Opinião

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A política econômica de Trump e a hegemonia do dólar

quinta-feira 1º de dezembro de 2016| Edição do dia

O dólar estadunidense goza de inconteste hegemonia nas relações comerciais internacionais desde o fim da Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento dos acordos de Bretton-Woods; com fluxos e refluxos se manteve nessa posição durante todo período de hegemonia estadunidense nas relações internacionais. Mesmo quando aconteceram relativas contestações a essa hegemonia, como no caso do ascenso japonês e alemão na década de 80, o dólar conseguiu se manter como o principal meio de circulação, meio de pagamento, reserva de valor, se constituindo assim como moeda mundial, durante todo esse período.

Essa posição hegemônica do dólar em relação as outras moedas é expressão e um dos principais elementos da hegemonia estadunidense sobre as relações internacionais, uma de suas principais formas de manifestação; essa hegemonia do dólar permite à burguesia ianque manipular as formas de movimento e circulação do valor a nível internacional, se tornando cada vez mais uma burguesia rentista e parasitária, por exemplo. Nesse sentido, a crise da hegemonia estadunidense que se expressa na presente crise estrutural do capitalismo tende a se manifestar também numa crise da hegemonia do dólar.

Contudo, essa crise da hegemonia do dólar não é expressão mecânica da crise da hegemonia estadunidense, determinadas escolhas políticas dos dirigentes do país podem retardar ou acelerar o processo. No caso da política econômica proposta até aqui por Donald Trump o que deve acontecer é uma aceleração do processo de crise da hegemonia do dólar; é pra debater esse processo e suas conseqüências sobre a economia mundial que escrevemos esse artigo.

A HEGEMONIA DO DÓLAR COM O FIM DA II GUERRA

A hegemonia do dólar nas relações comerciais internacionais, como meio de circulação, de pagamento e reserva de valor, foi construída a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, com a posição dominante com que saiu os EUA no fim do conflito. Frente aos debates que existiram para a construção de uma nova ordem econômica mundial (onde “lorde” Keynes, por exemplo, defendeu a criação de algum tipo de moeda internacional) os EUA conseguiu impor, durante os acordos de Bretton Woods, que sua moeda se tornasse a efetiva moeda mundial. Isso se deu, num primeiro momento, com o estabelecimento de uma relação paritária entre o dólar e o ouro, com uma determinada quantidade de ouro representando 1 dólar.

Essa relação entre o dólar e o ouro, que permitia uma manipulação da economia mundial pela burguesia estadunidense por meio da emissão de dólares, foi fator chave para a expansão sem precedentes da economia ianque e mundial durante o boom do pós-guerra; era com a emissão de dólares que podia os EUA financiar, para além de suas capacidades imediatas, essa rápida expansão econômica.

Essa possibilidade de manter uma política de expansão da emissão de dólares e ainda uma paridade entre esse e o ouro contudo desmoronou com o fim do boom do pós-guerra e a maior concorrência inter-imperialista que marcam o começo da década de 70 do século passado. Ficava cada vez mais claro que o dólar “não era tão bom quanto o ouro”, e que essa paridade era uma arma para a burguesia estadunidense contra seus competidores imperialistas, principalmente Japão e Alemanha Ocidental.

Os EUA, no entanto, ainda gozando de grande hegemonia nas relações internacionais fizeram um movimento que foi um verdadeiro golpe financeiro em seu favor, como forma de superar a contradição que se colocava a partir da paridade dólar-ouro. A decisão unilateral por parte da administração de Richard Nixon, em 1971, de acabar com a paridade entre dólar e ouro, após já ter desvalorizado de forma unilateral a moeda estadunidense, beneficiava a economia ianque em dois sentidos: 1)diminuía as dividas estadunidenses com os outros países imperialistas, pois com a desvalorização unilateral do dólar o mesmo montante nominal em dívidas agora representavam uma quantidade menor de valor; 2) permitia que o governo dos EUA emitissem de forma livre dólares, o que dado o papel hegemônico dessa moeda nas relações comerciais internacionais, permitia financiar de forma artificial, tanto o crescimento econômico quanto o consumo nos EUA.

Essa nova relação internacional entre as moedas nacionais, em que não há um lastro efetivo com nenhuma mercadoria real, como o ouro, e as moedas flutuam livremente em seus preços entre si, tendo o dólar como principal referencia, foi altamente vantajosa para os EUA, que conseguiram, a partir disso, manter sua posição hegemônica nas relações internacionais.

No entanto, essa nova posição do dólar e possibilidade de manipulação financeira das relações econômicas aprofundou várias das contradições da economia estadunidense, principalmente a queda relativa da produtividade do trabalho no país e sua também relativa desindustrialização, que foram fatores fundamentais para a crise de hegemonia que atravessa o país com a crise estrutural do capitalismo que vivemos.

Porque o dólar se manteve forte mesmo com a crise estrutural?

Contudo, porque a crise estrutural do capitalismo não significou, pelo menos no imediato, uma crise do dólar? O que parece se expressar, inclusive, no imediato, é o contrário, uma fortaleza relativa da moeda estadunidense, com as expectativas do aumento nos juros da economia ianque levando a uma expectativa de corrida rumo a moeda do país e com o dólar sendo ainda a principal reserva de valor, o principal meio de circulação e pagamento na economia mundial.

Isso se dá porque como crise estrutural e do regime de acumulação que é, a presente crise desorganiza as relações econômicas entre os países, entre as classes, etc. As antigas formas de interação econômica que existiam passam cada vez mais a ser contestadas. No entanto, a produção, distribuição, circulação, consumo, precisam continuar a existir, precisam encontrar meios de, mesmo em crise, continuar a se desenvolver.

Isso gera um movimento conservador nos agentes econômicos, que se refugiam nos elementos do regime de acumulação até aqui vigente que parecem manter ainda sua solidez. A crise de liquidez que marca a crise capitalista, com os principais ativos financeiros perdendo rapidamente seu “valor”, faz com que os agentes econômicos busquem se refugiar em ativos que possam manter estabilidade, em que os movimentos conjunturais da economia não signifiquem movimentos catastróficos, com a perda de suas reservas de valor por conta da desvalorização total daqueles determinados ativos financeiros (ações de determinadas empresas que falem e perdem todo seu valor, títulos de dívidas de estados que se tornam insolventes, etc).

Surgem nesse momento uma série de utopias econômicas, que além de reacionárias são impraticáveis, como uma volta ao padrão ouro, por exemplo. Frente a essa crise a estabilidade e confiança de que parece gozar o dólar, fruto de todo o período histórico anterior, que lega como um fantasma suas ilusões ao presente, são o refúgio que buscam os capitalistas financeiros, numa busca por um “porto seguro” frente a grande turbulência econômica.

Esse papel do dólar como principal moeda frente a crise, reserva de valor, meio de circulação e pagamento, aprofundou de forma inaudita as contradições que já existiam na economia estadunidense, tornando o país ainda mais rentista e parasitário. Tanto o déficit das contas públicas do país quanto o consumo baseado no crédito das famílias são baseados cada vez mais numa emissão sem lastro de dólar e títulos da dívida pública estadunidense, o que faz com que a burguesia dos EUA se apropriem de parte da mais-valia produzida por outras burguesias nacionais sem uma contrapartida. A possibilidade de essa situação se manter se dá hoje pelo poderio militar estadunidense, sua hegemonia política, e seu comprometimento em usar esse poderio e hegemonia para manter um determinado regime de acumulação econômica, uma determinada estruturação das relações de acumulação capitalista a nível internacional, que organizam as relações internacionais e se dão em torno da economia estadunidense, garantindo sua predominância.

O que acontecerá, contudo, se a nova administração na casa branca se apartar dessas relações internacionais e minar as bases da manutenção do antigo regime de acumulação, como promete a administração Trump?

A política-econômica de Trump tende a acelerar a crise de hegemonia do dólar

Assim, o que mantém a hegemonia do dólar nas relações comerciais internacionais, num momento em que não existe mais um lastro em ouro para essa moeda, é a confiança dos agentes econômicos que o valor nominal expresso pela moeda poderá ser efetivamente convertido em mercadorias reais, efetivas. Essa confiança tem como base o poderio militar, econômico, político, em suma a hegemonia, dos EUA. A crise dessa hegemonia tende a se expressar, portanto, também numa crise do dólar.

Contudo, como expresso acima, as escolhas políticas da elite estadunidense podem acelerar ou frear esse processo, buscar revertê-lo ou torná-lo mais marcado e profundo; a economia não é uma realidade mecânica, que se move de maneira exterior as posições políticas dos seres humanos reais, mas como ação humana que é determina e é determinada por essas escolhas e ações.

A política econômica que vem anunciando Donald Trump para os EUA tende a ser um fator a acelerar a crise da hegemonia do dólar nas relações econômicas internacionais. Isso pelas múltiplas contradições das propostas feitas pelo presidente recém eleito. A primeira grande contradição se dá entre a proposta feita pelo republicano de um projeto de investimentos na infraestrutura do país e sua proposta de corte de impostos.

Com os cortes de impostos, principalmente para os mais ricos, a já deficitária balança de pagamentos do governo estadunidense tende a ficar ainda mais "no vermelho", ou seja, os déficits tendem a ser ainda maiores. Sobraria pouco espaço, nesse sentido, para qualquer plano mais ambicioso de investimento na infraestrutura do país. Apesar do modelo que Trump propõe para esse plano de investimento ser baseado principalmente em parcerias com a iniciativa privada o investimento público em empréstimos, financiamentos e garantias para os investimentos serão essenciais à sua realização.Um estado cada vez mais deficitário, no entanto, junto a proposta feita por Trump de cortar receitas, por meio do corte de impostos, parece não ser capaz de sustentar tal projeto.

Uma possibilidade aparente de superar a contradição, a partir do ponto de vista da burguesia estadunidense, seria financiar esses investimentos por meio da emissão de moedas e títulos da dívida estadunidense, reforçando o caráter rentista e parasitário da economia ianque, que financiaria cada vez mais sua retomada e modernização econômica por meio da manipulação artificial da economia mundial que a hegemonia do dólar lhe garante.

No entanto, o aprofundamento desse caráter rentista da economia ianque pode gerar uma contestação por parte de seus concorrentes imperialistas e países "emergentes" nas relações internacionais, como China e Rússia, que veriam como algo cada vez mais inaceitável essa posição de uma moeda cuja emissão não reflete nenhum lastro efetivo em relação a valores concretamente produzidos.No momento anterior os EUA conseguiram sustentar esse caráter rentista de sua economia dado sua hegemonia internacional e o papel de sustentáculo em última instância do país no regime de acumulação capitalista que se estruturou desde o fim da II guerra. O papel do país como garantidor da estabilidade das relações que permitem a acumulação ampliada do capital impunha a seus concorrentes imperialistas a necessidade da aceitação desse caráter cada vez mais parasitário da economia estadunidense.

A política de Trump de defender um maior isolamento estadunidense em relação a economia global, um enfraquecimento de alianças militares centrais para a manutenção de uma determinada ordenação das relações internacionais, contudo,tende a fazer com que seja cada vez mais contestado pelos demais países imperialistas competidores e países ascendentes, como China, continuar financiando de forma artificial a economia estadunidense por meio da aceitação de uma moeda que cada vez mais é emitida sem representar um valor correspondente na produção.

Assim, esse caráter cada vez mais artificial do dólar tende a gerar uma contestação maior a seu papel hegemônico nas relações comerciais internacionais, o que seria fator de suma importância para o aprofundamento da crise de hegemonia estadunidense.

Uma crise do dólar significaria um grande aprofundamento da crise capitalista

A encruzilhada que tende a se colocar para as burguesias imperialistas competidoras em relação aos EUA é que continuar aceitando dólares que não correspondem a um lastro econômico real é forma de permitir que a burguesia estadunidense se aproprie de parte da mais-valia produzida em seu espaço econômico sem uma efetiva contra-partida em valores reais, mas ao mesmo tempo romper com a hegemonia do dólar pode significar uma maior instabilidade numa já frágil economia mundial.

Isso porque a aceitação e confiança de que goza o dólar como meio de circulação, pagamento e reserva de valor a nível internacional não pode ser substituída no imediato por nenhuma outra moeda; nem o Euro nem o yuan chines ou o iene japonês aparecem nem de longe como substitutos para o papel que cumpre o dólar na economia mundial.Aceitar, contido, que num momento de crise, em que por definição os lucros são baixos e as possibilidades de realização da mais-valia mais difíceis, outra burguesia se aproprie de forma artificial da mais-valia produzida em seu espaço econômico não parece também uma alternativa nada sedutora.

Uma crise de confiança no dólar, que levasse a uma sua possível desvalorização, poderia ainda ser outro fator de instabilidade, pois países que tem grandes reservas na moeda estadunidense e em títulos da dívida desse país, como a China, poderiam buscar resgatar esses títulos e converter dólares tanto em outras moedas quanto em ativos menos arriscados (commodities como petróleo, por exemplo) o que geraria possivelmente uma insolvência do governo estadunidense, incapaz de garantir a conversão em valores reais do valor nominal de sua moeda.

É nesse sentido que as políticas propostas por Donald Trump podem ser fator para acelerar e aprofundar a crise capitalista, que até aqui tinha sido respondida de forma relativamente coordenada pelos principais setores da burguesia imperialista. Devemos nos preparar para um cenário possivelmente mais turbulento para a economia mundial.




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