Gênero e sexualidade

GÊNERO E SEXUALIDADE

A violenta "reflexão" de Sérgio Moro sobre feminismo

Sérgio Moro sempre faz um favor a humanidade quando fica quieto. Já basta todo o autoritarismo judiciário que ele aprofunda com a Lava Jato e agora à frente do Ministério da Justiça. Um dos grandes atores do golpe institucional, que atinge com crueldade as mulheres.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

quinta-feira 8 de agosto| Edição do dia

Mas eis que Sérgio Moro decide falar sobre feminismo. Ele diz que a pretensa superioridade dos homens não existe mais e que infelizmente alguns homens terminam usando da violência física pela intimidação que sentem das mulheres que hoje tem um papel crescente na sociedade. Alguém precisa dizer pra Sérgio Moro que o patriarcado existe há cerca de 10 mil anos, e que a violência de gênero não começou agora "quando as mulheres tem um papel crescente na sociedade". Além disso vivemos um momento em que se os homens se sentirem intimidados pelas mulheres como diz Moro o próprio presidente os encoraja a essa violência.

Num país governado por Bolsonaro, do "não te estupro porque não merece" a análise "sociológica" de Sérgio Moro sobre a violência as mulheres é na realidade uma violenta forma de buscar explicações para as estatísticas aberrantes ao mesmo tempo em que "reconhece" que as mulheres vem tendo um papel crescente na sociedade. De conteúdo cumpre a mesma função da nota de retratação com fonte número 8 de Bolsonaro no twitter para Maria do Rosário: livrar a própria cara.

Enquanto ele fala de feminismo, seu próprio Ministério da Justiça é responsável por manter 21 mil mulheres presas, em sua maioria negras, sem sequer julgamento. Enquanto ele fala de mulheres fortes, seu ministério fiscaliza a “execução da lei” e cerca de 5 mil mulheres falecem ou tem graves sequelas cada ano devido a abortos clandestinos. Junto de sua constatação do tempo e elogio às mulheres, corre a seu lado as declarações de Bolsonaro ou de Damares falando que o ideal social era que a mulher ficasse no lar. 47% de todos assalariados do país são mulheres, e além de se enfrentar com os patrões são responsáveis de todo trabalho doméstico, não remunerado, invisibilizado. Mas nada dessa “força” interessa a Moro. Ele sabe que se essa força se organizar não haverá bombom ou flor ou tweet oferecida pelo patrão que calará nossa voz. Nossa voz exigirá muito mais que sua aprovação condescendente, exigirá nosso direito ao pão, mas também às rosas.

O "reconhecimento" do papel das mulheres na sociedade é o olhar de nossos algozes sentindo o medo da força imparável das mulheres. Não lutamos nem por espaço na propaganda do Itaú, nem por sermos reconhecidas por Sérgio Moro. Sentimos sua violência contra nós a cada autoritarismo que retira direitos democráticos elementares como por exemplo contra as mulheres estrangeiras que podem agora ser sumariamente expulsas do país. Sentimos sua violência em cada frase do "pacote anti crime" que autoriza os assassinatos policiais que atingem as mulheres negras. Sentimos a violência do silêncio do Ministro da Justiça tampando o ouvido a cada um dos 80 tiros em Evaldo, músico negro assassinado pelo Exército no Rio.

Esse feminismo de fachada que Sérgio Moro tenta vender aparecendo como parte de quem quer se maquiar junto às mudanças da sociedade, bem, esse feminismo jogamos no lixo da história. Da intimidação ao medo, veremos cada um destes tremerem com a imparável força das mulheres ao lado da classe trabalhadora pra transformar o mundo. Essa transformação não comporta o reconhecimento de Sérgio Moro: é inconciliável com os que regem as leis pra nos explorar e oprimir. A nossa luta é contra esse patriarcado, mas também contra o capitalismo e seus governos, como o de Bolsonaro que odeia as mulheres e por isso contribui para que as estatísticas de violência aumentem cada vez mais.




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