Economia

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A política econômica do Golpe: Altas taxas de juros, desemprego e lucros dos bancos

Nesta quarta-feira, 31 de maio, o Banco Central anunciou uma redução de 1 ponto percentual na taxa básica de juros da economia, a taxa Selic, que passou para o 10,25% ao ano, cerca de 0,9% ao mês. É a menor taxa desde o fim de 2013, desde setembro de 2016 a taxa Selic apresentou uma redução de 4 pontos percentuais.

Flávia Ferreira

Campinas @FFerreiraFlavia

quinta-feira 1º de junho| Edição do dia

Foto: Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, Temer e Meirelles - ADRIANO MACHADO / REUTERS

O objetivo da equipe econômica de Temer, liderada por banqueiros, é de “estimular” a retomada dos investimentos, já que as taxas de juros menores, reduziriam, em geral, o custo para as empresas tomarem empréstimos ou terem acesso à linhas de crédito, na realidade este aumento no crédito até o momento, não ocorreu.

A função “oculta” do Banco Central: garantir os rendimentos do setor financeiro

Segundo o Banco Central (instituição que segue à risca às orientações do Fundo Monetário Internacional e dos grandes credores internacionais da dívida pública brasileira), o atual patamar elevadíssimo da taxa básica de juros seria justificado, de forma simplificada, pela necessidade de reduzir a quantidade de dinheiro em circulação na economia e assim, promover a redução na taxa de inflação até o limite estipulado de cerca de 4% ao ano (a chamada “meta de inflação”).

Vale destacar, que o Brasil apresenta a segunda maior taxa de juros real (descontada a inflação anual) do mundo de 4,30 % ao ano, perdendo para a Rússia com 4, 57% ao ano.

Segundo a equipe econômica, a redução da taxa de juros só pode ocorrer por que estamos vivendo um processo de “desinflação”, ou seja de redução nos níveis médios de preços. Porém, tal fenômeno, é de fato, também um resultado do aumento do desemprego (com mais de 14 milhões desempregados), da redução dos níveis salariais (aumento de salários abaixo ou “igual” a inflação, ou seja, sem aumento real), peloaumento disfarçado dos preços por meio de taxas, impostos, e pela precarização da vida dos trabalhadores, como discutido aqui.

O fato é que, de modo simples, com menos trabalhadores empregados a circulação de dinheiro reduz (caindo a demanda por consumo), reduzindo o aumento nos preços, além disso, o cenário de queda na atividade econômica deixa capacidade ociosa nas empresas, ou seja, estoques mais altos, o que também contribui por sua vez, para a redução nos preços.

Acontece, que na prática, a grande preocupação da equipe econômica dos governos, é sempre manter o nível de rendimento dos investimentos financeiros que grandes investidores realizam ao comprarem os títulos da dívida pública brasileira. Explicando melhor, para estes investidores internacionais (que inclui grandes especuladores dos países imperialistas e setores de empresários locais) é fundamental que o governo brasileiro lhes assegure que:

1) seus investimentos não irão se desvalorizar com o tempo devido ao aumento descontrolado da inflação;

2) seus investimentos terão valorização assegurada ao longo do ano, fato que ocorre com a combinação de altas taxas básicas de juros e a redução da inflação média anual;

3) a manutenção de um quadro de “previsibilidade econômica” - que hoje significa a segurança de que as reformas serão aprovadas e que rapidamente a crise política será “contornada”;

4) os juros da dívida pública serão pagos “a todo o custo”, ou seja, com todos os “ sacrifícios” necessários (para a classe trabalhadora), dentre eles, o congelamento dos gastos públicos com saúde, educação, moradia, etc, como foi aprovado com a PEC55 “ PEC do fim do mundo”.

Estas são algumas das principais preocupações do Banco Central em sua política de redução de juros, o discurso de “retomada do crescimento” está ocultando, a prioridade do governo que é a manutenção dos rendimentos dos especuladores financeiros e dos grandes bancos. É preciso lembrar que muitos destes especuladores são também empresários brasileiros e membros da elite rentista do país.

Multinacionais, bancos e rentistas continuam lucrando

A indústria farmacêutica e os grandes bancos, além do setor agroexportador, tem apresentado números positivos da despeito da crise econômica, do aumento do desemprego e da queda do PIB. Estes setores apresentam importante participação do capital imperialista, de multinacionais que por vezes estão “associadas” à empresários locais, alguns deles políticos, como o ruralista, empresário e ministro da agricultura de Temer, Blairo Maggi.

Dentre estes setores, o setor farmacêutico (que por sinal vem passando longe dos escândalos de corrupção da “Lava-Jato”, mesmo sendo um grande financiador de campanhas eleitorais) tem sido beneficiado com o aumento expressivo no preço dos remédios desde fevereiro deste ano, um custo que pesa sobre o bolso dos trabalhadores mais pobres, principalmente aposentados. Enquanto isso, os lucros da indústria farmacêutica batem recordes seguidos, num setor controlado por multinacionais norte-americanas e europeias e que, inclusive, não para de crescer com o envelhecimento relativo da população brasileira e mundial. O Brasil é o sexto maior mercado do mundo em venda de medicamentos.

Crescimento nos lucros dos bancos às custas dos trabalhadores

Voltamos ao setor bancário, que é o um dos que mais apresentaram números positivos no primeiro trimestre de 2017 com lucros recordes nos principais bancos do país.O Itaú Unibanco, maior banco privado do país, registrou lucro líquido R$ 6,176 bilhões no primeiro trimestre deste ano. O valor é 19,64% maior que o registrado no mesmo período de 2016. O Bradesco, por sua vez, registrou lucro líquido ajustado de R$ 4,64 bilhões no primeiro trimestre, alta de 13% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Já, o banco europeu, Santander, apresentou lucro deR$2,3 bilhões nos primeiros três meses do ano, um resultado que impulsionou o resultado mundial do grupo.Um crescimento de 37,7% se comparado ao ano de 2016. Por fim, o Banco Brasil, que registrou lucro líquido de R$ 2,443 bilhões no primeiro trimestre de 2017. O resultado é 3,6% acima dos R$ 2,359 bilhões obtidos no mesmo período do ano passado. Neste último caso, a redução da carteira de crédito e o aumento de taxas, assim como o fechamento de agências pode ter contribuído para este resultado.

A taxa Selic é também taxa de captação dos bancos, sendo assim, uma redução nesta taxa deveria significar redução nas tarifas e taxas de juros cobradas pelos bancos aos empresários e consumidores em geral, além do aumento na oferta de crédito. Porém, a tendência predominante não tem sido esta. Segundo dados do Banco Central,para o mês de maio, a oferta de crédito até maio deste ano, não apresentou aumento, pelo contrário, chegou a cair em alguns segmentos. Ao mesmo tempo em que as taxas médiasanuais cobradas pelos bancos aos consumidores chegam a 68,1% e 296,1% referente ao rotativo do cartão de crédito.

Tais níveis absurdos de taxas de juros cobradas pesam principalmente no bolso dos trabalhadores. Um fator que, juntamente ao aumento nas taxas de serviços bancários, somado ainda à precarização e à terceirização dos trabalhadores bancários, é responsável pelos aumentos constantes nos lucros dos bancos.

“Corte poderia ter sido maior se não fosse a crise política”

Segundo o Banco Central, “a manutenção, por tempo prolongado, de níveis de incerteza elevados sobre a evolução do processo de reformas e ajustes na economia pode ter impacto negativo sobre a atividade econômica (...)”e ainda, “ (...) o Comitê entende como fator de risco principal o aumento de incerteza sobre a velocidade do processo de reformas e ajustes na economia.” Por trás destas palavras, o que também se esconde é o medo dos banqueiros, empresários e dos golpistas, dos impactos da luta de classes sobre o rumo das reformas e sobre a “estabilidade” do país.

Tais “níveis de incerteza elevados” se referem à agudização da crise política nas últimas semanas, num quadro que ganhou contornos mais duros com as manifestações em Brasília no último dia 24 de maio e da entrada em cena dos trabalhadores com a paralisação nacional do dia 28 de abril.
Como afirmamos esta semana: “a função estratégica da Lava Jato é abrir o caminho para que monopólios imperialistas possam avançar sobre suas competidoras translatinas, reconfigurando a relação entre o Estado brasileiro e as empresas privadas; e por sua vez criar um novo regime político com legitimidade suficiente para aplicar reformas estruturais que transfiram uma maior quantidade de renda da população trabalhadora ao capital.” Sendo assim, as “reformas” não poderiam ser “interrompidas” pela crise política que deve então, ter “resolução rápida”, para que o Banco Central possa continuar com a sua política de redução gradual da taxa de juros ( dentro de um quadro de aumento no desemprego) com a manutenção dos rendimentos dos rentistas, este é o recado contido na nota oficial desta quarta-feira.

Para que a economia do país esteja a serviço dos interesses dos trabalhadores e não apenas dos grandes bancos, empresas multinacionais e ricos empresários e especuladores imperialistas, é preciso que a classe explorada e o conjunto dos setores oprimidos tomem em suas mãos os rumos da política do país e mudem as regras do jogo. Para este objetivo é fundamental construir em cada local de trabalho, estudo, organizações pela base para construção de uma greve geral para com essa força derrubar todas as reformas e o próprio Temer.

É preciso colocar, por meio da eleição de uma nova Constituinte, indo além do “anti-Temer”, a ruptura com o imperialismo com um governo dos trabalhadores, pelo não pagamento da dívida pública aos banqueiros, a nacionalização dos bancos, a combinação entre reforma agrária e expropriação do agronegócio, além danacionalização sob administração dos trabalhadores dos monopólios como a Odebrecht e a JBS-Friboi,.




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