Teoria

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A segunda morte de Lenin

Entre o Lenin “stalinista” e o Lenin “pós-moderno”, onde fica o Lenin da revolução proletária?

Gilson Dantas

Brasília

domingo 29 de janeiro de 2017| Edição do dia

O coração de Lenin deixou de bater em janeiro de 1924.

O processo que virá nas décadas seguintes, de degeneração progressiva [através de miniguerras civis como dizia Trotski, levadas adiante pela fração Stalin] do legado de Lenin na URSS, representa uma espécie de primeira morte, de fato, do leninismo. Quando a URSS veio abaixo, na virada dos 1980 para os 1990, quando estátuas de Lenin foram destruídas em cidades soviéticas, o “Lenin” que ali foi derrubado, isto é, o aparato de poder da burocracia stalinista, na verdade, jamais representou o pensamento de Lenin, um Lenin vivo.

Naquele momento se encerrava um ciclo da União Soviética, do movimento comunista mundial, porém aquilo que ainda esteve de pé até ali representava muito mais a morte de Lenin e suas ideias; Lenin jamais concebeu socialismo sem sovietes, sem partido em luta por ideias comunistas e, muito menos, “socialismo em um só país”. São inventos da burocracia usurpadora, contrarrevolucionária que, dessa forma, enterrou Lenin.

Os partidos comunistas e boa parte da esquerda, inclusive por aqui, continuaram falando em nome de Lenin – aliás continuam, caso do PCB e do PC do B – mas para nada defendem a estratégia soviética, de Lenin, muito menos tem a ver com Lenine essa sua já “tradicional” política de colaboração de classe [“frentes populares” e congêneres]. Continuam reféns do pensamento stalinista, que enterrou Lenin, e representam, à sua maneira, uma espécie de resignação, de comunismo nostálgico, isto é, adaptado à miséria do real, do possível, em que pese qualquer fraseologia comunista de parte deles, em dias de festa.

Portanto a “primeira morte” de Lenin vem quando ele começa a ser reivindicado, ou elementos do conteúdo leninista são reivindicados, lado a lado com o totalitarismo stalinista. Reivindicar Lenin, nesse caso, vem junto com um ”combo” antileninista, de comunismo sem povo, sem conceber o proletariado levantando o Estado de novo tipo, soviético, preconizado por Lenin e Trotski.

Com a crise do stalinismo, a “segunda morte” de Lenin não se fez esperar.

Derrotado o ciclo revolucionário que eclodiu em 1968 em um país imperialista [França] e se estendeu até a revolução política frustrada na Polônia de 1981, com o crescente desmascaramento do stalinismo, a adaptação dos grandes PCs à política burguesa, ao neoliberalismo [aggionarmento], eis que reaparece o nome de Lenin, mas agora fantasmático, um tipo de espectro chamado por alguns de “o acontecimento leninista”, um tipo de Lenin heroico da Revolução Russa, da “utopia revolucionária” só que, em bom português, um Lenin que é momentaneamente retirado das sombras do stalinismo para novamente ser morto, ou se se quiser, que já nasce descaracterizado.

Afinal, estamos em tempos pós-modernos, líquidos, que emergem nos marcos do fracasso do proletariado naquele ciclo do pós-guerra, na França, Itália, Portugal, países imperialistas, ofensiva do capital e portanto, tempos de reacionarismo, de formas de resignação. E precisamente este “segundo Lenin”, levantado, por exemplo, por Zizek, integra outro tipo de resignação.

Trata-se de um Lenin com significante vazio, não mais conectado a um legado que realmente possa ser chamado de leninista, ao Estado de novo tipo, à estatização e socialização da economia, à estratégia para a revolução proletária: aparece como um Lenin sem sujeito histórico coletivo, portador de uma resignação “heroica” se se pode dizer assim. Isto é, praticamente liquefeito, vaporoso.

E por que, de alguma forma, temos um Lenin que está morto novamente? Porque embora se pretenda, aqui, um Lenin apartado daquele outro, o stalinizado, mumificado ou fundido ao totalitarismo, no entanto, ele é preso e tomba refém daquela antinomia que marcava o debate dos anos 1970 em diante – e que segue hoje de pé embora menos forte – de que só temos a opção entre o totalitarismo e a democracia liberal. Portanto, teremos um Lenin encaixotado nos marcos desse dilema.

Ou seja, o Lenin agora remasterizado, resvala daquela miséria do real stalinizado, que Moscou propagou durante décadas, até os anos 1970-1980, para a miséria do real liberal, ou que aceita os limites da democracia liberal, que se impôs mundo afora principalmente após a ofensiva neoliberal dos anos 1970-1980. Diferentes autores, e de diferentes formas, irão defender essa ideia [Laclau, Badiou e, à sua maneira, Zizek]. A retomada do projeto radical, com o Lenin “totalitário” não serve, então inventemos um Lenin nos marcos do capitalismo ou no horizonte da democracia liberal! Mas acontece que daí desaparece o potencial revolucionário e anticapitalista do proletariado, vem a “despolitização” da economia [não se defende um programa transicional para superar revolucionariamente o capitalismo, levantando a classe trabalhadora como sujeito] e, na verdade, o que está sendo tentado é o Lenin sem conteúdo leninista, Lenin como uma vaga “energia utópica”, como aquele personagem indeterminado e que apenas aproveita o momento excepcional, revolucionário, para romper a norma, patrocinar a ruptura ou alguma ruptura [já que, afinal, estamos diante de categorias indeterminadas].

Em vez da reatualização de Lenin para a revolução proletária do nosso tempo, temos outra maneira de negá-lo, de afirmar negando.

Não há como fugir dessa conclusão: Lenin sem a democracia soviética, sem a livre expressão das distintas tendências proletárias, socialistas, não é Lenin e, por isso mesmo, vai terminar sucumbindo, como casca vazia, ao liberalismo capitalista ou ao totalitarismo contrarrevolucionário de Stalin e seus seguidores [o chamado “destino stalinista” das revoluções]. Por isso mesmo o próprio Zizek, aliás, aceita o stalinismo como continuidade do projeto leninista... [Resta por explicar, neste caso, por que Stalin, para continuar o “projeto leninista”, precisou liquidar todos os leninistas do partido...].

Mas, justamente, retomar Lenin vivo – portanto não matá-lo de novo – significa romper com aquela falsa disjuntiva de que temos que “escolher” entre o totalitarismo e a democracia liberal e, de uma vez por todas, voltar às fontes: ao Lenin “operador estratégico” da estratégia soviética, da tarefa preparatória para a revolução, da defesa intransigente do programa de socialização da economia e seu controle pela classe trabalhadora, pela sociedade. Do Lenin com a convicção – como também Trotski – de que a nossa primeira vitória revolucionária somente se sustenta se internacionalizarmos o processo revolucionário, estendendo-a a outro e outro país e assentando as bases da revolução em território imperialista [tarefa que já eclodiu, já foi tentada, em Portugal de 1974, França de 1968, agora na Grécia desses anos – apenas para dar alguns exemplos -, mas que não encontrou direção revolucionária à altura, isto é, leninista... isto é, o Lenin vivo.

1. Pode lhe interessar assistir ao vídeo [canal RT, em espanhol: Lenin, en la memoria colectiva de Latinoamérica 90 años después de su muerte]:

2. Também pode lhe interessar baixar livros de Lenin, gratuitamente, em português. Por exemplo, Um passo em frente, dois atrás. Teses de abril. Que fazer? O imperialismo fase superior... Karl Marx. Friederich Engels. Carta a um camarada. As três fontes e três partes constitutivas do marxismo. Memória da Comuna de Paris. E outros mais. Através deste site baixá-los.




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