Teoria

ZIGMUNT BAUMAN

A morte de Zigmunt Bauman: as desventuras de um pensamento derrotista

Por que Zigmunt Bauman é um pensador do desalento político e da prostração diante da barbárie capitalista?

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 11 de janeiro| Edição do dia

Faleceu, dias atrás, aos 91 anos, o filósofo e pensador polonês Zigmunt Bauman, de grande respeitabilidade em certas universidades e muito conhecido pelos seus livros, escritos em estilo claro, que tratam de temas de grande apelo para o nosso tempo, como os relacionamentos, a fragilidade das relações humanas, o individualismo narcisista, consumista, as redes sociais, as vidas desperdiçadas; sendo que sua crítica parte da defesa do postulado, formulado nos termos kantianos, da “unidade da espécie humana”.

Seguramente Bauman – cuja notoriedade vem do final dos anos 1980 - teve a perspicácia de captar alguns elementos do mal-estar e do desalento das sociedades modernas, capitalistas e o fez na condição de um dos intelectuais do período onde não mais eclodiram revoluções, onde o proletariado sofreu derrotas históricas, culminando com a restauração do capitalismo na URSS e o auge do neoliberalismo. Por isso ele tinha algo a dizer sobre nosso tempo.

O que seguramente está sob questão vem a ser a profundidade e a perspectiva da sua fala.

Nesta pequena nota jamais poderíamos dar conta das contradições e do pessimismo do discurso de Bauman, mas tentaremos sinalizar com algumas pistas, na intenção de contribuir ao debate, debate que deve se estender à onda intelectual da qual ele faz parte e que é chamada por autores marxistas como” para-pós-moderna” ou mesmo apenas “pós-moderna”, e da qual Richard Sennett [“A corrosão do caráter”] é um dos ícones.

Oscar Wilde, cuja sensibilidade lhe permitiu captar, já nos primeiros passos do capitalismo mais industrializado, seus efeitos perversos sobre as relações cotidianas, em alguma medida, deu a senha para autores como Bauman ao cunhar o aforismo de que “Nós vivemos, lamento dizê-lo, em uma época de superfícies”.

Bauman vai tratar dessa questão do seu jeito e em uma época, agora, de decadência do sistema. E, no caso, o problema mais sério do seu “jeito” de filosofar sobre nosso tempo tem a ver com sua irrecuperável debilidade ao não procurar determinações para os conceitos. Todos eles – inclusive o mais batido deles, o da fragilidade e liquidez dos laços humanos – são conceitos que pairam no ar. O que tem como resultado o perfil de um autor mais doutrinário que teórico: seus conceitos não são atravessados – no seu olhar - por determinações sociais, econômicas, históricas, nada. Ele fala da “misteriosa fragilidade dos vínculos humanos” e, adotando certa conexão com Erich Fromm, com outros autores igualmente “culturalistas”, ele não se ocupa de perguntar – em profundidade – porque o mundo é como é. Em sua suprema superficialidade defende, no último parágrafo do seu livro “Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos”, a necessidade e urgência de uma “humanidade compartilhada” só que sem abolir o capitalismo, a propriedade privada dos meios de produção, que dilaceram a humanidade. Patronal e trabalhadores juntos tentando “compartilhar” o mundo humanisticamente...

Por conta de tamanha indeterminação, vários insights que ele desenvolve sobre as relações urbanas modernas, no capitalismo em crise histórica, terminam sendo pouco mais que conselhos [wishfull thinking] que beiram o psicologismo indeterminado de Christopher Lash, Sennett e o direitista Daniel Bell, além de outros. Seu horizonte é invariavelmente liberal. Lembra um Habermas piorado, o Habermas que entendia a sociedade como uma “realidade moral” e que alegava que o marxismo não tem uma teoria da democracia e que tais.

Bauman jamais enxerga a possiblidade da esquerda revolucionária, da revolução socialista, embora não se sinta confortável com o horizonte liberal como resposta. O problema, que costuma comprometer tais tentativas ambivalentes de intelectuais do seu perfil é que a realidade política, no mundo real, é inimiga do vácuo. Por isso mesmo ele admite que o neoliberalismo chegou para ficar, e apenas aponta, como estratégia, para reformas... um tanto ou quanto líquidas.

Mesmo quando parece crítico a certos efeitos subjetivos do capitalismo chamado neoliberal [a chamada fragmentação do eu, das relações interpessoais, o novo individualismo ultranarcisista etc] mas renega a questão do poder de Estado, pelo qual manifesta aqui e ali fobia e termina preferindo, no limite, muito mais uma sociedade “flexível” do que a burocracia do chamado “socialismo real”. Ou seja, jamais, tanto Bauman quanto seus colegas, entenderam o stalinismo. Seu sistema é binário: ou aceitar o capitalismo, sob protesto, ou o stalinismo, algum tipo de Big Brother.

Na verdade todos eles, de Gorz, passando por Offe, em um amplo espectro que chega até Bennett e Bauman, acreditam que o trabalho industrial perdeu sua centralidade, que o trabalho chegou ao fim, que se deve lutar pelo não-trabalho [seja lá o que isso signifique] e, ao final de contas, integram aquele leque de autores que florescem em tempos reacionários e de derrotas políticas da classe trabalhadora, como foi o caso dos anos 1970, 1980, seguindo pelos 1990. Derrotistas, encarnam tempos de desalento político, muitos abandonando seu flerte de origem com a revolução e o marxismo, bem no formato que J Petras chamava de “revoada dos intelectuais”. Pensam, em última instância, que o capitalismo pode abolir, “por arte de magia”, como dizia A Callinicos, a classe operária...

Sua sensibilidade de captar novos tempos é, por isso, mutilada, parcial e seus conceitos mais badalados terminam sendo pouco mais que conceitos de uma leveza tão insustentável quanto é, de fato, sua falta de determinações.

Por isso a fragilidade ou liquidez das atuais relações que ele tanto enfoca, termina sendo “misteriosa”. Por isso ele mesmo chega a afirmar que a “perda de identidade” das pessoas e dos trabalhadores [pela fragmentação dos postos de trabalho, diz] gera uma “identidade líquida” que demonstraria, sempre para Bauman, que a exclusão, mais que a exploração é a base do sofrimento e da pobreza hoje. Nada mais longe de Marx. Mas é uma das teses do seu livro “Identidade”. Na verdade, Bauman e todos seus companheiros, como R Sennett, são pouco mais que uma versão particularmente fluida e neoliberal da chamada “pós-modernidade”. Eles são o pensamento da derrota, críticos sem consistência, de fenômenos como a incerteza, a fluidez, a opacidade, a “liquidez” dos relacionamentos do nosso tempo.

São pensadores funcionais para uma universidade acomodada, mais weberiana que marxista ou, para não ir tão longe, que trabalha com as superfícies acima citadas por Oscar Wilde.

Pensam, todos eles, que acabou a era dos grandes projetos sociais, históricos, que o “ser humano” [um conceito ultra-abstrato, diga-se] é livre para decidir o que fazer de sua vida individual, nos marcos da máquina de exploração, mercantilização de tudo e alienação brutal que é o capitalismo.

Como corretamente afirmam alguns pesquisadores da UNAM-México, dentre eles Garza-Toledo, “na visão de mundo de Bauman, o imediatismo da ação individual na vida cotidiana é a principal bússola para poder sobreviver em um mundo basicamente submetido a forças incertas, sem nomes nem apelidos, sem responsáveis identificáveis, nem muito menos grandes forças sociais capazes de marcar as novas tendências”.

Ou seja, a sociedade, os movimentos sociais, as classes, o proletariado, tudo se dilui e se liquefaz e autores como Bauman resvalam diretamente para o mundo dos “direitos do eu interior”. Não há como não lembrar da sua alma-irmã, Holloway, que abraçou a quimera de “mudar o mundo sem tomar o poder” e tantos outros cujo denominador comum – justamente por não enxergarem nenhum sujeito histórico revolucionário - é um amálgama de pessimismo histórico com derrotismo e, obviamente, absoluta descrença na classe trabalhadora.

Seu método de pensar não é mais profundo que suas teses.

Na lógica de Bauman, dizem aqueles estudiosos da UNAM, “o papel do capital transnacional fica obscurecido em prol de um sistema impessoal que se impõe. Isto é, a ´para-pós-modernidade´ é uma versão neoliberal da ´pós-modernidade´, que não assume, ao menos explicitamente, a negação da razão científica. Nessa medida, suas formulações tomam a forma de pseudo-hipóteses científicas que são formuladas através de argumentos e dados escolhidos de forma a afirmar as proposições que se quer”.

No final de contas um castelo de cartas ideológico, eclético, demasiado pessimista e, por isso mesmo, funcional para o capitalismo neoliberal; e construído com cartas demasiado líquidas, vaporosas, para que possa ser levado a sério pela classe trabalhadora e sua vanguarda na luta contra o capital e, portanto, pela derrocada daquilo que está na base de todo e qualquer desalento ou opacidade da vida atual.




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