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A segunda como farsa: quatro teses sobre a derrota de Sanders

Juan Cruz Ferre

Left Voice, EUA

quarta-feira 15 de abril| Edição do dia

A estratégia do DSA ao redor da campanha de Sanders foi um fracasso retumbante que apenas fortaleceu o Partido Democrata. Neste momento de crise, a necessidade de um partido da classe operária que lute pelo socialismo é mais importante que nunca.

Um: “A primeira como tragédia, a segunda como farsa”

Bernie Sanders começou sua corrida pela presidência em 2015 prometendo uma “revolução política”. Alguns anos depois da crise de 2008 e do movimento Occupy Wall Street, uma nova geração tinha se desencantado com os partidos do capital e estava explorando novos meios para fazer política, se organizar e questionar o que reconheciam como os poderes que protegiam o status quo.

Quando Sanders anunciou sua corrida pela nomeação do Partido Democrata, muitos destes jovens ativistas estavam prontos para apoiá-lo. Alguns de nós já argumentávamos naquele então que Sanders fazia um “pastoreio de ovelhas” para o Partido Democrata, mas foi identificado amplamente como um outsider, um não-favorito que desafiava o establishment do partido.

O que aconteceu depois é bem conhecido: com todo o aparato do partido contra ele, perdeu a nomeação e apoiou Hillary Cinton. A outra parte da história também é conhecida: Clinton perdeu para Donald Trump, o que deixou o Partido Democrata sem rumo (e nos deu a todos quatro anos de presidência do Trump).

A pressão por um terceiro partido, por um partido independente da classe operária, se fortaleceu mais do que nunca. Mas Bernie se manteve no Partido Democrata. Desta vez com reconhecimento nacional, uma vasta rede de partidários e uma forte equipe de campanha, decidiu se candidatar novamente como democrata. Apareceu em eventos de alto perfil junto a Tom Pérez, propôs mudanças nas regras internas do Comitê Nacional Democrata e atuou cada vez mais como um democrata orgânico.

No entanto, a história não foi muito diferente da de 2016. Como Sísifo rolando sua proverbial rocha descendo a colina, todo o dinheiro, o esforço, o tempo e a energia investidos pelos vários milhões de ativistas nos últimos anos evaporou em uma promessa de apoiar o “homem decente” Joe Biden, cujas políticas vão na contramão das de Sanders, tanto quanto o Partido o permite. Bernie tem sido um político de carreira há muito tempo, e estas dinâmicas não são novas. Mas os socialistas, particularmente a maior organização socialista dos Estados Unidos, o DSA, não poderiam ter antecipado isso?

Dois: Simbiose

Se você parar para pensar, a campanha de Bernie funcionou bastante bem para os democratas do establishment. Depois de algumas eleições primárias desastrosas em 2016 e uma catastrófica derrota contra Trump, Hillary Clinton teve que abandonar a política. O partido lutou para encontrar uma nova liderança, e não foi até as primárias na Carolina do Sul que Biden emergiu como o candidato ungido pelo establishment para unificar o voto moderado.

A manobra da Super Terça foi rápida e precisa, como tiros de um francoatirador. Sanders foi eliminado efetivamente em um piscar de olhos. Mas isso veio depois de registrar centenas e milhares de novos votantes para o Partido Democrata, e depois repetir dezenas de vezes na televisão ao vivo que a maior ameaça é Donald Trump, e que apoiaria qualquer outro candidato que se transformasse no democrata nomeado. Sanders lutou pela nomeação e o establishment o reconheceu como o “inimigo interno”, um candidato que estava disposto a dar mais concessões à classe operária que o establishment do partido e seus grandes contribuidores.

Os bandos deram uma verdadeira batalha pela liderança do partido, e as diferenças programáticas entre os candidatos não foram menos reais. O acordo tácito estava em outro lutar: em assegurar a legitimidade da democracia americana. Isso inclui a noção de que qualquer disputa política significativa tem que tomar a forma de uma luta entre democratas e republicanos. Esta ideia está por trás da decisão de Bernie para se candidatar à presidência duas vezes como democrata, e efetivamente é a que é levada para casa: não existe nada fora dos dois partidos.

Mas a legitimidade da democracia americana, tão bem guardada por Sanders quanto por Pelosi ou Biden vai além: inclui alimentar o respeito ao Congresso, aceitar as regras intrapartidárias impostas pelo Comitê Nacional Democrata (ou tentar alterá-las através dos canais estabelecidos), e fomentar as ilusões em um sistema eleitoral que se encontra entre os menos democráticos dos países industrializados. O resultado é um simbiose, na qual Bernie Sanders (e o mesmo pode ser dito da “tropa”) persegue seus objetivos e não quer tomar o controle do partido, mas consegue mudar o tema da conversa em torno de uma ou duas questões. Coloca alguns temas na agenda e está feliz com isso (de fato, muitos autodenominados “socialistas” estão felizes com isso). O Partido Democrata, por sua vez, se abre ao desafio, desafio, o abriga, derrota o desafiante sem matá-lo e emerge fortalecido.

Três: o voto e a fronteira de classe

É preciso diferenciar entre a estratégia de um político burguês (progressista) experimentado e a estratégia e a tática de uma organização que supostamente luta contra o capitalismo. Os representantes mais esquerdistas do DSA justificaram a decisão de apoiar Bernie Sanders com a ideia que deixaria a organização em melhores condições, e que a campanha de Sanders fez avançar a consciência da classe operária. Ainda que agora falte importância na pressa para justificar seu fracasso, muitos na direção do DSA e particularmente os que rodeiam Jacobin estavam entusiasmados com as perspectivas de uma presidência de Sanders e dispostos a ajudar a formar uma coalizão de governo, em ocupar postos no governo se possível, e tratar de influenciar nas políticas de Estado. Agora que Sanders está fora e promete ‘trabalhar com Joe’, se sentem obrigados a manter publicamente que a “esquerda” é muito mais forte graças a Bernie. Mas a verdade é mais difícil de digerir.

Já várias organizações da ala esquerda do Partido Democrata tentam negociar algumas concessões programáticas e postos no governo com Joe Biden em troca de seu apoio. Bhaskar Sunkara argumenta na sua colina no The Guardian que “nunca esteve mais claro quem são os inimigos do progresso.” Mas seu candidato agora está ajudando Joe Biden a se transformar em presidente, e portanto fazer com que seus partidários votem mais uma vez nos democratas. E não qualquer democrata, mas um que tem um histórico documentado de racismo, que foi acusado várias vezes de abuso sexual e que é pró-austeridade, anti sindicatos, anti-imigrante, e amigo de Wall Street. É difícil exagerar quão danosa tem sido a orientar errônea do DSA. A organização socialista uniu seus batalhões a um exército controlado por nossos inimigos de classe enquanto alguns de seus porta vozes o proclamaram como “nosso partido”. Um golpe do palácio decapitou o Tio Bernie, e agora ficaram fora, com o exército e o estandarte que trabalharam para construir nas mãos de um democrata do status quo.

Quatro: “Nada é permanente, exceto a mudança”

Enquanto isso, os trabalhadores estão se mobilizando em todo o país, e existe uma crescente sensação de que se está iniciando um novo período de luta operária, precipitado pelo catastrófico cenário causado pela pandemia. Isso pode se transformar em uma abertura única para que os socialistas se organizem nos seus locais de trabalho, construam correntes militantes nos sindicatos, e, o que é o mais importante, politizem os trabalhadores que dirigem essas lutas. Uma oportunidade para difundir entre eles uma ideia poderosa: que nossa sociedade está fraturada por interesses de classe, e que os trabalhadores devem se unir sob uma só bandeira e lutarmos juntos pelos nossos próprios interesses, não apenas nos nossos locais de trabalho e em sindicatos, mas também na arena política.

O problema é que o DSA não fez nada para plantar a sementa da independência política dos trabalhadores. Na verdade, ao prender a organização ao Partido Democrata, fez com que tal independência seja muito mais difícil de conseguir. A tragédia é que estamos entrando em uma crise econômica e social sem precedentes e o maior grupo de socialistas organizado a nível nacional se a construir uma ferramenta política independente para a classe operária durante mais de quatro anos. A farsa é que o DSA tem feito isso durante décadas e nem mesmo o fluxo massivo de militantes jovens desde 2016 pôde romper esta rotina. É hora de rompê-la e concentrar todas as energias em erguer um partido de trabalhadores com um programa socialista e revolucionário.

Originalmente publicado no site Left Voice, integrante da Rede Internacional Izquierda Diario, assim como o Esquerda Diário.




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