Gênero e sexualidade

TERCEIRIZAÇÃO NA USP

A terceirização tem rosto de mulher: em defesa dos trabalhadores do bandejão da USP

Declaração do Pão e Rosas contra a absurda segregação e precarização à que estão submetidas as trabalhadoras terceirizadas do restaurante universitário da Universidade de São Paulo.

terça-feira 24 de abril| Edição do dia

Desde o dia 26 de março de 2018, um setor inteiro do restaurante central universitário (o chamado “bandejão”), da Universidade de São Paulo, considerada uma das melhores universidades da América Latina, funciona as custas de mulheres trabalhadores terceirizadas. O trabalho que era exercido por 12 homens, trabalhadores efetivos, que se revezavam periodicamente em outros trabalhos, hoje é realizado por 7 trabalhadores, sendo 4 mulheres. A sala de louça é um dos setores com maior sobrecarga de trabalho.

Nos bandejões da USP se fabricam milhares de refeições diariamente. Uma parte, dezenas de quilos de comida, sobram todos os dias, e são ou doados ou descartados. No entanto, os 7 trabalhadores terceirizados da sala de louça, são impedidos de comer a comida que ajudam a produzir. Suor, lágrimas e fome, assim é o trabalho dessas 4 mulheres, junto aos seus companheiros, na sala de louça do bandejão. A única razão para que não possam comer a comida que é servida no restaurante onde trabalham é uma: a USP não quer! Não existe nenhum impedimento legal ou contratual para tamanho absurdo.

A terceirização serve unicamente aos lucros dos capitalistas. Na USP são milhares de trabalhadoras terceirizadas, que deixam suas vidas limpando os corredores da universidade, lavando as bandejas dos estudantes e mantendo a universidade em pé. São um exército de mulheres, majoritariamente negras, sujeitas a contratos vulneráveis, trabalho precário e assédio moral e sexual constantes. A opressão combinada à exploração é um negócio extremamente lucrativo. Não é coincidência que nos trabalhos mais precários, com menores salários, sejam a maioria de mulheres negras a ocupar esses postos. Assim como não é coincidência que na mais elitista universidade do país, as trabalhadoras terceirizadas não possam comer a comida que ajudam a produzir. Isso é resultado da combinação da opressão patriarcal e racista com a exploração capitalista que faz com que o trabalho das mulheres negras valham menos na sociedade capitalista, assim como seus corpos valem menos, suas ideias, sua existência.

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Não bastasse a violência e opressão às mulheres nessa sociedade capitalista degradada, associadas às péssimas condições de trabalho a que somos submetidas, ganhando menores salários, recai também sobre nós a dupla ou até tripla jornada de trabalho.

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A reitoria da USP, apoiada no governo de São Paulo e conhecida por seu projeto de desmonte e privatização do ensino público, se nega a garantir direitos mínimos aos trabalhadores da universidade, efetivos e terceirizados, e avança num projeto de terceirização caracterizado pela mais profunda precarização do trabalho, que, como no resto do país, tem rosto de mulher negra.

Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, repudiamos a verdadeira segregação que ocorre com as trabalhadoras terceirizadas dentro do restaurante universitário da USP. Colocamos nossas energias para lutar por condições dignas de trabalho, por iguais direitos e iguais salários. Lutamos, contra a terceirização, pela efetivação imediata de todas e todos os trabalhadores terceirizados sem a necessidade de concurso público.

Basta de segregação nos bandejões da USP! Que as trabalhadoras e trabalhadores terceirizados possam ter o direito de comer a comida que suas mãos ajudam a produzir!




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