Teoria

MARXISMO E MEIO AMBIANTE

A volta do marxismo ao debate ambiental: por que Marx?

O tema da crítica ecológica em Marx praticamente desapareceu da literatura marxista entre o fim dos anos 1930 e a década dos 60. O notável estudo do marxista britânico Caudwell sobre biologia/ecologia, por exemplo, só vi¬ria a ser publicado em 1986, meio século depois [por conta das resistências stalinistas do PC inglês].

Gilson Dantas

Brasília

sábado 6 de agosto| Edição do dia

Caudwell tinha, por exemplo, completa clareza sobre o caráter inseparável e co-evolucionário da relação seres humano-natureza; e, teve o mérito, segundo E. P. Thompson de transcender o positivismo do marxismo stalinizado do seu momento, sem cair em viés idealista [Lembrando, com Foster, que mesmo um pensador do porte de Lukács tendia a adotar uma postura de não enxergar qualquer dialética da natureza].

Após a II Guerra, temos Sweezy, adotando uma certa abordagem ecológica da economia, desde a sua Teoria do desenvolvimento capitalista até seu artigo na Monthly Review de setembro de 1989, com Paul Baran, intitulado Socialism and ecology. De toda forma, nos anos 60, o tema ambiental não possuía, em ab¬soluto, ainda, a visibilidade atual, e nem a devastação ecológica tinha alcançado os patamares de hoje, grave e globalmente ameaçadores. Algumas obras de época foram mais influentes, como Primavera silenciosa [Silent Spring] de Rachel Carson, publicado em 1962 nos Estados Unidos, com edição brasileira em 1964.

Vale destacar, de época, e dentre tantas outras, algumas obras, das quais um dos exemplos pode ser o úl¬timo Marcuse (de Ecología y revolución, de 1972) e, antes, em 1961, o frankfurtiano Alfred Schmidt (sob orientação de Adorno e Horkheimer) com foco na natureza. Schmidt, que teve o seu livro [O conceito de natureza em Marx] publicado nos anos 1970, em inglês, foi vigorosamente criticado por Bellamy Foster em A ecologia de Marx (2005) por seu unilateralismo, que o leva a separar dialética de materialismo. De toda forma, a crítica sistemática a Schmdt seria levada a cabo por Burkett.

Schimdt é seguido por outros autores referenciados em Marx, mas ainda tendentes às unilateralizações, como Parsons (1977), que desenvolveu amplo trabalho de recu¬peração do tema em Marx, e que integra todo um espectro de autores – como Benton (1986) ou Giddens – que ter¬minam se alinhando com os chamados verdes e alguns presumidos marxistas ao adotarem postura crítica a um Marx pouco “verde” e supostamente “produtivista”, na sua ótica. James O’ Connor também tenta “completar” o lado “verde” do marxismo, do qual, segundo seu entendimento, Marx era carente. Todos eles recuperam elementos importantes do pensamento de Marx sobre natureza a exemplo do frank-furtiano Grundmann (Marxism and ecology, 1991), que traz amplos argumentos de Marx sobre a questão tecnológica.

Alguns anos adiante despontam no marxismo, leituras ecológi¬cas com Raymond Williams e E. P. Thompson assim como seguia em frente o também já citado grupo da Monthly Review.

Em 1992, E. Altvater publicou em alemão o seu O preço da riqueza: pilhagem ambiental e a nova desordem mundial (saído pela Unesp, em 1995) onde também trata do tema. Ao mesmo tempo em que vale destacar cientistas de esquerda com opções mate¬rialistas que assumem novo ímpeto, já desde os anos 70, com R. Lewontin, S. Jay Gould e R. Levins, todos de Harvard (uma linhagem que tem a ver com os destacados cientistas materialistas de esquerda dos anos 1930 como J. D. Bernal, J. B. S. Haldane, J. Needham).

Na mais recente etapa, os estu¬diosos marxistas do assunto são inúmeros, em tal quantidade que se¬ria cansativo enumerá-los aqui, mas os citados Burkett, este com mais reservas, e Foster constituem uma boa referência contemporânea a favor de uma compreensão mais integral de Marx.

O entendimento desses dois autores, sobretudo, claramente, de Fos¬ter, é o de que, em primeiro lugar, não se trata de “comple¬mentar” Marx; este já deixara indicações e o método críti¬co para uma visão radical sobre o tema das consequências negativas e destrutivas do capital contra a sociedade e a natureza.

Em Foster, a relação natureza e sociedade é vista como co-evolutiva e o método de Marx, do materialismo histórico e dialético, desponta como alternativa analítica para a crise ambiental, superando todo enfoque “verde” (em geral reformista ou até liberal) ou aqueles anteriores que não se davam conta de Marx – leitor de Liebig - como um autor devidamente inserido – e com enor¬me poder analítico e metodológico – no debate ambiental.

Em síntese, autores como Foster e um crescente núme¬ro de pensadores, com cada vez mais frequência, conver¬gem para a convicção de que: a) está instalado no planeta e em flagrante desenvolvimento um processo de degrada¬ção e devastação dos solos, ares e águas que desconstrói a qualidade da vida humana e cuja dinâmica ameaça nossa própria sobrevivência b) a crescente degradação ambiental produzida pela sociedade tem levado todas as espécies ao sofrimento, à degradação biológica e, muitas delas, à extin¬ção [Denúncias da degradação ambiental dos anos 70 constam, por exemplo, em obras como as do francês Dorst (1973) ou do alemão Liebmann (1979)]; e c) o marxismo está apto a ir mais fundo e de forma prática mais consequente na crítica a esse estado de coisas.

O argumento de Victor Wallis a esse respeito [na Crítica Marxista n.29, 2009] é bem procedente: “não é necessário estar na esquerda para reconhecer o ritmo acelerado em que os fenômenos naturais estão se desviando de seus padrões costumeiros, fenômeno pelo qual certas espécies, incluindo os habitantes humanos de zonas vulneráveis, já estão pagando um preço alto. Po¬rém, em uma perspectiva socialista, estamos equipados para combinar um senso justificado de urgência com uma abordagem radical correspondente na análise das causas reais do problema”.

Na nossa perspectiva, a pertinência e a atualidade do instrumental de análise marxista, do método de Marx quando se pretenda a mais profunda crítica à crise ambiental se constitui no ponto de partida incontornável, começando pelo dado de que o marxismo percebe a sociedade dilacerada e burocratizada como base para se entender uma natureza devastada. E, junto com o resgate de elementos de Marx-Engels, parece igualmente importante, o questio¬namento sobre aquilo que, também na esfera do tema ambientalista, aparece como marxismo, mas que no entanto, frequentemente, não articula a crítica am¬biental com a perspectiva política-teórica mais cara a Karl Marx, a dos combates da classe trabalhadora e seus aliados, os oprimidos do mundo. Ou seja, bem-vindo o foco que vê nas classes sociais e na luta de classes o pressuposto para se entender porque o ambiente está sendo devastado, começando pelos que vivem do trabalho e suas famílias.

Mas o marxismo, em primeiro lugar se articula com a questão do sujeito.

Quem é o sujeito social que pode mudar esse roteiro ecocida?

Por isso mesmo o marxismo é inseparável da mais correta estratégia de transição e supe¬ração revolucionária desta sociedade, elemento, aliás, do qual careceu o chamado “socialismo real”. Perde-se neste caso – do socialismo sem gestão operária - um elo de continuidade com o cerne do pensamento ‘ambiental’ de Marx (vale repetir: a questão do sujeito social capaz de recolocar a re¬lação dos homens com a natureza fora dos marcos da alie¬nação e do fetiche do dinheiro).

Eis um forte motivo pelo qual não se pode separar Marx da questão ambientalista.

Dentre outras coisas, também, por conta de um elemento básico: a burguesia, que controla as fábricas e todos os meios de produção dotados de colossal poder poluente, revela sua falência histórica como classe dirigente: polui todo o tempo; é uma classe social que só pode seguir nos conduzindo para a barbárie ambiental [em nome do lucro e, portanto, da chamada “redução de custos”].

A classe ecologicamente revolucionária é o proletariado, desde que, ao contrário das experiências nos países stalinizados, passe a controlar democraticamente os meios de produção, tornados, naturalmente, propriedade pública.

[Esta nota integra o capítulo “Ecologia e o resgate de Marx” do livro Natureza atormentada, marxismo e classe trabalhadora , 2012, Brasília, disponível no site www.centelhacultural.com.br]




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