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CRISE PSOE

A nova gestora do PSOE já manda: “Eleições sim ou eleições não”, enquanto o PP eleva o padrão

quinta-feira 6 de outubro| Edição do dia

Foto: EFE

Assim abertamente se mostrou Mario Jiménez, homem de confiança de Susana Díaz, porta-voz do PSOE no parlamento andaluz e também porta-voz da nova gestora que marca os desígnios do PSOE até um futuro Congresso.

“Eleições sim ou eleições não” é a simples equação que contempla a gestora e o Comitê Federal. Jiménez assegurou que “a aritmética não a permite (a alternativa de governo). Os partidos que puderam sê-la expressaram que não é viável, como Podemos e Ciudadanos.” A questão que se coloca aqui é: para quem o PSOE era uma alternativa?

Não quis esquecer o porta-voz na entrevista do ex-Secretário Geral Pedro Sánchez, ainda sem nomeá-lo, ao assegurar que a gestora quer “falar com integridade e honestidade. Sem maniqueísmos nem falsidades, sem alternativas que não são reais”.

Na lista de recados que deixou em sua entrevista, Mario Jiménez também teve palavras para o Podemos. Nesse sentido, o homem de maior confiança de Susana Díaz na atual gestão assegurou que em março sim, foi possível, “mas Podemos reinventou um alternativa de mudança e pôs um tapete roxo no PP”.

Consciente da ameaça que já supõe em Podemos eleitoralmente e que presumivelmente esta aumente após o golpe de estado interno no PSOE, Jiménez quis aprofundar sua crítica sobre a organização de Pablo Iglesias. O porta-voz andaluz definiu o partido roxo como a “referência de aparência política”.

Somado a isso, teve tempo de enviar uma mensagem clara e concisa a ERC e CDC que define a política do PSOE frente ao processo do direito a decidir na Catalunha: “E não é viável (a alternativa de governo) com partidos políticos que desafiam o Estado de direitos e decidem um referendo ilegal e colocam uma clivagem de uma parte da Espanha”, em clara alusão à sessão de confiança do Presidente Puigdemont na qual este assegurava que seu executivo estava decidido a convocar um referendo para decidir a relação política com o resto do Estado.

A nova gestora buscar deixar tudo “atado e bem atado”. Na mesma linha do presidente, Javier Fernández, Jiménez assegurou que não seria celebrada uma consulta à militância para dirimir a posição do PSOE frente à investidura de Mariano Rajoy.

Apoiando-se nas normas internas do partido, que marcam claramente que o Comitê Federal é quem deve tomar essa decisão, assegurou que “a decisão deve ser tomada pelo Comitê Federal do partido frente ao processo da investidura [...] porém o que nos pode permitir sossego e estancar as feridas é começar a cumprir, com um cumprimento requintado, as normas do partido. E os estatutos estabelecem que a posição política é definida pelo Comitê Federal”.

Uma entrevista que foi todo um aviso aos navegantes, no qual se “tornou carne” a vitória política do setor Díaz no último sábado. Nem governo alternativo, nem direito a decidir, nem Podemos. O “novo” PSOE de Susana Díaz e sua camarilha põe-se em marcha.

O Partido Popular aperta

Em plena crise do partido socialista, a pata direita do regime busca extrair o máximo de capital político. Segundo informações de dentro da Moncloa, Rajoy e seu executivo negam que a abstenção do grupo socialista seja meramente estratégica. O candidato e líder do Partido Popular exige uma estabilidade governamental.

Foi o porta-voz popular, Rafael Hernando, o encarregado de transmitir as pretensões de Gênova. Assegurou que não vale a “abstenção técnica de alguns deputados socialistas”. Na mesma linha que a própria Dolores de Cospedal, Hernando definia o apoio que se espera dos socialistas como “um compromisso para dar estabilidade à legislatura”.

Os populares, acusados de inumeráveis casos de corrupção, veem na fraqueza da direita cool de Ciudadanos e na crise interna do PSOE, sua maior fortaleza. Sob esse prisma e ainda desde Moncloa, asseguram não quererem terceiras eleições, nas filas populares são conscientes de que seriam os grandes beneficiados de novos comícios.

Não há máscaras suficientes

A nova gestora se move entre dois rios; a necessidade de recuperar (seguramente mínima) parte de sua imagem frente à base do PSOE e seus eleitores, e a agilidade que requer esse momento institucional. A um mês para que sejam convocadas novas eleições, a gestora deve transmitir da forma mais “simpática” possível sua atribuição do governo a Mariano Rajoy.

Tanto na aparição de segunda-feira do presidente da gestora, Javier Fernández, como na entrevista de ontem de Mario Jiménez, torna-se claro que mais além do discurso de responsabilidades e normas de partido, poucas máscaras tem o partido socialista a essas alturas para ocultar sua verdadeira cara. Aquela que o levou às reformas do mercado de trabalho mais duras nos anos 80 ou aos pactos neoliberais dos 90 ou aos últimos ataques à classe trabalhadora do governo Zapatero.

Nos últimos meses, as disputas internas entre o bloco de Díaz e o de Sánchez haviam desvirtuado o verdadeiro DNA do partido socialista. Na batalha interna, entrelaçavam-se aspectos pessoais, centrados nas carreiras pessoais de Díaz e Sánchez, e uma tática oposta para afrontar a crise do partido socialista.

Enquanto o setor da presidenta da Junta de Andaluzia apostava por facilitar o governo de Rajoy e recompor-se em uma etapa sem compromissos eleitorais, Sánchez optava pela negativa à investidura do candidato popular. Não por não estar de acordo com sua política, mas por terem se tornado ele e o partido socialista o executor das políticas de austeridade. Ao longo dessa disputa interna que fez explodir Ferraz, amplos setores sociais e políticos, especialmente desde Podemos, vinham desenhando o “PSOE de Pedro Sánchez” como um aliado progressista e de esquerda.

Em nenhum caso, nem com Sánchez nem Díaz nem com nenhum dirigente do partido socialista, existe possibilidade de criar nenhuma “alternativa” de governo. Outorgar ao PSOE tal papel é expressão de ceder a uma análise superficial da política, em que o círculo midiático esconde a verdadeira relação entre ambas as patas do Regime de 78.

Ignora-se, assim, a reforma trabalhista do governo de Zapatero ou a reforma constitucional do artigo 135 que legalizou a austeridade com o apoio do PSOE, ações das quais Sánchez e toda a cúpula do PSOE (obviamente também a atual) são herdeiros.

Evitar novas eleições fará com que se demore a saber com certeza o impacto que essa guerra de poder teve no PSOE, ainda que todos os prognósticos apontem um dano profundo.

E precisamente essa é a linha política para os próximos meses da gestora e do Comitê Federal, favorecer um governo de Rajoy e sobreviver ao temporal. Embora seja possível, diferentemente de outras vezes, que o temporal chegue para ficar. Desta vez, não permanecem mais as máscaras.




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