço Social

“ A atividade do Pão e Rosas acho muito interessante e oportuno as conpanheiras debaterem sobre a luta das mulheres nessa conjuntura. Nos mostrando que não podemos nos calar e sim fortalecer a luta. Nesse momento a "UERJ não está normal" acredito na importância dessas atividades para a discussão e conhecimento do Movimento Feminista. Eu como estagiária do HUPE na pediatria vejo em sua maioria mulheres sendo únicas responsáveis das suas crianças nos aconpanhamentos. O que demonstra como nossa sociedade é machista, patriarcal”

Kessila, estudante de Serviço Social

Na realidade eu nunca tive um contato direto com um movimento feminista de verdade, ja tinha participado de rodas com meninas da faculdade mas nunca com um movimento de luta como o Pão e Rosas. De início me senti acoada mas no decorrer das discussões pude me sentir extremamente a vontade para descrever o meu ponto de vista em relação a luta das mulheres, pude sentir verdade naquilo que estava sendo passado, disponibilidade das mesmas em ensinar, clarear ideias, desconstruir pensamentos machistas tudo na base de uma conversa simples e direta. Mesmo sabendo que sempre podemos fazer mais e que somos nós por nós pude observar muita garra e coragem nas meninas em fazer as mulheres no geral reconhecer o seu valor.

Marcela, estudante de História da PUC

Veja o vídeo da apresentação:




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