STALINISMO / FILME "A MORTE DE STÁLIN" /

“A morte de Stálin”: o filme que Putin baniu da Rússia

Gilson Dantas

Brasília

segunda-feira 11 de junho| Edição do dia

A morte de Stálin, filme do escocês Armando Iannucci, acaba de entrar em cartaz no Brasil.

Ponto positivo para quem gosta da sátira política, nos marcos de um filme que gira em torno dos acontecimentos envolvendo a morte e a sucessão do ditador Josef Stalin em 1953 em Moscou.

Ponto negativo para o atual chefe da Rússia, o bonapartista Putin, a quem o filme, que ia circular na Rússia meses atrás, não agradou para nada. Na verdade, incomodou muito. Ele imediatamente tratou de tirar o filme de cena: não pode ser exibido no seu país. A única sessão ocorreu em Moscou e estava lotada, com gente de pé.

Putin, em entrevista ao diretor de cinema Oliver Stone, divulgada em 2017 e transformada em série documental, comparou Stálin a Napoleão e foi taxativo: quem ataca Stálin é inimigo da Rússia.

É um “insulto” à vitória soviética contra o nazismo, e um “desrespeito à nossa história” disse também o funcionário de Putin, Yury Polyakov, vinculado ao ministério da Cultura da Rússia. Outra funcionária de Putin, N Usmanova, também declarou que o filme é o “mais nojento que ela jamais assistiu” e que é “chato, vil , repugnante e insultante”. Membros do PC, stalinista da Rússia, como o parlamentar A Yuschchenko chegaram a descrever o filme como “uma imundície abominável”.

Ou seja, para o grupo capitalista e bonapartista que dirige a Rússia atual, o repugnante, a imundície abominável, o que é insultuoso e nojento, não é Stálin e sim filmes que descrevam Stálin como ele foi, uma das figuras mais repulsivas e genocidas da história. O filme também foi proibido na Belarus, Cazaquistão e Quirguistão.

Já o diretor do filme, Iannucci, retrucou: todos os que viram o filme até agora, incluindo a imprensa russa, disseram que gostaram dele, e sempre dizem que “o filme é engraçado, mas é verdade”.

Histérico e hilário, chocante pelo seu realismo visceral, em alguma medida o filme segue – em termos de comédia do absurdo - os passos do Dr Fantástico de S Kubrick [1964] e, certamente, do Monty Python. Aliás, um dos membros do M. Python participa do filme, na figura de Molotov [Michael Palin].

O filme é uma tragicomédia do poder totalitário, da mediocridade torpe que esse tipo de regime reproduz necessariamente, ao vetar qualquer sombra de oposição ou de pensamento crítico e barrar a democracia proletária.

Essa película foi baseada em uma HQ de Fabien Nury e Thierry Robin. La mort de Staline e narra a luta de bastidores pelo poder entre Beria e Khruschev, envolvendo o desajeitado Malenkov e o general Zhukov. Também mostra os filhos de Stálin, Svetlana e Vasily Stalin, naquele enredo de pura luta pelo poder.

Iannucci é também diretor do filme Conversa truncada, de 2009, onde satiriza o processo de tomada de decisão na cúpula norte-americana para a guerra contra o Iraque.

Fiel ao que se conhece daqueles acontecimentos, o filme A morte de Stálin se empenha em mostrar, de forma cômica, os movimentos da cúpula stalinista, nos dias [o diretor concentrou meses em dias] que se seguem à morte do seu chefe, Stálin.

Para além da diversão que atravessa em várias cenas dessa comédia política, aparece o clima de horror policial e paranoia em que viviam os próprios asseclas do aparato de Stálin: cada um deles, e cada pessoa da Rússia que manifestasse qualquer coisa parecida com um pensamento crítico ao regime, estava ameaçado de ser fuzilado a qualquer momento.

Um regime policial degradado, antípoda do que foi o bolchevismo de Lenin, aparece em cena todo o tempo.

O regime bonapartista de Putin, que vem promovendo e embelezando o ditador Stálin como herói da II Guerra e da nação russa não poderia gostar nem um pouco dessa abordagem. Em certo sentido vai na contramão da propaganda do Putin, também ele, um bonapartista mão-de-ferro que sonha em deter os poderes totalitários do seu “herói” altamente funcional Stálin.

Isso por um lado.

Por outro, certamente uma grande parte da juventude que irá assistir essa sátira política vai se divertir, mas, por conta da ideologia anticomunista da grande mídia, das universidades e de certa esquerda stalinista tipo PC do B, vai imaginar que aquele regime de terror tem algo a ver com Lenin ou com o comunismo. Não que o filme se ocupe dessa questão. Mas, para os desavisados – ou vítimas daquele lavagem cerebral – o que fica no ar é a ideia, de que o comunismo pode ser representado por aqueles torpes e sinistros personagens que o filme mostra dirigindo a URSS.

Medíocres, patéticos e grotescos, aqueles burocratas encarnam, na verdade, uma ditadura genocida que assassinou praticamente todos os seguidores de Lenin, inclusive o dirigente da Revolução Russa, Leon Trotski, além de milhões de trabalhadores e camponeses.

Mas aquela casta de burocratas não é continuação de Lenin e nem da Revolução Russa e sim sua negação dialética e macabra.

***

A ensejo do filme e procurando retomar aquele debate, da não relação entre Stálin e o comunismo, reproduzimos a seguir, algumas ideias sobre o tema.

Os argumentos abaixo, de forma sintética assinalam aquele aparato burocrático, usurpador do poder dos sovietes e da Revolução Russa, em sua lógica histórica e política, como liquidador da direção da revolução mais consciente da história, também a única - no caso, Trotski - capaz de explicar as razões históricas da sua degeneração.

Trotski opinava que, por conta daquele regime autocrático, bonapartista, contrarrevolucionário, a URSS poderia não ter futuro.

Sem democracia proletária, sem uma revolução política que reinstaurasse os sovietes, a URSS pereceria.

Seu entendimento era o de que “a democracia soviética não era um ´agregado´ ao Estado operário, mas uma questão de ´vida ou morte´, e daí a participação dos trabalhadores e dos camponeses não poderia limitar-se a uma eleição regular, mas tinha que traduzir-se em uma participação ativa na direção dos destinos da URSS, tanto no terreno político como no terreno da planificação econômica. A perpetuação da burocracia é incompatível com o avanço ao comunismo, que não pode ser outra coisa senão uma construção consciente” [1].

A construção do socialismo não tem a ver com mais peso do Estado. Tudo ao contrário. Essa não era a concepção de Lenin ou de Marx.

Com a palavra Trotski:
“Qualquer que seja a interpretação que se dê à natureza do atual Estado soviético, uma coisa é inegável: ao final dos seus vinte primeiros anos de existência, está longe de ter ´agonizado´; nem sequer começou a ´agonizar´. Pior ainda, se converteu em um aparato de coerção sem precedentes na história. A burocracia, longe de desaparecer, se transformou em uma força incontrolada que domina as massas. O exército, longe de ser substituído pelo povo armado, formou uma casta de oficiais privilegiados em cujo topo se colocam os marechais, ao passo que o povo que ´exerce armado a ditadura´, ficou proibido inclusive da posse de uma arma branca. A fantasia mais extrema dificilmente conceberia um contraste mais vivo do que o que existe entre o esquema do Estado operário de Marx-Engels-Lenin e o Estado em cuja cabaça encontra-se atualmente Stálin” [2].

A prática política daquela burocracia stalinista era a da pura violência. Não lidava com ideias, nem defesa de qualquer teoria, muito menos marxista ou comunista.
Como argumenta Trotski:

“A burocracia stalinista é alheia não apenas ao marxismo, mas também a qualquer doutrina ou sistema. Sua ´ideologia´ está imbuída de subjetivismo policial; sua prática é o empirismo da violência crua. Em coincidência com seus interesses essenciais, esta casta de usurpadores é hostil a toda teoria: não pode prestar contas de seu papel social nem a si mesma, nem a ninguém mais. Stálin revisa Marx e Lenin, mas não com a pena do teórico, mas sim com a botina da GPU [polícia secreta, NT]” [3].

Esses argumentos de Trotski evidenciam o quanto o autor de A revolução traída [cuja leitura recomendamos] tinha claro que não se transita ao socialismo pelas mãos de uma burocracia que governa em nome do proletariado. Naquele livro e em outros textos, ele também explica a origem histórica daquela burocratização da Revolução Russa.

Trotski segue argumentando o quanto é vazia de conteúdo toda tentativa de comparar stalinismo com bolchevismo:

“O pensamento liberal-anarquista fecha os olhos diante do fato de que a revolução bolchevique, com toda sua coerção, significou um deslocamento de todas as relações sociais em favor das massas, enquanto que o deslocamento stalinista termidoriano acompanha a transformação da sociedade soviética em função do interesse de uma minoria privilegiada. Fica claro que na identificação do stalinismo com o bolchevismo não existe um rastro de critério socialista” [4].

Por isso podemos arriscar dizer que, para além da sátira política do diretor escocês Iannucci, bons filmes ainda virão, com a capacidade, finalmente, de iluminar, com a consciência histórica, marxista, aquela “meia noite” no século, aquele retrocesso contrarrevolucionário stalinista, processo já tão brilhantemente analisado por Trotski.

Referências:
[1] P. 17 do livro La revolución traicionada y otros escritos, 2014 [Prefácio de C Castillo e M Maiello]
[2] P. 71 do livro La revolución traicionada y otros escritos, 2014.
[3] P. 351 do livro La revolución traicionada y otros escritos, 2014, mais especificamente do texto Outra vez sobre a questão do bonapartismo, de 1935.
[4 ] P. 350 do livro La revolución traicionada y otros escritos, 2014, mais especificamente do texto Estalinismo y bolchevismo, de agosto de 1937.

[Todos os excertos acima constam do livro La revolución traicionada y otros escritos, de L. Trotski, publicada em 2014 pelo Ceip L Trotsky/Museo Casa León Trotsky, Buenos Aires/México].




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