TERCEIRIZAÇÃO NA USP

A segregação e a terceirização na USP têm rosto de mulher negra

A Universidade de São Paulo – USP, que é considerada uma universidade de excelência, tem mostrado sua excelência em precarização do trabalho, racismo e segregação.

sexta-feira 13 de abril| Edição do dia

A segregação na USP é uma mostra do legado de miséria que a burguesia reservou aos negros para estruturar o capitalismo. A exploração da mão de obra negra escravizada fez do Brasil o país mais negro fora do continente africano, que até hoje é um país extremamente racista. O racismo se expressa de formas gritantes, mas também naquelas que parecem “sutis”, como a naturalização de que os negros estejam nos piores postos de trabalho, mais precários e pesados e que sejam as mulheres negras que ocupam as tarefas ligadas ao trabalho doméstico escancarando nos dias de hoje os resquícios do passado escravista que foi um pilar do capitalismo.

O atual reitor da USP, Vahan Agopyan em sua gestão avançou no desmonte da universidade pública, fazendo da USP uma universidade ainda mais elitista e racista. Entre vários exemplos, tem dado continuidade à privatização do Hospital Universitário, fechando as portas para os moradores da região, em grande parte das favelas. Outro exemplo é a precarização do trabalho, terceirizando bandejões inteiros e agora avançando sobre o setor de louça do bandejão central, fazendo com que 7 trabalhadores recém contratados, agora com menos direitos e menor salário, cumpram funções que deveriam ser para 14 trabalhadores.

Na USP de "excelência" onde uma burocracia "ilustrada", composta por diretores de unidade e todo o "staff" do reitor tem enormes privilégios, recebendo salários de mais de R$ 30 mil reais, auxílio moradia, motorista particular, etc, os trabalhadores adoecem trabalhando com um salário mínimo, são impedidos de comer a comida que eles mesmos ajudam a produzir e passam fome enquanto se jogam toneladas de comida no lixo. Além de serem proibidas de se alimentar nos refeitórios e de usar os vestiários junto aos demais trabalhadores efetivos, a segregação não para aí e continua do lado de fora dos locais de trabalho pois estas trabalhadora não podem ter direito ao bilhete BUSP para pegar o transporte interno da USP. Essa situação revoltante de trabalho nos bandejões não é uma exceção, mas a realidade de milhares de trabalhadoras terceirizadas em todo o pais, que são em sua maioria negras.

É necessário a mais ampla unidade entre estudantes, trabalhadores e professores para garantir plenos direitos aos trabalhadores terceirizados, começando por ter os mesmos direitos e salários dos efetivos e efetivando todos os trabalhadores terceirizados, sem concurso público. Por se tratar de uma maioria de trabalhadores negros é necessário ligar esta batalha à luta pela igualdade salarial entre negros e brancos, mulheres e homens, para atacar a exploração capitalista e combater o racismo.

Esse nível de exploração e opressão busca separar cada vez mais os trabalhadores a fim de dividir a nossa classe para permitir aos patrões uma maior exploração do conjunto da classe trabalhadora. É necessário garantir igualdade salarial, pois mesmo cumprindo as mesmas funções e trabalhando pelo dobro de funcionários necessários, as trabalhadoras recebem 50% do salário de um efetivo.

Enquanto os negros são a ínfima minoria entre os estudantes da USP, são a esmagadora maioria entre os terceirizados. Não bastasse esse nível de segregação dentro da universidade, acontece também fora da USP pois são os negros aqueles considerados como o “suspeito padrão” pela polícia, moram nas favelas em volta da USP, como São Remo, favela do Sapé e outras trabalhando para a universidade mesmo sabendo que seus filhos não poderão estudar nas universidades públicas.

A partir do chamado feito pelo Sindicato dos Trabalhadores da USP, centenas de estudantes, trabalhadores se reuniram na frente do bandejão para se manifestar contra a segregação e em defesa dos terceirizados, para garantir melhores condições de trabalho e igualdade de direitos e salários além de sua efetivação, assim como fizeram os estudantes da África do Sul em 2015 que unificaram sua luta e conseguiram a universidade a efetivação de todos os terceirizados.

Enquanto toma medidas como a homenagem ao geógrafo negro Milton Santos, e, depois de muitos anos de luta do movimento negro, do movimento estudantil, dos trabalhadores e professores dessa universidade, adota cotas étnico-raciais, a reitoria da USP mostra a sua verdadeira cara cínica e demagógica, perpetuando o trabalho semi-escravo de mulheres negras e atacando a permanência estudantil.

Essa situação só reforça a necessidade de que como parte da luta por iguais direitos e salários e pela efetivação dos terceirizados, avancemos para revogar a reforma trabalhista e a lei da terceirização. É por isso também que na universidade defendemos, além do que colocamos ao longo do texto, o ensino de História da África e da luta do povo negro nos currículos, as cotas raciais proporcionais à população auto-declarada dos estados rumo ao fim do vestibular e a luta por uma universidade à serviço dos trabalhadores e do povo pobre, partindo do questionamento da universidade de classes para o questionamento da sociedade de classes. A agrupação de negros Quilombo Vermelho, a Juventude Faísca e o grupo de mulheres Pão e Rosas estão à serviço dessas batalhas.




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