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A pequena Melba e seu grande trombone

Melba Liston foi uma trompetista pioneira. Professora na Jamaica School of Music, foi a primeira trompetista a integrar uma big band.

terça-feira 20 de setembro| Edição do dia

Em 13 de Janeiro de 1926 na cidade de Kansas City, Missouri, nasce a trompetista afro-americana, instrumentista, compositora e arranjadora Melba Liston. Com sete anos sua mãe comprou-lhe um trombone, sua família apoiava suas atividades musicais. Foi autodidata tendo como referência seu avô que tocava guitarra e aos oito anos já era boa o suficiente para estar na estação de rádio local.

Aos dez anos mudou-se para Los Angeles, Califórnia. Foi companheira de classe de Dexter Gordon e Eric Dolphy. Depois de tocar em bandas juvenis e de ter estudado com Alma Hightower e outros, uniu-se a grande banda liderada por Gerald Wilson em 1943. Esta excepcional interprete foi a primeira trompetista feminina em uma big band, com apenas dezessete anos. Começou a trabalhar com importantes e emergentes músicos do Bebop em meados da década de 1940, como a banda de Dizzy Gillespie.

No ano de 1973, Liston chega à Jamaica, país que permaneceu durante seis anos, para assumir o cargo de professora da Jamaica School of Music. Dois anos mais tarde compõe e realiza arranjos para o primeiro filme de comédia da Jamaica protagonizado por Carl Bradshaw, chamado Smile Orange (reggae instrumental jamaicano).

Formou seu próprio quinteto, totalmente composto por mulheres em 1958 e na década de 60 começou a colaborar com o pianista Randy Weston. Trabalhou para uma variedade de líderes como Milt Jackson, Clark Terry, Johnny Griffin e inclusive chega a tocar nos discos de Ray Charles.

Ajudou a estabelecer a orquestra de Pittsburgh. Em 1971 foi escolhida como arranjadora para um tax record de gravação chamado Calvin de Scott, cujo álbum estava sendo produzido por Stevie Wonder. Quando este álbum lançou, ficou evidente que o trabalho de arranjos feitos por Liston foi um dos melhores já produzidos por ela.


“Quando vi o trombone pensei: que bonito de se ver! E naquele instante sabia que tinha que ter um, ninguém me disse que era difícil de dominá-lo, tinha problemas com a 6ª e a 7ª posição.”

Melba obteve uma grande reputação como arranjadora de jazz, uma conquista em um campo dominado majoritariamente por homens. Começou muito cedo a trabalhar com bandas de alto nível; talvez sua obra mais importante foi a escrita para Weston com quem trabalhou durante quatro décadas. Os álbuns aclamados pela crítica Uhuru Afrikana (1960) e Highlife (1963), ambos dispondo de composições de Weston e arranjos de Melba, são consideradas obras-primas do jazz.

Highlife, pode ser considerada uma obra comparável as de Miles Davis e Gil Evans do mesmo período, mas orientada com harmonias e melodias. Liston foi pioneira em seus direitos, como uma trombonista e uma mulher. Ela chegou a se referir ao assunto afirmando que “há problemas naturais na carreira, os problemas femininos”. Além do trabalho em conjunto com grandes músicos, outro assunto que Liston se debruçou foi a desigualdade na industrial musical. Mais de uma vez lhe foi negado o acesso a melhores oportunidades de trabalho como compositora e arranjadora devido ao seu embate em torno da questão.

Melba também falaria das profundas dificuldades que vivenciou: ser uma mulher na indústria musical durante este período significou ser objeto de maltrato, descriminação e, inclusive, abuso sexual.

Quando voltou aos EUA em 1979 Melba formou uma banda de jazz exclusivamente feminina chamada Liston Empresa Melba que encabeçou o Festival de Jazz da Mulher em Kansas City. Ao longo da década de 1980 Melba seguiu participando ativamente na cena musical do jazz e em 1987 foi premiada com um título no Jazz Masters do fundo Nacional das Artes.

Lamentavelmente sua saúde começou a piorar a partir de 1986. Em 1999 falece depois de ter contribuído de maneira impar para a música do século XX.

Melba foi docente, artista, uma mulher com propósitos, amava a música, expandiu pelo mundo suas melodias e acordes com o trombone e hoje é uma grande referência para a cena musical, tanto no jazz, como no blues e no bebop.

“Blues Melba”, um autêntico blues das mãos de trombonista e arranjadora Liston.




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