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FRANÇA

A vitoriosa greve dos trabalhadores da limpeza das estações de trem em Paris

A vitória dos 84 grevistas do setor de limpeza das estações de trem da região do norte de Paris, é um exemplo de determinação frente a ofensiva liberal facilitada pela Reforma Trabalhista de Macron. Um primeiro balanço de uma luta exemplar.

sexta-feira 22 de dezembro de 2017| Edição do dia

Foram necessários 45 dias antes de que esses homens e mulheres, todos de origen imigrante pudessem fazer a direção do gigante da limpeza Onet/H.Reinier ceder e conquistar quase todas as suas reivindicações. Se não leva-se em conta as divisões impostas pelo método de externalização e terceirização, se trata de uma das greves mais longas da história ferroviária na França.

Obtiveram o acesso de todos os trabalhadores ao convênio coletivo de “manutenção ferroviária” (o que inclui mais vantagens e proteções do que o convenio coletivo de limpeza), a supressão da cláusula de mobilidade (ataque que deu origem à greve) que se tivesse se mantido obrigaria os trabalhadores a mudar a cada curto período de tempo de lugar de trabalho, a manutenção dos efetivos, o aumento do vale alimentação a 4 euros, a efetivação de um trabalhador imigrante que tinha problemas com seus documentos (que finalmente obteve seu visto), a prorrogação dos mandatos dos delegados do setor de limpeza até as próximas eleições sindicais e uma bonificação de manutenção das estações equivalente a duas semanas de trabalho.

Além disso, a empresa terá que pagar as duas semanas de salário pelo mês de novembro, que progressivamente serão descontadas em um período de seis meses. Também obtiveram a anulação de todas as sanções disciplinárias contra os grevistas, o que ficará notificado num protocolo de fim da greve. Sua luta é exemplar, em primeira instância por demonstrar a possibilidade de rechaçar a aplicação concreta, empresa por empresa, dos ataques permitidos pela reforma trabalhista, mas também por constituir um exemplo de determinação, dignidade e de métodos vitoriosos de luta.

Uma greve ultra-majoritária

Se trata sem dúvida da primeira vitória dessa greve. Ainda que os trabalhadores estejam fortemente atomizados (se encargam, em pequenas equipes, da limpeza de 75 estações distintas), quando a empresa H. Reinier, pertencente ao grupo ONET, conseguiu o contrato de serviço e quis impor uma forte degradação das condições de trabalho. Os empregados lançaram no início de novembro uma greve quasei unanime, 84 grevistas de 110 empregados mantiveram a greve até o final.

Uma frente sindical unida e controlada pelos grevistas

Apesar das dificuldades devidas aos diferentes estatutos de proteção trabalhista segundo o tipo de trabalhador (limpeza e manutenção ferroviária), as distintas organizações sindicais Sud-Rail, Cfdt e FO trabalharam juntas, apesar dos desacordos, durante todo o conflito. Essa unidade foi permitida pelo respeito estrito das decisões dos grevistas que se reuniram cotidianamente em Assembleias Gerais.

Uma greve militante e auto-organizada

Durante todo o confliro, os trabalhadores mantiveram três piquetes de greve, nas estações estratégicas de Saint Denis, Ermont-Eaubonne e Garges-Sarcelles (Ndt: se refere ao ramal ferroviário norte que parte da Estação do Norte em Paris), por 24 horas, para impedir que a empresa contrate trabalhadores temporários para limpar as estações. Se organizaram em equipes e guardas que foram revesando e que garantiram tanto a vigilância das estações, como a discussão política com os usuários (distribuição de panfletos, etc). Os piquetes de greve também foram fantásticos lugares de encontro e intercambio, entre os próprios empregados, mas também, conforme a greve foi se tornando mais popular, com os numerosos apoios que muito frequentemente traziam contribuições ao fundo de greve, comida, ou simplesmente uma palavra amistosa de solidariedade.

Fundo de greve, chave para a guerra

O fundo de greve posto em marcha durante a segunda metade do conflito foi um elemento chave para que a empresa cedesse. Mais de 80.000 euros que foram coletados, aos quais se somam a bonificação de manutenção das estações exigida pelos grevistas durante as negociações, permitiram aos trabalhadores precários, cujos salários não superam os 600 euros, cobrir as necessidades de suas famílias durante a greve.

Numerosas organizações sindicais – muitas que fazem parte da organização sindical Solidaires – e políticas, contribuiram ao fundo, mas o mais destacável foi que mais de 3000 doadores individuais contribuiram via a plataforma Por Commun, prova do movimento de solidariedade e de apoio alcançado pela luta.

Um amplo apoio

Essa greve foi uma grande história de solidariedade. Começando pela do setor ferroviário que se envolveu dia e noite na luta de seus colegas da limpeza. A criação de um comitê de apoio na cidade de Saint-Denis, as comidas solidárias, a distribuição de panfletos, as manifestações, também ajudaram. Pouco a pouco a greve se tornou popular e se converteu em um exemplo para numerosos empregados, particularmente os mais precários, até envolver a personalidades políticas, sindicais e intelectuais que firmaram a tribuna publicada no diário Libération.

Convergência com outros setores

Além do setor ferroviário e dos apoios externos, os grevitas criaram vínculos fortes com outros setores em luta como os do hotel Holiday Inn de Clichy, em greve a mais de 50 dias, e com os quais os grevistas organizaram duas manifestações comuns, a última no dia de sua convocação ao Tribunal administrativo de Montreuil.

“ONET desonesto, SNCF cúmplice” cantavam os grevistas…e tinham razão. De fato, não só outorgaram a concessão à “patronal delincuente” H. Reinier e encobriram, com a cumplicidade de agentes de segurança e da direção, violações do direito de greve, como a intervenção (ilegal) de trabalhadores interinos escoltados pela polícia para limpar as estações, como a SCNF (Sociedade Nacional de Ferroviarios da França) também convocou 9 grevistas diante da Justiça e não exitou em pedir uma multa diária equivalente ao que tercerizada para por mês a cada empregado part-time (meio período). Mesmo assim, com uma decisão pouco comum, o Tribunal Administrativo de Montreuil (cidade no leste de Paris) rechaçou a demanda e condenou a SNCF a pagar 500 euros de reparações a cada acusado. Os 4500 euros foram irão direto ao fundo de greve.

Uma primeira vitória em uma longa luta para terminar com a terceirização
A vitória dos trabalhadores de ONET tería que inspirar a outros trabalhadores, apesar de sua precarização, para que levantem a cabeça e lutem por seus direitos. Somente no marco de uma luta mais ampla e coordenada, entre distintos setores precarizados e terceirizados, mas também com trabalhadores contratados, será possível atacar às raízes das condições da semi-escravidão da terceirização e que a SCNF contrate todos os precarizados.

Para terminar, o êxito dessa luta foi também os vínculos que se construíram entre distintas lutas. Feministas do movimento #MeToo, membros do comitê Verdad por Adama (Adama Traoré, assassinado pela polícia francesa em um ataque racista), todos os combates contra a exploração e a opressão se encontraram e foram bem acolhidos nos piquetes de greve de ONET. Em um dos episódios mais emocionantes da greve, Assa Traoré (irmã de Adama, mencionado acima) veio ao piquete e revelou ser filha de uma das trabalhadores que havia iniciado a greve. Os trabalhadores, por sua vez, se solidarizaram quando seus irmãos Youssouf e Bagui foram condenados pela Justiça numa acusação judicial sem precedentes. Tomando em conta o caráter estratégico da unidade no movimento operário e na juventude dos bairros populares, podemos perceber a esperança que representa essa vitória. Os grevistas e suas famílias celebraram a vitória no sábado 16 de dezembro no teatro militante “La Belle Etoile”, junto a distintos setores que haviam apoiado a greve.




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