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TRIBUNA ABERTA INTERNACIONAL

A partir do Brasil se expande a greve internacional dos entregadores

Reproduzimos o artigo "Dal Brasile si allarga lo sciopero internazionale dei riders, di p.z.", publicado no portal italiano Il pungolo rosso no dia 10 de julho de 2020, e traduzido para o Esquerda Diário por Pina De Grazia.

quarta-feira 5 de agosto| Edição do dia

Nos mesmos dias em que explodem as revoltas dos afro-americanos nos Estados Unidos contra a violência da polícia, os entregadores por aplicativos brasileiros, jovens e sobretudo negros, num esforço de auto-organização exemplar, conseguem realizar um dia de greve e receber a solidariedade e a participação dos trabalhadores dos transportes metropolitanos e outras categorias, além dos estudantes, movimentos e organizações sociais. Além disso, criaram uma rede de coordenação com os entregadores de outros países latino-americanos para alcançar uma mobilização unitária e internacional sob as palavras de ordem:

“Nossa vida vale mais que o lucro deles”
“Temos todos os mesmos direitos”
“Uma só classe, uma só luta”

Este jovem movimento começou a formar-se por ocasião das mobilizações contra Bolsonaro, que recentemente têm animado os fins de semana das principais cidades brasileiras. Um início de organização ocorre em parte como “Entregadores/Riders Anti Fascistas”, apesar da crítica contra o governo ainda não ser majoritária nesse segmento (ver Nota 1 – pág 4). Uma raiva crescente também se faz sentir após a decisão do Presidente de cortar dos trabalhadores precários e autônomos o auxílio de emergência de 600 reais mensais, em razão da Covid-19.

No dia 1º de julho, portanto, os entregadores do Brasil, Argentina, Costa Rica, México, Guatemala e Equador paralisaram as entregas, bloqueando as principais artérias das metrópoles e dos grandes centros urbanos desses países.

Suas reivindicações são simples e básicas, para uma relação de trabalho correspondente – sem exagero – a uma escravidão moderna. Reivindicam melhores condições de trabalho e o fim do precariado; salário mínimo e aumento da remuneração por entrega e por Km percorrido; fim das interrupções dos aplicativos, sem justificativa e sem explicação - versão tecnológica da demissão que livra os patrões de possíveis condenações; enquadramento e relação de trabalho de pleno direito, em pé de igualdade com os trabalhadores do transporte; o fim da avaliação por pontos que recai sobre o trabalhador reduzindo o número de entregas toda vez que a performance não seja julgada suficiente pelo algoritmo do aplicativo; o fornecimento de DPI de segurança contra o contágio da Covid-19; enfim, proteção contra furtos, doenças e acidentes de trabalho.

Os trabalhadores dos transportes metropolitanos, igualmente sob ataque em período de pandemia, e mobilizados após os cortes que o governador Doria, de São Paulo, impôs aos seus salários, também fizeram um dia de greve no 1º de julho pelo direito à saúde e à segurança contra a Covid-19, partilhando as reivindicações dos entregadores e defendendo o direito ao enquadramento deles como trabalhadores do transporte, com as garantias e tutelas previstas no contrato desses trabalhadores.
O sucesso da primeira mobilização levou ao relançamento de nova manifestação no dia 25 de julho: “a guerra continua”.

No Brasil a greve ocorreu em 20 grandes cidades, situando-se em São Paulo o centro majoritariamente relevante do movimento, com 50 mil jovens regularmente registrados só entre os motociclistas - um terço do total no país.

A luta desses jovens é um exemplo para toda a classe trabalhadora, pois contribui para fazer emergir e afrontar as novas formas de exploração do capitalismo digital: um retrocesso do ponto de vista dos direitos e das condições de trabalho de pelo menos 150 anos de lutas do movimento operário internacional.

Apesar do caráter embrionário da organização atual, a relevância deste movimento está nas suas reivindicações de base, que são aquelas de toda a classe trabalhadora, sobretudo neste período de reestruturação produtiva impulsionado pela pandemia. É uma luta decisiva contra sua possível generalização.

“O capitalismo de plataformas, dirigido pelas grandes corporações globais (destacando-se como principais: Rappi, iFood, Loggi, Uber Eats, 99Food, James, n.d.t.), tem algo análogo a uma protoforma do capitalismo”. (R.Antunes: “Coronavirus: o trabalho sob fogo cruzado”, ed. Boitempo, 2020) que combina alta tecnologia com servidão digital e atomização trabalhista.

Se até recentemente a relação entre capital e trabalho tinha sua forma mais eficaz de exploração no outsourcing, hoje o motor do lucro deu um passo além: nenhum direito para quem trabalha, nenhuma obrigação para o patrão.

Estes jovens estão desafiando um mecanismo virtual que os desagrega e os individualiza em uma cruel concorrência recíproca, na corrida à intensificação autoimposta pelo próprio trabalho, que no período da pandemia da Covid-19 alcançou níveis insustentáveis.

Mas é justamente neste período que a organização dos entregadores ganhou força: a maior carga de trabalho, a maior concorrência (em grande parte devido ao aumento da demanda, os salários foram reduzidos, em decorrência de maior competição com os novos desempregados) e a situação de perigo à saúde e à própria vida foram decisivos.
Invisíveis mas essenciais - essenciais também por garantir o distanciamento social e a atividade de bares e restaurantes em dificuldade, permitindo sua reabertura - levam alimento, mas sofrem a fome.

Cada entrega vai de 4 a 10 reais (de 0,68 a 1,7 euro: 1R$ = 0,17 euro), mas há uma grande variação nos salários desses trabalhadores. Alguns chegam a ganhar 50 reais por dia, poucos alcançam 300 reais.

Em geral trabalham de 12 a 14 horas por dia. Não conseguem nem ir ao banheiro – muitos recorrem às fraldas – e ainda devem assumir as despesas dos meios de transporte e das refeições.

A pandemia aumentou o número de acidentes e mortes na estrada e um terço dos entregadores tiveram contato com contagiados da Covid-19, sem contar com nenhuma proteção.

A realidade vivida por esses trabalhadores é a mesma de todo o proletariado no período da Covid-19: arriscar a vida para não morrer de fome.

Segundo o líder dos entregadores de São Paulo – Paulo Lima, conhecido como Galo – a maior dificuldade na organização da categoria é amadurecer a consciência de pertencer à classe trabalhadora, e isto “devido à predominante enganação de que somos livres empreendedores”.

A recente luta dos entregadores abriu a estrada para sua generalização e internacionalização: um passo necessário seja pela unidade e solidariedade de classe, seja pelo caráter transnacional da rede de aplicativos (ver Nota 2) que estão se aproveitando da pandemia para submeter os trabalhadores ao jugo de exploração cada vez mais brutal.


NOTA 1:
Quem são os entregadores brasileiros?
O Observatório da Precarização do Trabalho e da Reestruturação Produtiva do Esquerda Diário, durante a greve de 1º de julho, efetuou uma sondagem entre os entregadores para ter uma identidade mais precisa desta categoria de trabalhadores, a respeito da qual existem pouquíssimos dados, e ainda mais divulgados pelas próprias plataformas.

Foram entrevistados 253 entregadores em 9 Estados brasileiros. Apresentamos os resultados mais significativos:
- 96% dos entregadores são homens, jovens (82% com até 34 anos; 38% com menos de 24 anos, e negros: 67%).

- Para 75% a função de entregador é o único trabalho; 70% trabalham com pelo menos dois apps; os principais são: iFood, Rappi, Uber Eats.

- 32% trabalham nesse setor há mais de dois anos.

- 70% dos entregadores se locomovem em motos, 28% com bicicleta. Outras pesquisas revelaram todavia, que a bicicleta é utilizada por mais de um terço dos trabalhadores.

- Sobre as horas de trabalho os dados mostraram que 77% trabalham mais de 10 horas por dia; 40% mais de 12 horas; 32,4% entre 12 e 15 horas diárias, e 10% mais de 15 horas por dia.

- 59% recebem até 2.000 reais mensais (as despesas de manutenção dos meios de transporte, a gasolina, a comida ficam por conta dos próprios trabalhadores).
21% ganham menos de 1.000 reais por mês. O salário médio bruto para quem utiliza a bicicleta é de 1.600 reais; para quem utiliza a moto é de 2.500 reais.

- 51% dos entregadores sofreu pelo menos um acidente durante o trabalho; entre os que se locomovem com moto os dados alcançam 57,2%.
90% dos que utilizam a bicicleta percorrem mais de 100 km por dia, e recebem em média 1 real por quilômetro.

- A maior parte dos que utilizam a moto percorre até 300 km por dia, recebendo 0,52 centavos por quilômetro.

- Os índices de contágio da Covid-19 são baixos, seja pela jovem idade da população entrevistada, seja pela ausência de testes efetuados, aplicados somente a quem apresenta sintomas graves.

- Foi solicitada uma avaliação sobre o governo Bolsonaro: 40% manifestaram-se contrários ao mesmo; 17% favoráveis; 20% indiferentes.


NOTA 2:

- Softbank, o fundo de investimento que controla as principais aplicações:
O monopólio Softbank é um fundo de investimento do bilionário japonês Masayoshi Son, o homem mais rico do Japão, com uma fortuna de 24 bilhões de $. Investe nas plataformas das novas tecnologias que enriquecem com o trabalho precário e a escravidão moderna como Uber, Rappi, Loggi.

Fundado em 1981, hoje tem participação em mais de 100 empresas, num primeiro período principalmente de software (ad es.Yahoo). Sucessivamente tornou-se o gigante monopolista das plataformas digitais, e entre 2009 e 2014 teve um aumento de capitalização de 557%, o quarto maior aumento relativo do mundo.

Em 2019 cria o Fundo Softbank Latin America; com um capital de 5 bilhões de $ investe em menos de 6 meses um bilhão de $ nas empresas da região, tornando-se rapidamente o principal acionista das plataformas, como a colombiana Rappi e a brasileira Loggi. Atualmente são 10 as startups brasileiras que gozam de investimentos Softbank. Em 2019 demitiram pelo menos 10.000 trabalhadores.

Softbank aposta no trabalho precário em larga escala. Na China investe em serviços de consultoria médico-sanitários por controle remoto, no qual todo o corpo médico é precarizado (Ping an Good Doctor). Frequentemente investe em empresas em dificuldade ou em concorrência entre elas: seu objetivo é consolidar o setor sob seu controle.

Fonte: Esquerda Diário 12,21,22,30/06; 01/07/2020
Site CSP-Conlutas 10,15/06; 02/07/2020

Texto completo em:
http://sicobas.org/2020/07/10/analisi-dal-brasile-si-allarga-lo-sciopero-internazionale-dei-riders/




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