Política

A reacionária reunião ministerial e suas implicações nas disputas do regime

À explosiva divulgação do vídeo na tarde de ontem, se seguiram 2 comemorações: a primeira daqueles que viram nela as provas materiais do reacionarismo de Bolsonaro; 2) dos bolsonaristas que viram no vídeo um fortalecimento do discurso do presidente. Afinal as revelações fortaleceram ou debilitaram o governo Bolsonaro?

sábado 23 de maio| Edição do dia

A gravação trouxe sim ataques fortes de Bolsonaro e seus asseclas aos demais atores institucionais, com acompanhamento do conhecido repertório reacionário do bolsonarismo, mas no vídeo Bolsonaro, militares e demais ministros exibem as entranhas do que já é de conhecimento público. Já a prova do crime de responsabilidade de Bolsonaro, a interferência na PF, apesar de presente, não se mostra uma evidência cabal capaz de obrigar com que o procurador geral Aras abra caminho para o processo de impeachment. Tanto é que a própria Advocacia Geral da União já havia se antecipado e liberado o conteúdo citado por Moro. Assim desde a última semana Bolsonaro e sua defesa trataram de desviar a trajetória da bala, alegando que o conteúdo se tratava da troca da segurança pessoal dos filhos, demonstrando a ausência de uma prova cabal.

Mais do que essa prova, o principal destaque do vídeo é o reacionário conteúdo com que Bolsonaro e os ministros atacam o STF, governadores e parlamentares. Weintraub, por exemplo, ataca os povos indígenas e declara que por ele todos esses vagabundos seriam presos a começar dos ministros do STF. Damares não poderia deixar de levantar sua bandeira da restrição absoluta do aborto e também fazer coro com Weintraub pedindo a prisão de prefeitos e governadores. Enfim, caberia citar aqui ainda um vasto repertório capaz de embrulhar o estômago mesmo dos mais resistentes, e que dissecamos em uma série de artigos aqui.

Essas revelações veem um dia após a reunião de Bolsonaro junto aos presidentes do Congresso - Maia e Alcolumbre - e os governadores. Uma reunião marcada pelo clima de pacificação, concretizada no acordo ao plano de socorro aos estados e de fundo uma aliança para garantir a abertura das quarentenas pressionada pelo empresariado.

Essa coincidência entre o movimento de pacto de Bolsonaro e governadores e a divulgação da íntegra do vídeo por Celso de Mello, que conhecia cada ataque e ator mencionado na gravação e apenas ponderava o momento e o quanto do vídeo revelar, mostra uma tentativa de atuar sob o emergente pacto, buscando reembaralhar as cartas. Essas implicações ainda estão em aberto. Mas os governadores, Maia e Alcolumbre já sabiam parcialmente do conteúdo da reunião quando aceitaram manter as aparências junto a Bolsonaro em seu encontro da véspera, assim como Maia e Alcolumbre. Os empresários, tirando pelo resultado da bolsa que fechou em alta, deram de ombros para o reacionarismo demonstrado no vídeo, achando pouco. Mais uma mostra do estômago resistente dos atores institucionais, nos quais Bolsonaro segue encontrando apoio.

No marco mais conjuntural da crise, essas são as certezas que despontam: militares, cada vez mais fortalecidos e fechados com Bolsonaro; e o STF polarizando com os militares pelo posto de árbitro. No mesmo dia da divulgação na íntegra do vídeo, Celso de Mello acolheu e encaminhou a PGR três notícias-crime de partidos da oposição que, entre outras providências, pediam a apreensão do celular do presidente. Diante do mero cenário da apreensão do celular de Bolsonaro, o general e ministro palaciano Heleno (GSI) saiu com uma nota explosiva ameaçando que tais atitudes poderiam “ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”. Bolsonaro também disse que não entregaria seu celular em hipótese nenhuma, o que provocou a rápida resposta de Celso de Mello de que isso se configuraria em crime de responsabilidade.

Ainda é cedo para afirmar como se reposiciona cada ator do regime, mas de cada um dos lados, seja dos militares, seja do STF, vemos a intensificação dos métodos bonapartistas. Uma disputa que coloca os militares mais fechados com Bolsonaro do que nunca, uma conclusão que aparece do próprio vídeo como os ministros militares partilham dos mesmo valores de Weintraub e Damares, ou como Braga Neto é quem conduz a reunião, mediando e interrompendo os demais ministros. Enfim, a reunião diz mais sobre a altura da lama em que se afundou o regime brasileiro em permanente degradação do que os impactos dessa divulgação na atual conjuntura, que estão ainda em aberto.




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