SAÚDE MENTAL

A psiquiatria como um negócio e as pílulas tóxicas

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 3 de outubro| Edição do dia

O dr Allen Frances é um dos autores do mais importante manual [de classificação de doenças mentais, o DSM] da psiquiatria e uma autoridade mundial na área. Já faz algum tempo, ele vem denunciando os perigos do uso de antipsicóticos e também de benzodiazepínicos em geral.

Os benzodiazepínicos [tipo Diazepan, Rivotril, Lexotam, Frontal, Valium, Dormonid, Rohypnol, Librium, Lorax, Olcadil etc etc] para além de sua variedade, todos eles provocam efeitos colaterais. Se você procura se informar, ou pela leitura da bula ou através da conversa com algum médico mais bem intencionado, vai se dar conta de que tais benzodiazepínicos provocam coisas do tipo percepção alterada de si e das relações sociais, perda do desejo sexual, fobia social, incapacidade de expressar emoções, depressão maior e uma longa lista.

Mas o problema é muitíssimo mais sério, na opinião do dr Allen Frances.

Em entrevista recente, o autor do livro "Somos todos enfermos mentales? Manifiesto contra los abusos de la psiquiatria", 2014, expressou opiniões que não apenas dão o que pensar como também merecem ser levadas ao debate público, especialmente na esfera dos trabalhadores da saúde e dos usuários dessas drogas.

Chamando a atenção para o fato de que os benzodiazepínicos se converteram no medicamento mais receitado dos Estados Unidos, e que tais drogas sempre estão reaparecendo com novos rótulos e combinações químicas, ele questiona pela raiz seu uso, à exceção de raras ocasiões. E considera “particularmente perturbador que o uso de benzodiazepínicos seja estupidamente alto nos idosos, o grupo que mais pode ser afetado. E é duas vezes mais provável que seja receitado a uma mulher que a um homem”.

Popularidade dos benzodiazepínicos

“Na minha opinião – diz o dr Frances – todas as indicações legítimas para os benzodiazepínicos devem ser muito de curto prazo. De toda forma, na vida real, a maioria das pessoas as toma durante longos períodos e em doses viciantes; e por motivos equivocados.

A popularidade dos benzodiazepínicos radica em sua capacidade de reduzir rapidamente a ansiedade, as preocupações. Também ajudam as pessoas a relaxar e aliviam a ansiedade social. Quase como beber álcool, só que na conveniente forma de um comprimido.

Os médicos gostam de receitar benzodiazepínico porque é a forma mais eficiente e rápida de se livrar de um paciente incômodo: o paciente fica satisfeito no momento, mas muitos vão desenvolver um vício devastador. As pessoas gostam de tomá-los, mas uma vez que ficam envolvidas não podem parar. Em resumo, os benzodiazepínicos são muito fáceis de começar a tomar, mas é quase impossível parar de toma-los”.

Os danos de um tóxico prescrito diariamente

E o problema não estaria apenas nessa dificuldade do desmame, nem no vício devastador. Tais medicamentos comprometem a saúde do ser humano de três formas mais.

“Os benzodiazepínicos danificam as pessoas de três formas. A mais dramática é a sobredose mortal. Entre 1996 e 2013, a taxa de mortes por sobredose de benzodiazepínico cresceu mais de 500%, de 0,58 a cada 100 mil pessoas para 3 a cada 100 mil. Os benzodiazepínicos estão envolvidos em mais de 30% das mortes por overdose, em geral combinadas com opiáceos e álcool.

Segundo, na lista de danos temos os dolorosos e perigosos sintomas de abstinência, que no geral são aterradores e se estendem por demasiado tempo. A ansiedade e o pânico que as pessoas sentem quando deixam de usar benzodiazepínico são geralmente muito piores que a ansiedade e o pânico que os levou a tomá-las no início. Outros sintomas comuns são a irritabilidade, a insônia, tremores, falta de atenção, sudorese e confusão. Levado ao extremo, se a dose foi alta e tomada muito rapidamente, os sintomas lembram o delirium tremens com suas alucinações, psicose, ataques e risco de morte. Deixar os benzodiazepínicos é muito mais difícil se, como pode acontecer, a dependência dessa droga está complicada pelo uso concomitante de álcool, opiáceos ou outras drogas. A maioria das pessoas fracassam em suas tentativas de deixar de tomar benzodiazepínico. Os melhores processos para abandoná-lo são graduais e duram muitos meses e o acompanhamento médico é fundamental.

Terceiro risco, mas igualmente muito perigoso, são os impactos sobre o funcionamento cerebral no dia a dia. Um uso prolongado pode ser devastador, especialmente nos idosos. Se estamos diante de um paciente velho que parece dopado, confuso, com perda de memória, discurso errático e equilíbrio afetado, a primeira coisa que deve pensar é nos efeitos colaterais dos benzodiazepínicos, não em demência ou mal de Alzheimer. Muitos pacientes de idade começam sua espiral descendente para a morte depois de uma prescrição de benzodiazepínico após uma fratura de quadril, golpes ou hematomas subdurais [coleções de sangue na parte exterior do cérebro]”.

E não há como saber se um paciente vai ou não ficar viciado no benzodiazepínico.

“Só existe uma forma de evitar o vício nos benzodiazepínicos: não tomá-los. Nunca. Uma vez que não podemos prever quem eventualmente vai ficar dependente, as vantagens imediatas nunca valem os riscos a longo prazo.

Passaram-se mais de trinta anos desde a última vez que receitei benzodiazepínico para a ansiedade. Desde meu ponto de vista, o único uso psiquiátrico legítimo é o alívio da catatonia, ou em casos de agitação severa e em tratamentos de desintoxicação de benzodiazepínico. Para todas as demais situações, os riscos de provocar dependência superam os potenciais benefícios de usá-los”.

E quem já está em uso desse veneno?

Perguntado sobre o que fazer, o dr Frances responde:

“De todas as formas, e uma vez que os sintomas de abstinência podem ser severos e perigosos, os pacientes que já estão em uso de benzodiazepínicos em doses significativas e regularmente, não deveriam deixar de fazê-lo ou tentar reduzir suas doses sem supervisão médica.

A questão mais difícil é o quê recomendar para todos os desafortunados que já sofrem da tirania da dependência em relação aos benzodiazepínicos. Deveriam seguir com a mesma dose para evitar os rigores e riscos da abstinência ou deveriam fazer o grande esforço da desintoxicação? É uma decisão individual que ninguém pode ser forçado a fazer. Mas quanto mais tempo se toma o benzodiazepínico, mais difícil é parar e os efeitos colaterais cognitivos criam mais e mais disfunções neurológicas à medida em que o cérebro envelhece. A melhor aposta é se apegar a um esforço sério de desintoxicação sob supervisão médica. Como uma nota de esperança devo dizer que algumas das pessoas mais felizes que conheço são aquelas que superaram sua dependência dos benzodiazepínicos”.

Para todos os que se interessam pelo tema com seriedade e com preocupação humana – e não apenas pragmaticamente, rotineiramente – tem toda importância conhecer não apenas a entrevista do dr Frances mas também suas publicações e vídeos no youtube, e também outros autores como Peter Gotzsche, Joel Elizur e tantos outros profissionais ou estudiosos da área que há um bom tempo vêm denunciado o efeito devastador da psiquiatria sobre a saúde humana.

Aproveitando-se da fragilidade humana nessa área da subjetividade, com todas as perturbações produto das relações sociais no capitalismo, essa corporação tem demonstrado pouca atenção para o os efeitos clínicos e o sofrimento humano derivado do uso daqueles venenos.

Convertida – como de resto toda a medicina de ponta – em um grande negócio, essa área vem abusando dos seus poderes autocráticos para seguir adiante manejando a saúde e a subjetividade humana na base da medicalização, uma opção duvidosa e perigosa de acordo com as denúncias de profissionais como o dr. Frances e outros.

Esse debate tem que ser levado adiante no nosso país, por mais que a própria corporação psiquiátrica e os conselhos de medicina não tomem a iniciativa séria e democrática de debater publicamente o assunto. Entendamos que não se trata de um problema do uso de venenos na psiquiatria apenas, mas sim em grande escala, em escala social, em toda esfera onde a indústria obedece ao capital, desde os aditivos alimentares aos agrotóxicos, passando pela “mãe de todos os tóxicos”: a desigualdade social e a falta de oportunidades para uma vida plena, flagelo capitalista que termina formatando as relações sociais no nosso tempo.

Você pode se interessar pelo vídeo do dr Frances:




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