Mundo Operário

SAÚDE NO TRABALHO

A saúde não se vende!

O Modelo Operário desenvolvido na Itália dos anos 60 nos traz vários caminhos que devem ser reapropriados, para pensar atuação nas CIPAs, retomando a ação transformadora de fato frente ao capitalismo que é um sistema de morte.

segunda-feira 28 de novembro| Edição do dia

“... enquanto as pessoas humanas estão organizadas no sistema que as emprega não segundo as suas plenas capacidades de seres humanos responsáveis, mas como simples engrenagens ou alavancas, não tem muita importância o fato de que sua matéria-prima seja constituída por carne e sangue. Aquilo que é usado como elemento em uma máquina, é um elemento da máquina” Wiener, inventor da cibernética.

Texto traz a luta contra a nocividade no ambiente de trabalho, que ganhou força na final da década de 60 na Itália, impulsionado pelo modelo operário para a pesquisa e para ação (para uma referência, leia aqui) criado com o objetivo de livrar o ambiente de trabalho da nocividade, elaborado pelos trabalhadores e um grupo de técnicos, no início da década de 60, a partir de denúncia dos trabalhadores de uma situação de nocividade ambiental insustentável na Farmitalia e na FIAT Mirafiori, na Farmitalia denunciavam os trabalhadores que o aparato técnico cientifico estava em benefício da produção e com uma tal leviandade para a exposição e os adoecimentos dos trabalhadores que evidenciara com extrema força o problema da nocividade.

Essa base de pesquisa e ação foi motora das lutas no Outono Quente ou maio rastejante (devido às lutas seguirem por tempo prolongado) e obteve conquista importantes com o status de lei de Estado, como exemplo o “não delegar” que permitia aos trabalhadores analisarem seu ambiente de trabalho, ocorrerão importantes saltos organizativos, na FIAT onde trabalhavam por volta de 50 mil operários saltou de 20 delegados para 800.

A prática corrente do sindicato era de monetizar a saúde, através de adicionais, de bônus, a lutas dos trabalhadores traz a consigna A SAÚDE NÃO SE VENDE; o método utilizado pela patronal era parcializar os riscos e individualizar os acidentes o conhecimento dos trabalhadores era descartado, na metodologia analítica patronal (substância isoladas, indivíduo doente isolado) método extremamente funcional a empresa, ou seja, uma instrumentalização da ciência pelo capital.

Outro ponto de destaque é que esse método criava uma forte solidariedade, necessidade de organização e atuação junto ao sindicato e consequente luta, ao contrário de individualizar como no método GRUPO OPERÁRIO HOMOGÊNIO que utilizava a AVALIAÇÃO ESPONTANEA que parte da experiência dos trabalhadores do seu conhecimento latente, “uma observação autônoma em relação a intervenções externas ao grupo (...) representa um primeiro momento de conhecimento, uma primeira hipótese e uma primeira investigação da nocividade presente no ambiente de trabalho (...) esta investigação comporta a recuperação das experiências dos companheiros (...) conclui com uma hipótese de relacionamento entre um dado da situação ambiental e um distúrbio ou um dano do próprio equilíbrio psicofísico.”

Outro elemento destacado é VALIDAÇÃO CONSENSUAL “a observação “espontânea” resulta, portanto, num primeiro momento de conhecimento leigo, mas extremamente eficaz, que leva a reconhecer validade, pelo consenso dos companheiros de trabalho (validação consensual), o confronto entre ambiente e danos à saúde.” E “NÃO DELEGAR” Não delegar significa antes de mais nada não confiar ao patrão e aos seus representantes o controle dos efeitos nocivos do trabalho sobre o homem.” Ou seja, se busca médicos, psicólogos, estudantes que pensem a partir da hegemonia operária, a partir da experiência operária, através da reapropriação cientifica de estudos e instrumentos de medição, inclusive o uso de laboratórios da empresa, da base cientifica para mudar o ambiente e criar leis.

MAPA DE RISCO, através de uma linguagem acessível para ser difundido, são criados quatro grandes grupos de risco o Primeiro contém os fatores também presente fora da fábrica, no local de habitação, fatores físicos como umidade, calor, ventilação, luminosidade; o Segundo grupo os fatores próprios da fábrica como gases, poeiras, fumos, vapores; O terceiro fator se relaciona a utilização do próprio corpo e sua fadiga física que se torna patológica ao não se ter tempo de descanso adequado; O quarto grupo de fatores são os que possam causar efeitos estressantes, monotonia, ritmos excessivos, pressão, fadiga industrial, esse muito relacionado ao modelo taylorista. (E claro, esses grupos se inter-relacionam).

Esse processo se estende para fora da fábrica (o próprio modelo não divide tempo dentro e fora da fábrica) existe toda a luta pela criação de centro de cuidados dos operários doentes com asbestose, silicose e outra doenças que atingiam os trabalhadores e a luta contra o contamição do recurso naturais.

Essas lutas deixaram um legado positivo, mas o capital também reconquistou espaço de diversas formas, por exemplo, levando empresas poluidoras para países periféricos ou retorno de ideologias de individualizar, utilizando de racismo, da xenofobia para naturalizar acidentes... O Modelo Operário nos traz vários caminhos que devem ser reapropriados, para pensar atuação nas CIPAs, retomando a ação transformadora de fato frente ao capitalismo que é um sistema de morte, em que existe toda uma naturalização das doenças, porque o próprio capitalismo é uma doença, sua ideologia é desumana e cria fortes doenças existenciais, devido a ter uma moral do lucro, da produtividade, é uma doença social...




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