Gênero e sexualidade

VIOLÊNCIA NA USP

A voz das Mulheres sobre a violência do dia 7 de março na USP: Nani, professora da creche

Relato de Nani Figueiredo, professora da creche sobre a violência policial sofrida em 7/3 durante manifestação pacífica na USP.

segunda-feira 27 de março| Edição do dia

Naquele dia, cheguei à USP por volta das 9h da manhã. Semana de recepção dos calouros, estava feliz em participar de uma conversa organizada pelo Coletivo Feminista da Letras com os estudantes da Letras e da Sociais. O tema da conversa, vejam só, era emponderamento feminino e violência na Universidade. A conversa foi excelente. Veteranos e calouros traziam as suas experiências de emponderamento, que foram contadas e revividas na roda como forma de compartilhar as histórias e fortalecer a todos os que estavam presentes. Saí de lá por volta do meio dia e fui direto para a frente da Reitoria para me encontrar com outras colegas de trabalho que também haviam paralisado as suas atividades.

Seria uma paralisação como todas as outras, não fosse o fato de estarmos sentindo no corpo (em forma de dores e depressão), o sofrimento por termos perdido nosso local de trabalho, termos sidos arrancados da Creche, em pleno gozo das férias, sem ao menos podermos retirar os nossos objetos pessoais. Fomos violentamente arrancados, sem aviso ou o mínimo respeito, do lugar onde muitas de nós, durante quase trinta anos, debatemos, discutimos e colocamos em prática o que há de mais recente em pedagogia da infância no Brasil. Apenas isso já seria motivo suficiente para paralisar, acrescentava-se a isso a indignação diante da proposta da Reitoria que seria colocada para votação no Conselho universitário. A proposta vislumbrava, entre outras coisas, o arrocho salarial, a não contratação de funcionários e a demissão de mais de 5.000 trabalhadores.

Pois bem, estava ali com minhas colegas paralisando nossas atividades no trabalho como forma de protestar contra todos esses desmandos do Reitor. Tudo seguia tranquilamente. Falamos de trabalho, rimos, encontramos colegas queridos (as) que compartilharam conosco as dificuldades enfrentadas no seu setor. Estava tudo calmo e resolvi ir até o sindicato com mais duas colegas. Na metade do trajeto, ouvi barulhos estrondosos e temi que fosse algum ataque da polícia. E era, de fato. Naquele mesmo instante uma colega que estava em frente a Reitoria me ligou aflita dizendo que a polícia, sem qualquer razão, havia começado a jogar bombas e gás de pimenta nos manifestantes. Desliguei o telefone e fui correndo encontrá-la para ficarmos em um lugar seguro.

Ao chegar novamente na Reitoria, vi uma nuvem de fumaça densa que se levantava depois que as bombas ricochetearam no chão. Como sofro de crises de bronquite procurei me afastar para longe da fumaça e fiquei registrando toda a ação. As bombas não davam trégua e os trabalhadores e estudantes atordoados foram se dispersando. Alguns xingavam indignados e outros, no intuito de se defender, jogaram pequenas pedras e galhos que não chegavam a atingir os policiais. Vez ou outra uma bomba era lançada ao pé de alguém que se via obrigado a chutar o artefato para longe a fim de se proteger. Como não conseguia localizar a minha amiga, continuei de longe filmando a cena esperando que aquele horror passasse. Alguns minutos depois o cenário ganhou aspectos de uma praça de guerra. Uma guerra injusta e desigual onde de um lado, a força policial paramentada com suas armas e roupas especiais, e do outro, trabalhadores que tinham seus direitos atacados por parte da Universidade protestavam pela manutenção dos seus empregos. Suas armas eram os gritos de fora Zago.

Ainda do meu lugar seguro, vi um colega e trabalhador do Instituto de Biociências, ser covardemente atingido de cassetete por um policial. Aquela cena me assustou, e quando vi o colega cair e mais quatro policiais, tão covardes quanto o primeiro, aproximarem-se desferindo golpes e mais golpes de cassetetes e chutes, fiquei perplexa. A minha reação foi correr pra perto daquele ato indigno e covarde e registrar. Foi o que fiz. Comecei a gravar as agressões por parte dos policiais e me aproximei mais quando vi o meu colega ser levado puxado por braços e pernas para dentro da grade do prédio da Reitoria. Continuei registrando a cena quando uma policial passa por mim me agarra pelo pescoço gritando e dizendo:

- Tá gravando, tá gravando é? Vai vir também.

Ela me empurrava e tentava agarrar o meu pescoço enquanto pedia pra que uma segunda tirasse meu celular. Eu dizia pra ela não me agredir, e disse isso muitas vezes. Diante do meu pedido ela continuava me empurrando para dentro da grade da Reitoria. De repente me vi cercada de 5 policiais. Estava tentando me proteger pedindo pra pararem, quando senti um aperto no pescoço e fui jogada com violência no chão. Fiquei paralisada e em estado de choque. Ouvi quando a policial dizia:

- Você está pensando que tá falando com quem, sua vagabunda!

Me lembro quando ela me pegou com força pela blusa me dando um solavanco e girando meu pescoço. Eu estava tão perplexa que por alguns segundos era como se eu estivesse em um pesadelo e a sensação que eu tinha era de uma agonia, mas que a qualquer momento eu acordaria. Não acordei. Era real. Senti um chute na lateral da cabeça, uma forte dor no braço direito. Enquanto estava sendo algemada continuei a ouvir insultos e xingamentos. Ouvi quando um policial disse:

- Aperta bem a algema dessa vadia!

Senti uma tristeza imensa me invadir. Ainda como que em choque fui levada pra dentro da Reitoria algemada onde já estava também o meu colega. Como eu havia feito xixi na roupa uma funcionária da Reitoria foi autorizada a me acompanhar no banheiro. Lá desabei a chorar. Um misto de indignação, tristeza e revolta. Ao sair do banheiro fui novamente algemada. Eu e o meu colega ficamos sentados no chão próximo a um banheiro em um canto recuado, uma espécie de salinha ou corredor. Ali nossos celulares foram confiscados. Presenciei a chegada de dois estudantes, um deles preso pelo mesmo motivo que eu: gravar as ações policiais. O policial que o trouxe gritava com ele para que desligasse o celular enquanto um outro policial mais jovem deu tapas atrás da sua cabeça. O estudante tentava desligar o celular quando esse foi arrancado da sua mão. Uma estudante também foi colocada nesse mesmo lugar e estava bem machucada. As suas pernas tinham vergões enormes fruto das borrachadas que levara da polícia. Pedi pra falar com meu advogado, pra alguém da minha família, foi negado. Questionei porque estava sendo presa se eu estava apenas filmando a ação policial e nada foi respondido. Pensei nos meus filhos: e agora? Quem os buscaria na escola? Pedi mais uma vez pra ligar pra alguém e foi negado.

Depois de mais ou menos 1 hora, tiraram minha algema e me informaram que eu estava detida. Fui conduzida juntamente com as outras pessoas ao carro da polícia. Eu e a estudante fomos colocadas no camburão. Esse foi outro terror a parte. Chorávamos desesperadas e com muito medo, pois a viatura fazia curvas fechadas com grande velocidade nos dando a sensação de que tombaria a qualquer hora. Ao passarem com velocidade sobre as lombadas batíamos com a cabeça de um e outro lado e não conseguíamos ficar sentadas. Tivemos que nos abaixar bastante quase deitando no assoalho do carro para não nos machucar. Olhávamos para o retrovisor e lá estava o policial que dirigia o veículo esboçando um sorriso sarcástico.

Fui conduzida ao Hospital Universitário onde fui atendida e fiz RX do braço, o que fisicamente mais doía na hora. Lá fiquei todo o tempo seguida e vigiada por policiais até quando precisava ir ao banheiro. Senti-me atingida na minha dignidade e honra como pessoa. Fui impedida de falar com o advogado, Dr. Augusto, quando esse chegou ao HU e ficou aguardando na parte externa. Era como se eu fosse uma criminosa. O meu crime, como de outras pessoas, havia sido registrar policiais desrespeitando as leis, abusando da autoridade ao agredir pessoas que protestavam pacificamente, estavam indefesas e desarmadas. Crime que diziam termos cometido ao flagrarmos Policiais que a pretexto de existir para nos proteger, ameaça a vida e a segurança das pessoas. Fiquei no hospital até mais de 10 da noite. A minha ficha de medicação sumiu, as pessoas que haviam sido dado entrada depois de mim continuavam a ser atendidas, enquanto eu, com dores, aguardava que alguém soubesse onde minha ficha havia ficado. Foi necessária a intervenção do advogado Augusto e do Deputado Carlos Gianazzi para que o atendimento acontecesse sem mais intercorrências. Só próximo às 8 da noite, algumas horas depois, reavi o meu celular que foi entregue a mim no hospital por um policial.

Após o atendimento no HU fui conduzida na viatura até a 93 DP onde dei depoimento acerca dos fatos.

Já se vão 11 anos trabalhando na Universidade de São Paulo. Onze na Creche Pré-Escola Oeste. Nesse lugar, não só aprendi que a infância é uma categoria social de direitos e que as crianças são pessoas que precisam da proteção dos seus direitos. Aprendi o que é uma gestão democrática e participativa e que embora fosse difícil de implementar na prática, havia um esforço genuíno por parte de todas as pessoas para que a gestão fosse feita com a participação e colaboração de todos. Aprendi a importância de se respeitar as diferenças e a diversidade de idéias, aprendi o que é viver em comunidade onde dá-se a prática constante de respeito ao indivíduo e respeito e o bem estar coletivo. Aprendi que o diálogo é o fio condutor da resolução de todos os conflitos e divergências.

Por tudo isso que aprendi e que faz parte da minha formação como Pessoa é que tal violência me chocou. Jamais passei por tamanha violência e aviltamento da minha integridade física e moral. Fiquei com os braços roxos e o pescoço arranhado e pra completar uma cervicalgia (trauma na cervical), o que me custou alguns dias de afastamento do meu trabalho, remédios para dor, ressonâncias magnéticas e idas ao médico. Senti muitas coisas: vergonha, humilhação, indignação, raiva, tristeza, muita tristeza. Passados alguns dias e olhando para os meus braços, agora sem as marcas da agressão, vejo que o que sinto agora é maior e mais importante. Sinto vontade e ânimo pra continuar lutando contra todo e qualquer projeto que queiram transformar a Universidade (patrimônio da população), numa instituição a serviço de uma burocracia cujo único feito é usar a Universidade e os seus recursos em prol dos seus próprios interesses.

Nani, trabalha como educadora da Creche Oeste há 11 anos




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