Política

A veneração de João Doria pelo racista Trump: "ele é bilionário e muito invejado"

André Augusto

São Paulo| @AcierAndy

sexta-feira 11 de novembro| Edição do dia

O tucano João Dória repetiu à farta nos debates televisivos que é um empresário, não um político, que busca “administrar os recursos da cidade”. Nem um bombardeio de elétrons no cérebro do novo prefeito de São Paulo poderia fazer com que dissesse algo mais do que “sou um gestor”.

Esta demagogia antipolítica de direita também capitalizou votos para candidatos reacionários como Crivella no Rio, Marchezan em POA e Kalil em Belo Horizonte. O bilionário presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem esse discurso como marca registrada. E é imensamente admirado pelo “gestor” Dória.

"Você vai assistir a um show de competência. De ousadia. De talento. De sucesso." Assim o apresentador João Doria anunciou seu programa na TV Bandeirantes em 11 de dezembro de 1988. Naquela noite, ele levou ao ar uma entrevista com o bilionário americano Donald Trump.

A descrição do convidado feita por Doria tinha tudo a ver com a imagem que o prefeito busca projetar de si mesmo: "Um homem rico, famoso, poderoso e muito, muito invejado".

Uma foto do encontro decora o escritório do prefeito eleito de São Paulo. No retrato, ele e Trump seguram um quadro que reproduz um mar de arranha-céus, com o nome do bilionário no topo.

Doria inclusive já apresentou a versão brasileira do reality show "O Aprendiz", estrelado por Trump na rede NBC. Em vista das críticas recebidas por Trump pelo incontido racismo, xenofobia e misoginia, Dória precisou esconder as recordações e dizer que “não se identifica com o estilo dele”. O tucano afirma se inspirar em outro empresário americano que entrou na política: Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York.

Triste exemplo para o desavisado tucano: Bloomberg admira o bilionário eleito e fará parte do governo Trump.

Pode-se ver neste acervo da Folha a entrevista que Doria fez a Trump em 1988. A admiração pelos iates, cassinos, hotéis e imóveis do xenófobo presidente americano não admitiram reservas por parte de Doria.


Imagem da entrevista feita por Doria, em dezembro de 1988

Já então o empresário da construção civil destilava as idéias racistas imperiais sobre “os Estados Unidos estarem sendo roubados por outros povos” – como se o imperialismo norteamericano não estivesse envolvido nas maiores atrocidades contra os povos estrangeiros, como as incursões no Oriente Médio que redundaram na Guerra do Golfo e as posteriores guerras do Iraque e do Afeganistão – e o isolacionismo protecionista na economia.

Segundo o então Trump, “o Japão está roubando vários países, a torto e à direito, principalmente os Estados Unidos. [...] Eles falam em mercado livre, mas isso não é mercado livre, porque se você tenta fazer negócios no Japão, vai ver que é virtualmente impossível. Eu acho que o Japão, a Arábia Saudita, o Kwait, estão roubando os Estados Unidos...” e assim segue Trump, no habitual recurso lingüístico de repetir mil vezes um estreito círculo de noções, por uma combinação de charlatanice e absoluta indigência de idéias.

Estas mesma acusações agora são lançadas pelo presidente ianque sobre a China e o México, contra os quais quer construir um muro na fronteira mexicana e aplicar tarifas de 35% contra as importações chinesas. Ademais, a expulsão dos muçulmanos e dos imigrantes latinos, o endurecimento da repressão aos negros e a retirada de direitos das mulheres são outras propostas aventadas por Trump contra os que “roubam os Estados Unidos”.

Doria admira este nobre modo de ser do “Trump way of life”. Pouco importa que seja um demagogo populista de direita. Doria também o é, e aprendeu com o mestre. Na campanha eleitoral disse que não se importa com o salário de prefeito: uma das primeiras medidas será, paradoxalmente, aumentar os salários de toda a gestão paulistana, inclusive o seu. É um ladrão de terrenos públicos da mesma forma que Trump, invadindo e incorporando a sua mansão a área municipal de Campos do Jordão. E busca ser o prefeito da “lei e da ordem”: pupilo de Alckmin, já avisou “tolerância zero” aos movimentos sociais, no melhor estilo biônico do Major Olímpio.

O "homem forte" que usa seu enorme poderio econômico e seu êxito pessoal como garantia de sua capacidade para aplicar grandes soluções: Trump é o espelho em que Doria se enxerga. Não tardará para que Doria siga o exemplo de Alckmin e vá prestar homenagem à meca da reação mundial, o novo governo da Casa Branca, a fins de "negócios".




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