Gênero e sexualidade

GÊNERO E SEXUALIDADE

A sexualidade patriarcal em nossas camas. O direito a educação sexual e a um orgasmo pleno e real das mulheres

quarta-feira 31 de agosto| Edição do dia

A desigualdade de gênero está constantemente estreitando nossas vidas, nas relações afetivas e relações sexuais. O capitalismo que sustenta o patriarcado é tão selvagem, que além de não permitir que mulheres tenham os mesmos direitos que os homens, também nos priva muitas vezes de gozar do prazer sexual e alcançar um orgasmo pleno. Se é naturalizado que nas relações heterossexuais o papel da mulher na cama é satisfazer e servir ao homem: dar prazer e não receber.

Para alcançar sensações de prazer, é necessário receber estímulos para desconectar de nossa cabeça e desfrutar livremente de nosso corpo. Se isso não é assim, se inibirá as sensações subjetivas do prazer e do poder gozar completamente de uma relação sexual.

Nós mulheres não somos uma embalagem para penetrar, nosso corpo pode experimentar muito mais coisas, nossa vagina se preparada com diversas carícias e beijos podendo transforma-se em uma máquina do prazer, dando passagem a lubrificação vaginal, como também a excitação de nossos clitóris e mamilos para poder desfrutar realmente de uma relação sexual.

Se analisarmos objetivamente as condições nas quais nos encontramos podemos visualizar que esta opressão não só se vê expressa propriamente no ato de uma relação sexual mas nas distintas arestas e temas relacionados aos nossos corpos e cuidado, enraizado no senso comum das pessoas.

Por exemplo, uma disfunção erétil, pode ser facilmente transformada em uma tragédia, e pode ser um tema de contingência, tratado, bem falado e difundido, porque o machismo não é sutil com os temas diretamente relacionados com as falhas sexuais dos homens, a mesma indústria farmacêutica anuncia com estardalhaço o famoso Viagra pra solucionar o problema. Agora, se a nós mulheres ocorre algo parecido , porque o assunto não é tratado e difundido?

Diferente do que ocorre com eles, muitas vezes ocorrem que mulheres tentem justificar e normalizar as distintas dificuldades para alcançar o orgasmo e inclusive chegamos a escondê-las e calar-nos, seja por medo de decepcionar o parceiro, a fim de demonstrar perfeição ou simplesmente por que a educação sexista que predomina, nos educa para agradar e não para pedir nem buscar ajuda, nem para evidenciar algum grau de desconformidade, respondendo a uma sexualidade complacente, onde nosso gozo sexual passa para um segundo plano, nos mantendo inseguras e ignorantes.

Além de tudo isso, a moral conservadora e religiosa tem conseguido implantar-se de tal forma que existe um desconhecimento dos genitais, das doenças sexualmente transmissíveis e do erotismo feminino por parte dos homens e mulheres, por estarem estas temáticas ocultas em um mundo de tabus e mitos impostos em nossas vidas, colocando esses temas como proibidos, onde, se alguém compartilha suas experiências sexuais ou fala de partes de nossos corpos é julgado moralmente, o que também gera uma ignorância em relação as doenças sexuais que ser contraídas tanto por homens como por mulheres, com piores consequências para as mulheres, na maioria dos casos. Desde a infância, somos levadas a acreditar que explorar nossas genitais ou falar de nosso prazer são coisas proibidas. Além de tudo isso, a ditadura moral nos afasta da aceitação, conhecimento e carinho com nossos corpos.

Por outro lado também, o sistema nos implanta crenças populares, como que basta a penetração para sentir prazer, o que é totalmente falso. Se faz imperiosamente necessário compreender que as carícias e beijos são indispensáveis no ato sexual, pois aumentam o prazer exponencialmente.
Estas são ferramentas de excitação nas preliminares, mas que deve ser mantidas durante o encontro, onde tanto os homens quanto nós mulheres temos direito de viver sua sexualidade em sua plenitude. Definitivamente a penetração a seca não basta, deve-se saber que o orgasmo feminino se alcança com maior satisfação e mais facilmente através de suspiros, carícias , beijos em distintas partes do corpo, acompanhados de uma estimulação delicada e constante de nossos pontos mais sensíveis como o clítoris.

Lamentavelmente, nesta sociedade misógina, há a crença de que o prazer sexual é coisa de homens e à nós mulheres, corresponde o papel de dever diante da sexualidade, onde nossas obrigações são as de satisfazer aos homens. Daí que ao situar os desejos, erotismos e o prazer masculinos como eixos centrais da sexualidade a sociedade se mostra disposta a compreender e justificar que um homem seja opressor naturalizando a dominação sexual do gênero feminino.

Porque não é uma preocupação, nem um objetivo, estimular e reconhecer o prazer sexual feminino?

Basta! Nos negam o direito a abortar, nos escravizam no trabalho doméstico e nas funções maternas, temos os trabalhos mais precários, não temos berçários para nossos filhos, corremos o risco de ser estupradas, nos assediam nas ruas exercem propriedade sobre nossos corpos e não temos direito de decidir sobre eles, nossos salários são menores do que o dos homens apesar das mesmas funções exercidas, sofremos discriminação, somos condenadas por qualquer atitude que não cumpra com as nefastas regras morais impostas pela igreja, somos violentadas por esse sistema capitalista e diminuídas pelo machismo, e como se fosse pouco, nos privam do prazer sexual.

Nós mulheres devemos buscar o fim da sexualidade contida e lutar pelo acesso a uma educação sexual que nos permita decidir informada e empoderadamente.

Devemos aprender a desfrutar, respeitar, conhecer, tocar e a querer nossos corpos. Deixemos de fingir orgasmos, de aguentar opressões e silenciar nossa sexualidade. Levantemos uma grande luta contra esse sistema que sustenta e reproduz todas as misérias machistas, heteronormativas, clericais e patriarcais. Na rua e na cama.

Tradução: Clarissa Ramos.




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