Política

CORRUPÇÃO

A operação Mãos Limpas italiana, inspiração da Lava Jato, é uma farsa

A operação Mãos Limpas na Itália é tida como exemplo para a Lava Jato atuar aqui no Brasil. Enquanto aqui, os amigos de Sergio Moro são vistos como heróis que vão salvar o país da corrupção, na Itália é notório que a operação Mãos Limpas não combateu a corrupção e fez com com que Berlusconi assumisse o governo italiano.

Guilherme de Almeida Soares

São José dos Campos

sexta-feira 11 de novembro| Edição do dia

Como diria Karl Marx no dezoito de Brumário: Os acontecimentos tendem ocorrer duas vezes, a primeira vez acontece como tragédia e a segunda vez como farsa.

Em entrevista concedida ao Estadão, o Juíz Gherardo Colombo que esteve na linha de frente na Operação Mãos Limpas conta quais foram as conclusões que foram tiradas deste processo. Membro da Corte de Cassação de 2005 á 2007, Gherardo afirma que renunciou a magistratura porque entendeu que não era possível combater a corrupção por meio da justiça. Hoje, dirige uma editora e faz inúmeros debates que ensina obediência às leis.

Para ele, ’’os cidadãos comuns’’ tiveram um papel importante na decretação do fim da Mãos Limpas, pois, no início, eram todos entusiastas na Itália das investigações, pois ela levava a descobrir a corrupção dos de cima. Mas de acordo com o juiz, conforme as investigações prosseguiam, chegou a corrupção dos ’’cidadãos comuns’’. Para Gherardo, não se pode enfrentar a corrupção por meio de uma investigação judiciária, quando ela é tão difusa como na Itália. Mesmo que os processos da operação tenha durados 6 anos, a corrupção não diminuiu.

Gherardo Colombo conta que a população da Itália começou a pensar que os membros da Mãos Limpas eram Savonarolas (Girolamo Savonarola, dominicano que governou Florença, na Itália, no século 15 e dizia que a moral dos cidadão devia ser regenerada). Para ele, a luta contra a corrupção passa por uma luta para mudar ’’a educação e a cultura’’ das pessoas.

Colombo disse que a Operação Mãos Limpas foi acusada de ser parcial, de favorecer algum expoente de uma força política em relação a outros ou de não investigar em um certo campo. Gherardo afirma que é muito importante ser imparcial, tratar todos os casos do mesmo modo. O ex-juiz afirma que as Mãos Limpas estava atenta a cada notícia de crime que chegava.

No debate de juízes que ocorreu em Arraial D Ajuda, na Bahia, o italiano voltou a reafirmar sua tese de que “é necessário que as pessoas saibam que a corrupção de cima depende da corrupção de baixo”. Além disso citou que tanto no Brasil como na Itália, “os políticos são escolhidos pelos cidadãos. E eles continuam escolhendo as mesmas pessoas”. Já Sérgio Moro disse que a corrupção vai existir sempre em qualquer lugar, mas como do jeito que é hoje no Brasil ’’como um sistema, uma prática habitual".

A BBC entrevistou Vittoro Craxi, filho de Bettino Craxi, ex-líder do PSI e acusado de financiar ilegalmente o seu partido pela Operação Mãos Limpas em 1993. Quando foi questionado sobre a condenação de seu pai por causa de corrupção e financiamento ilegal dos partidos, Vittoro responde que é de praxe, e foi o financiamento de toda política da Itália, não somente do PSI.

Quando foi questionando se a situação do país melhorou após a Operação Mãos Limpas, Vittoro diz que mudou para pior. De acordo com filho de Bettino, antes se cometia ilegalidade para financiar os partidos, hoje comete-se ilegalidades para financiar-se a si mesmo. Para ele, a Operação Mãos Limpas foi um desastre para a Itália, porque os juízes fizeram carreira e alguns foram inclusive acusados de corrupção.

A mesma BBC também entrevistou Alberto Vannucci, dono do artigo ’’O legado controverso da Mãos Limpas’’. Para Alberto, a Operação Mãos Limpas demonstrou ser um fracasso em longo prazo, pois mesmo que consiga colocar na cadeia alguns políticos, burocratas e empresários, não conseguiu combater as causas enraizadas da corrupção. Para ele, quando acham provas de propina e processam políticos, as investigações judiciais só arranham a superfície da ilegalidade.

Alberto Vannuci diz que os políticos corruptos e empresários aprenderam a lição da Mãos Limpas e não estão cometendo os mesmos erros daqueles que foram presos. Nos últimos anos, eles desenvolveram técnicas mais sofisticadas para praticar corrupção com mais chances de ficarem impunes, como dissimular pagamentos de propinas, ou multiplicar conflitos de interesses.

Para Vannuci não houve mudança institucional ou cultural. A maioria dos atuais políticos estavam profundamente envolvidos com o sistema corrupto anterior, como é o caso de Berlusconi que era um protegido de Bettino Craxi. Ele afirma que a esperança da integridade na política foi substituída por uma desilusão crescente, o que se reflete no crescimento das taxas de abstenção nas eleições.

A tese usada por Gherardo de que a corrupção existe nos de cima e entre ’’os cidadãos comuns’’, tem como objetivo tirar o foco os verdadeiros responsáveis que estão por trás dos casos de corrupção. Este argumento utilizado pelo membro das Mãos Limpas, leva a uma elaboração teórica de que corrupção só acontece porque a ’’natureza humana’’ faz com que ele seja corrupto. Já na palestra que ocorreu na Bahia, ele joga a responsabilidade da corrupção na população, porque foi o povo que através das eleições elegeu os políticos corruptos.

Nestes casos citados na entrevista ao Estadão e no Debate na Bahia, Gherardo Colombo esconde o papel fundamental dos grandes empresários e banqueiros para que a corrupção aconteça. A corrupção não é fruto da natureza humana, mas do sistema político que está profundamente entrelaçado com os interesses do imperialismo. Não questionar isso, apenas vai fazer com que este estado de coisas continue.

A Operação Mãos Limpas conforme escrevemos neste texto aqui ’’ foi uma imensa operação, ela resultou em um imenso corpo documental de 1,3 milhão de páginas, 3200 pessoas julgadas, duas mil e quinhentas condenações. Algo imenso, impressionante. Sabe quantas pessoas estavam presas no ano dois mil, sete anos após a operação? Quatro!’’. Os próprios membros que participaram da Operação Mãos Limpas, afirmam que a Lava Jato não é a cura do país.

Conforme escrevemos neste site, o que a Mãos Limpas conseguiu fazer na Itália foi erguer como um dos pilares do ’’novo regime’’, um político diretamente ligado com a Máfia Italiana como Silvo Berlusconni e um partido de extrema direita como a Liga Norte. Assim como a Lava Jato, a operação Mãos Limpas estava ligada aos interesses imperialistas, uma vez que a Itália é tem uma importante localização política no mar Mediterraneo e no Oriente Médio.

A Mãos Limpas foi considerada um fracasso, porque os juízes que estiveram envolvidos nesta operação fazem parte deste regime político corrupto. Questionar profundamente a relação que os grandes empresários e banqueiros possuem com o sistema político, em última instância significa questionar a serviço de qual classe o Estado está hoje. Algo que só pode ser feito pelo os trabalhadores em conjunto com os demais setores populares da sociedade.




Tópicos relacionados

Operação Lava Jato   /    Corrupção   /    Política

Comentários

Comentar