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SEMANÁRIO

A questão negra nas internacionais operárias e comunistas

Letícia Parks

Ilustração: Amanda Cinti

A questão negra nas internacionais operárias e comunistas

Letícia Parks

Certa vez ouvi uma entrevista feita por André Acier ao intelectual marxista Kevin Anderson, disponível no canal Ideias de Esquerda. Quando é perguntado sobre o que opina em relação aos que dizem que Marx era racista ou que sustentava um pensamento eurocêntrico, Anderson ri. A gargalhada que toma conta do autor de Marx nas Margens é justificada por toda a pesquisa e evidências registradas em seu livro, que mostram um Marx ávido pelos processos de luta de classes em distintos países da periferia do capitalismo. Da Índia aos Estados Unidos, os escritos de Marx deixam claro uma obsessão que dá um novo significado a sua máxima “trabalhadores do mundo uni-vos”, apoiada numa experiência que poderia ser chamada de uma espécie de fenômeno black lives matter do século XIX e que abre alas para a formação da I internacional.

As posições de Marx frente à luta negra internacional

Na década de 1850, Marx era correspondente de um jornal democrata dos Estados Unidos, o The New York Tribune. Para esse jornal ele escreveu muito sobre sociedades não ocidentais. Na verdade, escreveu sobre todas as partes do mundo: América Latina, Europa Europa oriental como a Rússia, África, norte da África, Índia e China, com especial atenção à Guerra Civil Norte Americana.

Marx estava pensando de forma radical o mundo além da Europa, a questão racial e a abolição da escravidão. E para ele não se tratava do desenvolvimento de um capitalismo igual ao europeu, mas a possibilidade de que esses eventos inflamarem e fortalecerem os operários europeus e suas revoluções.

Para Marx a Guerra Civil nos Estados Unidos (1861-1865) foi uma das principais batalhas pela emancipação humana do século XIX. Isso porque mobilizou trabalhadores brancos nos Estados Unidos e na Europa, especialmente Inglaterra e França, a se posicionarem contra a escravidão. Não somente, em 1867, no prefácio d’O Capital, ele afirmou que a Guerra Civil era uma antecipação das revoluções socialistas do porvir. Para Marx o apoio à causa da libertação era um teste de fogo para a esquerda europeia. Logo voltaremos nisso.

Com os olhos nessa “força moral”, nos termos do que Clausewitz vai analisar a guerra, Marx foi crítico, junto a outros abolicionistas radicais, às vacilações de Abraham Lincoln, que apenas tardiamente associou definitivamente a vitória do norte à abolição da escravidão. Lincoln só inclui no programa dois anos após o início da guerra e mesmo com as crises que essa proclamação causa na direção burguesa da União, é com ela que a guerra sofre uma verdadeira inflexão a favor de uma vitória do norte, dada a enorme participação negra na guerra mobilizada pela luta por liberdade.

Milhares de escravizados fugitivos das fazendas do sul se juntavam ao campo de batalha. Como consequência, 200 mil negros foram alistados no exército e na marinha da União. Tal processo enfraqueceu a máquina de guerra dos Confederados.

Foi nesse período da Guerra Civil que começou a surgir na Europa um movimento radical de apoio à União, que vai ser euforicamente apoiado por Marx e Engels, que vão combater as direções reformistas adaptadas a uma consciência mais nacionalista que também tinha seu peso dentro do movimento operário. Para Marx, A Guerra Civil deveria ser conduzida de forma revolucionária, e buscava mostrar isso aos trabalhadores contra suas direções, e para isso, era muito importante para ele o posicionamento do movimento operário na Europa. Na Inglaterra a burguesia fazia uma forte campanha contra o Norte. Os culpava pela perda de empregos na Inglaterra devido ao impacto da guerra nos negócios ingleses, especialmente na escassez de algodão para a indústria têxtil, e buscava incidir nas massas um rechaço à luta abolicionista e negra. As direções reformistas do movimento operário se adaptavam a essa sentimento, clamando apenas o fim da guerra, independente do destino das massas negras. A questão internacional já ali separava os revolucionários dos reformistas. Marx e Engels, inauguram as bases do movimento revolucionário com sua confiança nos milhares de trabalhadores que pela Europa apoiavam a luta por liberdade para desenvolver a Associação Internacional dos Trabalhadores.

A importância do movimento de apoio na Inglaterra ao Norte e ao abolicionismo contra o Sul escravista para a fundação da Primeira Internacional em 1864 é algo que nem sempre é muito discutido. Tanto na Inglaterra de Palmerston quanto na França de Luís Bonaparte, as burguesias tinham interesse em intervir na guerra e tendiam mais ao apoio ao Sul. A primeira batalha da AIT vai ser dos trabalhadores que se opuseram fortemente a essa possibilidade criando um forte movimento pela vitória do norte fundamentada no apoio à luta negra por liberdade. Marx se envolveu muito com os ativistas que haviam organizado encontro pró-União durante a Guerra Civil e eles foram protagonistas na fundação da Primeira Internacional.

No Discurso inaugural da AI, fundada em 28 de setembro de 1864 em Londres, Marx considerou o apoio operário ao norte decisivo:

não foi a sabedoria das classes dominantes, mas a heroica resistência ao seu delírio criminoso por parte das classes trabalhadoras da Inglaterra que salvou o Ocidente da Europa mergulhar de cabeça em uma cruzada infame pela perpetuação da escravidão do outro lado do atlântico. (MECW, v.41, p.561)

Ou seja, a burguesia britânica não estava interessada em acabar com a escravidão por que era bom para os negócios. A escravidão acabou graças a luta dos próprios escravizados na Revolução Haitiana, seu papel na guerra civil americana e a solidariedade da luta de classes internacional.

Não é por acaso, portanto, que nas Regras Provisórias da Internacional definiram que “todos os indivíduos e sociedades que aderissem a ela” deveriam regular sua conduta em relação ao outro, e em relação a todas as pessoas, sem importar a cor, o credo ou a nacionalidade.

O envolvimento de Marx com a Guerra Civil Americana foi fundamental na construção de uma máxima que aparece 1867 em O Capital: “O trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele negra é marcado a ferro" [1].

O efeito dessa política e a característica da “largada” da I Internacional fizeram dela a ‘casa’ de muitos negros estadunidenses que lutaram pela liberdade, como nos conta Charles Holm no texto Negros Radicais: da AIT à Quarta Internacional, 1864-1948 [2]

A AIT, certamente em função de seu direcionamento aos estadunidenses durante e depois da Guerra Civil, ganhou uma adesão significante nos EUA durante esse período. Em Nova Iorque pode até ter ganho o apoio de uma milícia negra, mas nunca estabeleceu uma organização filiada no sul. Blackburn argumenta que enquanto um pequeno número de “trabalhadores negros do sul tendiam a se juntar” [3] ao movimento pelas oito horas de jornada (um movimento que Marx viu emergir da “morte da escravidão”, como mencionamos antes), a jornada de trabalho no sul continuou relativamente igual, e “os diferentes problemas dos trabalhadores no norte e no sul tornou mais difícil promover uma aliança entre eles” [4].

Ou seja, a AIT não apenas atuou durante a Guerra Civil se alinhando com o anseio por liberdade das massas negras, mas se tornou a organização na qual se filiavam de norte a sul distintas franjas do proletariado negro pós abolição, ainda que com mais dificuldades no Sul. O trabalho posterior à Guerra, entretanto, dizia respeito a, parafraseando Marx, levar a revolução adiante, avançando contra os capitalistas do norte aonde eles iam parar: nos direitos trabalhistas. Segue o autor acima referido mostrando como a influência da AIT sobre as massas negras se desfaz à medida em que se adapta à Reconstrução no molde do projeto burguês de país protagonizado pela direção dos exércitos da União, que além de profundamente explorador, buscou neutralizar a enorme moral conquistada pelos setores negros do exército - que sabiam que eram responsáveis pela vitória da União - com medidas de restrição de direitos políticos.

A II Internacional, o apoio à guerra e o adeus às massas negras

A I Internacional, a AIT da qual falamos no bloco anterior, apesar de ser pioneira no internacionalismo e ser fundada no calor da luta negra por liberdade - e do apoio do operariado europeu a ela - teve um problema importante que impediu que pudesse se manter ao longo do século XIX. Reunia dentro de si vertentes políticas que divergiam em torno de uma questão estratégica importantíssima: a necessidade ou não da tomada do poder para chegar ao comunismo. Enquanto anarquistas opinavam que não era preciso tomar o poder, os socialistas perceberam com a experiência da Comuna de Paris que é impossível que dois poderes - o operário e o burguês - convivam paralelamente na mesma sociedade. Dessa conclusão, os comunistas que acreditavam na necessidade de tomar o Estado das mãos da burguesia e sobre as ruínas dele construir um Estado socialista - que tendesse a dissolução no marco da superação da sociedade de classes - fundam a II Internacional em 1889, também chamada de Internacional Socialista ou Internacional Operária.

A II Internacional foi o partido internacional dos grandes Partidos Social Democratas da viragem do séc. XIX para XX, reuniu milhões sob suas bandeiras e teve dentro dela nomes importantes do marxismo revolucionário como Rosa Luxemburgo e Lênin. Esses mesmos revolucionários rompem da II Internacional a partir de um debate crucial e que tem tudo a ver com a questão negra. Vejamos o que diz Lênin, que rompe em Setembro de 1914:

A Segunda Internacional existiu de 1889 a 1914, até a guerra. Este foi o período de desenvolvimento mais calmo e pacífico do capitalismo, um período sem grandes revoluções. Durante este período, o movimento operário ganhou força e amadureceu em vários países. Mas os líderes operários da maioria dos partidos se acostumaram a condições pacíficas e perderam a capacidade de travar uma luta revolucionária. Quando, em 1914, começou a guerra, que encharcou a terra de sangue por quatro anos, a guerra dos capitalistas pela divisão dos lucros, a guerra pela supremacia sobre nações pequenas e fracas, esses líderes desertaram para o lado de seus respectivos governos. Eles traíram os trabalhadores, ajudaram a prolongar a matança, tornaram-se inimigos do socialismo, passaram para o lado dos capitalistas.
As massas operárias deram as costas a esses traidores do socialismo. Em todo o mundo houve uma virada para a luta revolucionária. A guerra provou que o capitalismo estava condenado. Um novo sistema está chegando para tomar seu lugar. A velha palavra socialismo foi profanada pelos traidores do socialismo. [5]

Com opiniões parecidas, Rosa Luxemburgo também denunciou em seu artigo Reconstruindo a Internacional, o papel traidor que a II Internacional passou a cumprir à medida em que, em primeiro lugar, decidiu não se pronunciar sobre a guerra mundial que se instalava, e, depois, passou a assinar os créditos de guerra através de seus parlamentares alemães da Social Democracia Alemã. Tanto a primeira quanto a segunda posição denunciadas por Luxemburgo são uma revisão do marxismo que vimos em funcionamento no apoio às massas negras nos EUA. A visão de Marx nunca foi se silenciar sobre a guerra, como em um determinado momento propôs Kautsky. A luta na década de 1860 era conseguir transformar esse conflito entre a burguesia em uma guerra entre as classes, começando pelo apoio à abolição da escravidão e depois indo adiante onde a burguesia vitoriosa queria parar. Depois, ao apoiar o governo alemão na guerra, Kautsky junto com outros dirigentes dos partidos social democratas assimilou como tarefa dos proletariados nacionais garantir a vitória de suas burguesias na guerra contra outros povos.

É possível imaginar o que isso significava pras massas negras, que no discurso de Lênin eram justamente as que viviam nas “nações pequenas e fracas” onde as grandes nações imperialistas batalharam pela sua supremacia. Não havia qualquer sentido anticolonial ou antirracista em apoiar a Alemanha na guerra, ou qualquer outro governo de qualquer país burguês. De 1870 a 1900 a questão anticolonial ganhou proporções ainda mais urgentes. Nesse momento, as nações imperialistas europeias teriam avançado sobre regiões ainda não ocupadas em África, chegando a colonizar cerca de 90% do continente, dividido entre França, Portugal, Espanha, Bélgica, Alemanha e Itália. A colonização avançaria nesse momento também sobre Taiwan e Coreias pelo Japão, Indonésia pela França, e os EUA da reconstrução conquistariam controle sobre a América Central . Esse processo, ao que Lênin batizou de imperialismo, fase superior do capitalismo, celebrou a fase determinantemente reacionária da burguesia monopolista, tomando controle de cada espaço do globo a serviço do lucro de capitalistas do norte global.

Nos EUA, o avanço do projeto de país do norte significou no sul o aumento dos linchamentos e dos assassinatos, e em comum acordo entre Republicanos e Democratas, nada era feito para impedir essa tragédia. A ordem do dia era fortalecer os grilhões ideológicos em torno das massas negras para impedir qualquer movimento reivindicativo encorajado pela vitória na guerra. O apoio à guerra imperialista significava, sem nenhum exagero, o apoio à invasão assassina de mais povos, à disputa por regiões conquistadas, impedindo que as massas europeias pudessem, mais uma vez, se posicionar ao lado dos colonizados e racializados nas suas lutas por independência e liberdade, que nesse mesmo momento não eram poucas. Dentro dos EUA, onde a AIT tinha adquirido alguma autoridade entre as massas negras fruto da sua intervenção na Guerra Civil, agora os social democratas estavam totalmente desmoralizados. Era impossível confiar nos que apoiavam uma burguesia e governos que promoviam tamanho massacre.

A II Internacional tinha se mundializado como a AIT jamais sonhou ser possível, já que o avanço da colonização e a divisão do planeta entre zonas de influência do capitalismo imperialista significou também a formação de enormes pelotões operários em países que até então haviam experimentado pouca ou nenhuma industrialização. Onde chegava o imperialismo se formava instantaneamente uma classe operária numerosa, com mais conhecimento técnico e mais relação com a produção do que a sua burguesia nacional. Se filiavam aos partidos social democratas, internacionalizavam a II Internacional e, frente à guerra e a subordinação ao controle do governo sobre o movimento operário, se desmoralizavam com seus próprios partidos. Um caso em particular é simbólico da crise instalada nas fileiras da II Internacional. Dois militantes do Partido Socialista Americano, Harrison e Haywood, vinham de um combate pelo direito à sindicalização de trabalhadores negros, por hora proibida na central sindical dirigida pelo PS, a AFL (American Federation of Labor). Na luta por igualdade sindical, os membros do PS elogiam a prática igualitária da outra central sindical concorrente, a IWW, que permitia a filiação de negros e tinha uma política mais abertamente revolucionária, ou seja, que não separava a ação dos sindicatos da ação política, diferente da linha geral para os sindicatos da II Internacional, que era uma derivação de sua linha de adaptação aos governos burgueses.

Na linha sobre a guerra, assim como na forma como tratou a questão sindical, a Segunda Internacional deu adeus às massas negras. Poucos anos depois de fundar a III Internacional, para a qual migram os mesmos revolucionários que criticaram a Segunda por tudo isso, esses mesmos revolucionários dos quais falamos antes se voltam ao debate sobre a questão negra e formulam uma carta programática internacional com os seguintes pontos, entre outros:

1) Durante e após a guerra, um movimento revolucionário começou a se desenvolver entre os povos colonizados e semi colonizados e este movimento ainda está desafiando com sucesso a dominação do capital mundial. Portanto, se o capitalismo deve continuar, ele deve chegar a um acordo com o problema cada vez mais difícil de como intensificar sua colonização nas regiões habitadas por negros. O capitalismo francês reconhece claramente com a guerra que o poder do imperialismo francês só pode ser mantido com a criação de um império franco-africano, unido por um Trans Ferrovia do Saara. Magnatas das finanças americanas (que já exploram doze milhões de negros em seu próprio país) começaram uma invasão pacífica da África. A Grã-Bretanha, por sua vez, teme qualquer ameaça à sua posição na África, fato claramente demonstrado pelas medidas extremas que foram tomadas para suprimir as rebeliões na África do Sul. Embora a competição entre as potências imperialistas no Pacífico transformou-se na ameaça de uma nova guerra mundial, a rivalidade imperialista na África também está desempenhando um papel cada vez mais sinistro. Finalmente, a guerra, a revolução russa, e a poderosa rebelião anti-imperialista entre os povos asiáticos e muçulmanos despertou o consciência de milhões de negros que durante séculos foram oprimidos e humilhados pelo capitalismo, em África, e provavelmente em um grau ainda maior na América.

(...)

6 i) O Quarto Congresso considera essencial apoiar todas as formas do movimento negro que visem minar ou enfraquecer o capitalismo e o imperialismo ou impedir sua expansão futura.
ii) A Internacional Comunista lutará pela igualdade racial de negros e brancos, por salários iguais e iguais direitos sociais e políticos.
iii) A Internacional Comunista fará todo o possível para forçar os sindicatos a admitir trabalhadores negros em qualquer lugar onde a admissão é legal e exigirá uma campanha especial para atingir esse fim onde não é. Onde isso não for possível, ajudaremos a organizar os negros em seus próprios sindicatos e, em seguida, fazer uso especial da tática da frente única para forçar o sindicatos a admiti-los.

Os primeiros anos da III Internacional e a massificação do comunismo negro

O conjunto da leitura das teses do IV Congresso da III Internacional provocam arrepios. Em 1922, em reação à direitização da Segunda, os revolucionários que dirigiram a Revolução Russa, que reagiram ao conservadorismo sindical nos EUA e que ansiavam por uma política independente da burguesia nas colônias e semicolônias dirigem-se de forma decidida às massas negras com um claro chamado a que se tornassem vanguarda da revolução mundial.

Como explica Matt William no seu artigo Quando o Comunismo Ficou Negro, publicado na Review of African Political Economy, a questão colonial e dos povos oprimidos para a III Internacional era vital:

Essa formulação estava enraizada em um acordo entre os membros do Comintern de que o controle imperialista era fundamental para a sobrevivência e o crescimento do capitalismo nas metrópoles. Assim, as principais potências capitalistas da Europa (assim como os Estados Unidos) poderiam entrar em crise não apenas por movimentos revolucionários “em casa”, mas também por lutas anticoloniais dentro de seus impérios. Nos quinze anos seguintes, essa perspectiva forneceu a base para o envolvimento da liderança do Comintern com o ativismo pan-africano. [6]

Até a III Internacional, a organização de partidos anticapitalistas na África restringia-se à Liga Internacional Socialista da África do Sul e um pouco mais tardiamente, em 1920, o Partido Comunista do Egito. Mas a Revolução Russa e sua elaboração vívida de um combate anticolonial, além dos esforços da III Internacional em se dirigir às massas negras passou a chamar a atenção de intelectuais e ativistas negros no continente. William explica o motivo da atração:

A Comintern reivindicava a completa independência da África - uma posição levantada apenas por dois outras organizações internacionais naquele momento: O Congresso Pan-Africano de W.E.B Du Bois e A Associação pela Melhoria das Pessoas Negras, o UNIA, de Marcus Garvey. Os dirigentes da Comintern dividiam a visão Pan-Africana dessas organizações, incluindo uma leitura de que o destino das lutas para libertar a África do domínio colonial estava integralmente conectado ao destino das lutas contra o capitalismo nos países imperialistas.

A III Internacional, a partir daí, passou a levantar medidas inéditas na luta negra, como os congressos internacionais sobre a questão negra, publicações internacionais traduzidas a diversos idiomas, além da política de uma sindical internacional de trabalhadores negros, que na África do Sul ganhou uma enorme influência e levou ao surgimento de diversos sindicatos negros dirigidos por T.W. Thibedi, Johnny Gomas, e Hamilton Kraai.

Dando passos adiante buscando o melhor do passado

A III Internacional mantém seu conteúdo revolucionário por alguns anos até que algumas ações atacam o seio das concepções que dão base a um combate antirracista e anticolonial. Como se sabe, após a morte do Lênin e frente às enormes dificuldades de avançar a Revolução Russa sem uma sequência de revoluções em outros países, a URSS começa a se burocratizar.

Algumas medidas de burocratização do Estado Operário são mais conhecidas, aqui nos concentramos nas que se relacionam diretamente com a questão negra. Em 1935, já completando 10 anos à frente do Estado, Stálin propõe que a Constituição fosse revista. Além do Congresso dos Sovietes ter sido dissolvido - uma medida de centralização do poder e de abandono do controle operário do Estado - é abolido o direito à autodeterminação dos povos de nacionalidades historicamente oprimidas na região ocupada pela URSS, que vinham de serem colonizadas pelo Império Czarista. A visão de Lênin, expressa nas Constituintes anteriores, é de que esses povos devem decidir seu destino de forma autônoma, seja para se filiar à URSS seja para construir seu próprio Estado. Esse direito à autodeterminação foi crucial para desenvolver as consignas programáticas para o povo negro, no sentido de que dão as bases para o reconhecimento do direito a determinar seu destino de forma independente, mesmo que seja para fundar seu Estado separado.

Ao mesmo tempo outra revisão produzida por Stálin vai ser a origem de rupturas de milhares de negros dos partidos comunistas em todo o mundo. Defendendo que a Rússia era um caso especial de revolução socialista em um país economicamente atrasado, Stálin vai defender que haviam países maduros e imaturos para a revolução socialista, sendo maduros os que já tivessem alcançado um desenvolvimento econômico capitalista avançado. A teoria descrita é o etapismo, que faz com que nas colônias e semicolônias a única política possível para os partidos comunistas fosse se submeter à direção política das burguesias nacionais e aceitar a localização de massa de manobra para a realização de revoluções burguesas. Apenas na África do Sul, essa linha traidora leva a ruptura de importantes setores do PC, como T. W. Thibedi, que já mencionamos anteriormente, junto de uma legião de revolucionários negros que junto dele assinam uma carta com interesse em se filiar à Oposição de Esquerda, que dirigida por Leon Trótski, buscava nesse momento organizar setores da III Internacional que rechaçavam a inação proposta por Stálin aos partidos comunistas, que não se restringia apenas aos países colonizados.

Nos países imperialistas, a ruptura de negras e negros e a adesão à Oposição de Esquerda se deu também, mas por outras razões. Com a proximidade da guerra e beirando 1939, Stálin mantém um acordo de paz com Churchill e os demais governos “democratas” de evitar a extensão da revolução desde que esses não aproveitassem a ameaça fascista para entrar na URSS. Além de provocar a morte de cerca de 20 milhões de soviéticos pelo compromisso de não pegar em armas contra Hitler, os comunistas que atuavam dentro dos países imperialistas foram forçados a se submeter à direção política dos governos capitalistas, paralisando qualquer ação operária independente que instabilizasse esses governos. Nos EUA dos linchamentos e da segregação racial, isso significava um golpe de morte na luta contra o racismo, e levou a que seções regionais inteiras se desfiliassem do PC. Como explica Julia Wallace:

Em Moscou, a burocracia stalinista - em cumplicidade com a liderança dos EUA - forçou os membros do PCUSA a parar de se organizar dentro do movimento de libertação negra sob o argumento de que, ao aparecer perante as massas como uma organização negra, o partido estava se afastando dos trabalhadores brancos. O abandono por parte do PCUSA de uma orientação decisiva em direção ao movimento de libertação negra se correlacionou com seu apoio ao New Deal e sua subordinação à burocracia trabalhista emergente.

A consequência imediata da virada da frente popular do Partido Comunista foi aliar-se aos democratas liberais do Sul e às organizações reformistas do movimento operário. Embora o Partido Comunista continuasse a pressionar pela organização inter-racial dos sindicatos, ele o fez abandonando o princípio da independência de classe e, portanto, abandonando as raízes revolucionárias dos primeiros anos [da Internacional Comunista]. [7]

Nenhuma dessas revisões ocorreu sem duros combates. De dentro do PCUSA foram expulsos militantes por acusação de ‘trotskismo’, justamente porque eram esses os que contra esse ‘retorno’ ao que houve de mais atrasado na II Internacional, reivindicavam tirar as lições do que Trótski vinha chamando de teoria da revolução permanente, que não só apresentava uma visão de um caminho revolucionário para todos os países em qualquer nível de desenvolvimento capitalista, como buscava através dessa teoria também recuperar os fios de continuidade de um marxismo que já vimos, no começo desse artigo, no próprio Marx, ou seja, que fosse internacionalista, antirracista, anticolonialista e que visse apenas na classe trabalhadora organizada a possibilidade de enfrentar qualquer tipo de atraso político ou econômico existente em qualquer sociedade.

Dessa e outras sínteses, ligadas ao papel reacionário que passava a cumprir a III Internacional, vai surgir em 1938, apoiada no Programa de Transição de Trótski, a IV Internacional, a qual se filiam T. W. Thibedi, seus companheiros da África do Sul e também de onde vão surgir alguns dos principais nomes negros do marxismo revolucionário posterior, militantes trotskistas da Quarta Internacional, como foi o caso de CLR James.

Para os tempos de hoje, frente à crise orgânica do capitalismo e os efeitos dela na vida da classe trabalhadora, efeitos esses sentidos em maior intensidade pelas massas negras, recuperar o marxismo como ferramenta significa associar-se aos pontos mais avançados de programa que já se produziram para enfrentar o racismo, produzidos pelos marxistas dos primeiros anos da III Internacional e pelos corajosos revolucionários antiburocráticos da IV, que com essa internacional fizeram a mais brilhante defesa do marxismo revolucionário e do melhor legado da internacional anterior, destruídos pela burocracia stalinista, que rumou no caminho contrário da Revolução, buscando construir traições e reformas. Em nosso tempo dar continuidade às melhores lições dessa tradição significa se separar dessa revisão grotesca do marxismo, retomando os fios de continuidade uma política revolucionária para as massas negras, que viveram em Engels, em Marx e nos primeiros anos da III Internacional e que tem hoje sua continuidade na batalha pela reconstrução da IV Internacional.

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FOOTNOTES

[1Karl Marx, (O capital, Livro I, p.372).

[2No original, em inglês, Black Radicals and Marxist Internationalism: from IWMA to the Fourth International, 1864-1948. Artigo não disponibilizado em português.

[3Blackburn, Unfinished Revolution, 72.

[4Fernbach, introduction to First International and After, 20-29.

[5The Third, Communist International, discurso de Lênin em março de 1919, disponível em Collected Works, 4ª edição em inglês, Progress Publishers, Moscow, 1972 Volume 29, pages 240-241.

[6When Communism Became Black, no original em inglês. Não está disponível em português, pode ser acessado aqui: https://www.rosalux.de/en/news/id/40161/when-communism-became-black e foi publicado originalmente na Review of African Political Economy.

[7Black Liberation and the Early Communist Movement, Julia Wallace, em Left Voice, 9 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://www.leftvoice.org/black-liberation-and-the-early-communist-movement/.
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Letícia Parks

do Quilombo Vermelho
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