SÁUDE

A saúde como mercado e seu crescimento em meio à crise

No dia 26 de agosto a Rede D´Or foi colocada como a empresa destaque entre a premiação Maiores e Melhores da revista Exame. Isso deve soar uma alerde de como saúde é um terreno a ser explorado pelos países imperialistas e que o processo de mercantilização deste ramo gera capital e não realmente cuida da população.

quarta-feira 4 de setembro| Edição do dia

Na última segunda-feira (26), em nada mais nada menos que a Sala São Paulo – um dos locais mais elitizados da cidade, na qual ocorrem apresentações de concertos e apresentações sinfônicas no Centro Cultural Júlio Prestes (que, nada coincidente, fica ao lado do que hoje se conhece como Memorial da Resistência, um museu, que preserva as memórias da resistência e da repressão políticas do estado de São Paulo, feito de parte do edifício que foi sede, durante o período de 1940 a 1983, do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo – Deops/SP, uma das polícias políticas mais truculentas do país, principalmente durante o regime militar) - foi realizada a premiação anual chamada de Melhores e Maiores que, como coloca a Exame, é a premiação tradicional do capitalismo brasileiro, na qual reúne a elite do empresariado nacional.

Dentre 20 setores da economia são premiadas as empresas que se destacaram no ano de 2018. Poderíamos colocar que este destaque / premiação – e até o porquê real do nome do evento ser Maiores e Melhores – se dá por que estas empresas conseguiram impor, quanti e qualitativamente mais, todas as mazelas que reservam o sistema capitalista a maioria da população, que é explorada e consumida em todos os setores da sua vida para se manter minimamente vivo (quando consegue) a partir da exploração para a manutenção e/ou aumento do lucro de uma mísera parcela da burguesia nacional.

A grande “estrela” da noite, ou seja, a “mais mais” foi a Rede D´Or, uma rede de hospitais brasileiros que teve seu tamanho dobrado em cinco anos (ou seja, dentro da crise capitalista que se estende a uma década e que para manter – ou no caso dobrar – seus lucros impões todas as condições precárias aos seus trabalhadores e ao conjunto da classe) e que agora investe em “parcerias” para se manter competitiva (quase posso escutar a risada de um dos grandes revolucionários com a utilização de um termo que esconde toda uma análise profunda do desenvolvimento de uma nova fase do sistema capitalista: o imperialismo).

Voltemos os olhos para a ganhadora, que coloca o lema de “Atender bem para atender sempre”, mas que na realidade poderia ser alterado para: A saúde é uma mercadoria muitíssimo valiosa! E não é demagogia, basta ver os dados que a própria matéria do Exame mostra: a receita da empresa cresceu de 126,5 milhões de dólares, em 2009, para 1,96 bilhão, em 2018 (no consolidado o grupo faturou 2,9 bilhões de dólares), tendo um lucro líquido, no mesmo período, de 6,7 milhões de dólares para 308 milhões, com aumento de 20% somente no ano passado. Todo este acúmulo de capital vem de 45 hospitais e mais de 40 clínicas oncológicas – fica claro que a saúde, ou no caso a doença, é algo extremamente lucrativo, principalmente em períodos de crise do sistema, que leva a uma piora das condições de vida da população.

Usando as palavras da mídia burguesa: “O mercado brasileiro de saúde produziu safras bilionárias na última década”, totalmente atrelado ao papel dos governos, já que a legislação brasileira limitava o mercado de saúde a concorrência nacional. Aqui cabe alguns parênteses rápidos, os quais devem ser aprofundados a posteriori: primeiro – desde a constituição do SUS os cuidados a assistência à saúde (que no caso segue um modelo biomédico de tratamento de doenças e nunca voltado a atenção primária que envolve prevenção e promoção da saúde e que, portanto torna a doença uma mercadoria na qual se pode obter lucro) é livre à iniciativa privada, ornando o Estado não responsável por tal e, ainda, deixando em aberto – ainda mais – as condições para privatização da saúde; e, segundo – a alteração, assinada no governo petista de Dilma Rousseff (Lei 13.097 de 2015) que altera a legislação permitindo a participação direta e indireta de capital financeiro estrangeiro na assistência à saúde, tendo, portanto uma política entreguista que agracia as rapinas imperialistas que miravam este flanco de mercado lucrativo, como mostra O Globo em 2016.

Retomando a risada de parágrafos anteriores cabe explicitar – de forma injusta, confesso e me desculpo desde já – o que Lenin, em 1917, analisou e definiu como o desenvolvimento de uma nova fase do sistema capitalista, a fase imperialista. A curto modo, é preciso destacar a formação dos monopólios, que resulta na aniquilação ou absorção de empresas concorrentes, devido a concentração e centralização dos capitais oriundos da cadeia produtiva que dialeticamente leva a exportação deste, em forma de investimentos/compras diretas e/ou exportação direta de produtos, para garantir o domínio de econômico. Apesar da rede D´Or ter um grande poderio econômico (como mostrado anteriormente), decorrente desta impossível competição com outras empresas da área farmacêutica nacional – justamente por sua concentração de capital, não chega aos pés (por assim dizer) dos grandes conglomerados imperialistas da área da saúde. Desta maneira, nos termos abrandados do capitalismo, o plano de investimentos da Rede D´Or, que compreende em um modelo de atendimento centrado em hospitais – em tratamento e não em cura e prevenção obviamente – e na aquisição de ações da administradora de planos de saúde coletivos Qualicorp - grupo empresarial líder brasileiro na comercialização e administração de planos de saúde coletivos, que conta com cerca de 2,4 milhões de pessoas em sua carteira – nada mais é do que a formação de um monopólio da área de saúde. Mas este tal poderio poderia ser competitivo com o capital imperialista?

Mais uma vez, usando das palavras da mídia burguesa: “o futuro será mais complexo, mas a Rede D’Or investe para se antecipar aos problemas”. Mas não explicam o que são problemas e cabe a nós, depois de colocar tudo acima evidenciar e atrelar tudo: os ditos problemas está relacionado justamente com a premiação, já que está faz com que a empresa se destaque, entre tantas, para grandes empresas farmacêuticas dos países imperialistas. Em um momento de políticas cada vez mais entreguistas, que vão desde o governo de Dilma mas aprofundadas pelo governo Bolsonaro, e tendo como foco o lucro e não a saúde da população, ser a “mais mais” garante os interesses da burguesia tanto nacional quanto internacional. Em um momento em que o Brasil vira destaque mundial, ou melhor colocando: um dos palcos de disputas entre os países europeus, os Estados Unidos da América e a China, como ficou evidente com a questão das queimadas da Amazônia, ter um setor no qual pode-se considerar um mercado novo (decorrente da recente abertura, como colocado anteriormente) e que está atrelado ao desenvolvimento tecnológico como é o setor de diagnósticos médicos, no qual não terá mais uma possibilidade de avanço nacional (vide os cortes na educação pelo projeto Future-se ) e no qual as condições de saúde da população serão infinitamente pioradas com a reforma da Previdência, ter uma premiação que coloca nos holofotes uma empresa que cresceu em momentos de crise é abrir ainda mais portas pro imperialismo.

Depois disso tudo colocado fica claro que a mercantilização da saúde nada tem de bom para a população. O real anseio por uma saúde de publica, gratuita e de qualidade vem com a premissa inicial de acabar com este modo operante do sistema capitalista que não vê nenhum problema na “queima” de sua força motriz: a classe trabalhadora. O interesse dos empresários só pode ser o lucro. Eles não estão realmente preocupados com a saúde da população. Por isso é preciso defender o SUS de todos os ataques que vem sofrendo. Lutar pelo não pagamento da dívida pública e a Lei de responsabilidade fiscal, que impedem o financiamento da saúde pública, tem que ser um dos motes da luta pela saúde. Ao mesmo tempo é preciso que todos os Hospitais que foram privatizados, assim como as estruturas dos planos de saúde, sejam estatizados e colocados a serviço da população através de um Sistema Único de Saúde, mas que esteja sob controle dos trabalhadores da saúde com participação dos usuários. Nas UBS e hospitais públicos onde a administração é feita pelas Organizações Sociais de Saúde e os trabalhadores são terceirizados, lutamos pela incorporação imediata desses trabalhadores e que aí também a administração seja feita pelos próprios trabalhadores com participação dos usuários. Somente assim realmente teremos uma saúde pública, gratuita e de qualidade.




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