SIRIA

A suspensão do diálogo sobre a Síria e as tensões entre EUA e Rússia

Em meio às acusações trocadas entre estados Unidos e Rússia, o regime de Assad continua os bombardeios e ataques à cidade de Alepo. A ofensiva Russa e a crise estadunidense.

Juan Andrés Gallardo

Buenos Aires | @juanagallardo1

quarta-feira 5 de outubro| Edição do dia

Washington confirmou nesta terça que dava por finalizado o diálogo com a Rússia para encontrar as vias que permitiram ao país manter o fogo aberto na Síria. O anúncio foi uma formalidade já que a continuidade d diálogo entre os dois países não era mais que ficção diplomática. A trégua que haviam pactuado os chanceleres de Rússia e Estados Unidos, Lavrov e Kerry, foi desfeita em meados de setembro, a menos de uma semana de ter sido posta em prática, em meio a acusações cruzadas por ambas as potências de ter sido responsável pelo fracasso.

Desde que o acordo caiu, há quinze dias, o secretário de estado estadunidense John Kerry anunciou que manteria abertos os canais para tentar chegar a uma nova trégua. Sem embargo, ninguém acreditava que isso fosse acontecer. O cessar fogo terminou quando aviões da coalizão dirigida por Estados Unidos bombardearam “por engano” tropas do Exército Sírio matando 60 deles. Por sua parte Estados Unidos acusaram a Rússia e Assad de bombardear um comboio da Cruz Vermelha com ajuda humanitária. Estes dois fatos foram suficientes para acabar com uma semana de trégua. Desde este momento as tropas de Assad, com ajuda da Rússia tem bombardeado e atacado posições da oposição síria nos leste de Alepo, incluindo hospitais e reservatórios de água.

O que há por trás do fracasso da trégua?

O fim do diálogo para chegar a uma trégua na Síria tem como plano de fundo os próprios interesses de Estados Unidos e Rússia, como também de outros atores regionais que parecem fazer ser inviável um acordo que satisfaça a todos.
Rússia reclama aos EUA sua falta de vontade para separar ao islamista Ex Frente Al Nusra do resto das milícias opositoras ao regime de Assad. A Frente Al Nusra que tem laços históricos com Al Qaeda rompeu há alguns meses com esta organização internacional com o argumento de concentrar-se na guerra interna na Síria. E trocou seu nome para “A Frente da Conquista”. Seus motivos pareciam estar ligados mais a uma operação de propaganda pra limpar sua imagem e reciclar-se como uma oposição moderada, já que como filial síria da Al Qaeda estava fichada como organização terrorista (junto ao Estado Islâmico)pelas potências que intervêm no conflito. A situação é complexa por que a Frente da Conquista é um das organizações que havia mostrado maior poder ofensivo contra as forças de Assad e lutam dentro do chamad Exército das Conquistas com outras organizações islâmicas e também com milícias das oposição moderadas que são apoiadas abertamente por Estados Unidos.Isso dificulta que grupos opositores aceitem as reivindicações do regime de Assad e da Rússia para dividir suas forças, o que lhes debilitaria extremamente numa batalha desigual por Alepo.

Estados Unidos por sua parte também tem divergências internas sobre a forma de levar adiante a guerra na Síria entre a Cúpula Militar, Obama e o Pentágono. O Pentágono havia rechaçado qualquer possibilidade de compartilhar informações confidenciais com as Forças Armadas Russas, o que teria ocorrido acaso a trégua tivesse se mantido de pé ( e faz duvidar do “erro” de Estados Unidos ao atacar as tropas de Assad há duas semanas). As divisões também alcançam à ação própria do imperialismo na guerra síria, com divergências sobre a utilização de suporte de tropas terrestres, a intervenção militar ou a eficácia do treinamento de milícias opositoras. Estas divergências também são evidentes entre Obama e a candidata democrata Hillary Clinton que responde mais claramente à ala mais guerrerista do establishment Estadunidense que vêem na inação dos EUA o motivo para que a Rússia tenha terminado ganhando um poder desproporcional na guerra síria e que usa para expandir sua influência a nível internacional.

Kerry, por sua vez, justificou o fim da trégua pela intransigência da Rússia para frear os ataques sobre Alepo e evitar utilizar seus bombardeios nas operações que leva adiante Assad. Estas exigências dos Estados Unidos foram negadas por Putin, que percebe a crise de hegemonia estadunidense e o atolamento em que se encontra no caso da Síria, busca tirar proveito disto.

Por trás da ruptura do diálogo, tanto Kerry como Lavrov se lamentaram cinicamente e disseram que buscariam novas formas de aproximação. Nenhum deles quer ficar com a responsabilidade do fracasso, porém ambos defendem os interesses de seus países, o que garante a continuidade da guerra na Síria. Estados Unidos não parecem dispostos a mudar sua política a poucos meses das eleições presidenciais e Rússia entende os sinais de debilidade estadunidense como uma oportunidade de avançar em suas ambições de potência mundial.

Para ilustrar o momento basta ver as declarações da Rússia, que anunciou nesta segunda-feira a suspensão dos acordos que tem com os EUA para a eliminação do Plutão de uso militar. Putin já havia anunciado em abril que os Estados Unidos estavam descumprindo o acordo para a destruição do plutão, e que a forma que o faziam os permitiam reutilizar o material para armamento nuclear. Porém, na segunda-feira deu um salto ao apresentar um projeto de lei que suspendia o acordo e que o deixava sujeito seu reestabelecimento a duas condições prévias. Duas condições que parecem bastante uma provocação aos Estados Unidos: Em primeiro lugar se exige “a redução da infraestrutura militar aos EUA e as tropas nos países que se incorporaram à OTAN em 2000”; e em segundo lugar “o levantamento de todas as sanções de Estados Unidos contra a Rússia e indenização pelos danos causados”.

Mais além do grau de simbolismo que possa ter o anúncio de Putin expressa um aumento acelerado dos atritos entre EUA e Rússia que se encontra num marco de aumento das tensões internacionais com outras potências, onde a guerra da Síria é uma das faces de um cenário geopolítico que se torna mais complexo entre a crise de hegemonia estadunidense e uma escalada provocada por uma crise econômica rastejante que vem se desdobrando em uma série de “guerras comerciais” (como a recente ofensiva sobre o Deustche Bank por parte dos EUA e da Apple por parte da Europa).

Enquanto isso, em solo Sírio, as conseqüências das intervenções destas potências imperialistas e regionais tem números concretos: mais de 400.000 motos, a metade da população deslocada e milhões de refugiados vivendo na indigência ou em campos de concentração em países vizinhos.

Tradução: Zuca Falcão.




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