TEORIA / Subjetividade e revolução

A mesmice, a rotina do cotidiano e a ação política: na opinião de Perry Anderson

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 14 de fevereiro| Edição do dia

Indagado sobre o que é que leva as pessoas a se politizarem, Perry Anderson destaca como um fator importante o mal-estar com a vida rotineira, dominada pela mesmice, que muita gente leva. E que essa sociedade, nas relações do dia-a-dia, nos impõe.

Mesmo pessoas que têm a vida segura, remediada, resolvida materialmente, podem terminar, por sua sensibilidade, se indispondo com essa situação rotineira, cada vez mais subjetivamente percebida como enfadonha, como mais do mesmo, e daí se engajarem em uma ação política, em uma nova consciência, crítica.

É um elemento universal: não nascemos para a repetição, não somos monotonais, não somos inelásticos, nosso espírito é tudo menos uma “essência” congelada no tempo. Daí a reação ao tédio da vida cotidiana.

Essa é outra maneira de dizer que o comunismo e a luta por uma nova sociedade é uma necessidade “do real”. Não é uma construção de Karl Marx que tenha qualquer dimensão utópica. Ao contrário. Ele captou uma contradição que emerge das relações sociais realmente existentes.

Se se tratasse de uma utopia, não nasceria das condições reais de vida, da nossa vida em uma sociedade que nos atomiza, nos aliena e nos engessa em uma existência sem grandes sensações ou sentido. Travando nossa própria e infinita criatividade. E entediando a muitos, e a todo um setor da juventude.

Quem não lembra daquela formulação de Engels, no seu livro Anti-Dühring, de que nossa grande contradição – existencial, digamos – é a de que ao mesmo tempo em que somos seres finitos, também somos infinitos, no pensamento, no sentimento, na ausência de qualquer fronteira para o pensamento humano? Não somos caixinhas, mônadas.

É um pouco disso o que Perry Anderson está tratando no vídeo abaixo.

Lá, ele argumenta que a necessidade de pertencimento a uma coletividade maior é natural, é própria e é imanente aos seres humanos. Somos “gregários”, somos “seres sociais”, dirão os antropólogos; mas é muito mais que isso.

E o fato – primeiramente analisado magistralmente por Marx – de que a vida na sociedade fetichizada pelo dinheiro tende a nos atomizar e nos levar, eventualmente, a sentimentos de auto-mutilação e de auto-destruição, isso é uma dimensão factual da vida como a conhecemos. Mas este ser humano travado em sua potencialidade viva, dialética, não somos nós, não somos nós na condição de seres emancipados, naquele sentido destacado por Perry Anderson: o da indiscutível necessidade universal de pertencimento a uma comunidade. Este elemento está sendo abafado ou fraturado de alguma maneira.

Mas vale a pena refletir um pouco mais: se aquele sentimento profundo de pertencimento brota do real, se brota apesar da nossa vida em uma sociedade tão massacradora da nossa subjetividade no campo das relações sociais, com imaginar que o comunismo não é uma “necessidade do real”? Que não é uma tensão potencial que aflora a partir daquelas contradições do real? E que as relações capitalistas, fetichizadas, não fazem mais que sufocar, abafar?

Para os marxistas - como Perry Anderson - é fato que não iremos a uma sociedade superior, na qual o nosso potencial humano e criativo se liberte e se emancipe das trevas e da gaiola de ferro do capitalismo, sem que liquidemos, como classe, a resistência brutal - também de classe - que os donos do poder vão oferecer, aliás, que sempre têm oferecido diante de todo intento revolucionário.

Tudo bem. Mas sendo um fato que uma sociedade consciente, finalmente livre do constrangimento das relações capitalistas, só pode ser conquistada pela arma da força física da classe trabalhadora, é igualmente verdade que a primeira força, nossa grande força moral, é a da consciência da nossa força. Do poder da classe trabalhadora quando age como um coletivo político. As armas da crítica conduzindo à crítica armada, diria Marx.

O argumento de Perry Anderson ganha força total quando ele desenvolve aquela reflexão sobre o empoderamento individual e coletivo, inseparáveis ambos, a partir do momento em que nos engajamos, com nossos coletivos, na luta comum contra toda forma de opressão.

Aqui sua tese ganha o centro do palco: o engajamento na política, na ação política, vem de algo ainda mais profundo do que o pertencimento a uma comunidade.
Vem da parceria ou da união que aflora e que só pode ser encontrada na ação política: que cria a sensação de ganho de poder, isto é, do indivíduo que, de repente, percebe que se sozinho não muda nada, mas que “com meus camaradas e simpatizantes, sim, posso mudar o mundo”!

Temos aqui um volume de forças em estado nascente.

A partir daqui, dessa percepção [tomada de consciência] brota uma tremenda liberação de energia.

As pessoas se transformam quando percebem do que são capazes.

Nesse ponto da argumentação, P Anderson cita o exemplo mais emocionante, o de um dos líderes da Revolução Russa, Trotski, que dedica um capítulo inteiro de sua autobiografia para descrever não as ruas, ou as lutas de rua, mas sim como ele e seus camaradas passaram a sentir, em sua profundidade e plenitude, o que significava estar engajado naquele processo transformador, de massas. Ou como dizia R. Luxemburgo, a “revolução é tudo”. É o todo abarcado na síntese das sínteses, a que se expressa na luta revolucionária por uma outra sociedade sem exploração, sem opressão.

Mas vamos ao próprio Perry Anderson. O primeiro vídeo abaixo, intitulado “A força da coletividade política” é o título de um fragmento da entrevista de Perry Anderson ao canal Fronteiras do Pensamento [Direção e Edição Marcio Reolon], de anos atrás. Você pode conferir.

E se lhe interessar, também assista ao depoimento de duas companheiras lá do movimento operário do ABC, das greves de 1979 e 1980, em SP, sua fala quando entrevistadas décadas depois. Sintam a força humana profunda dos seus depoimentos como lutadoras. E emocionem-se com a percepção delas da força que a ação da sua classe produziu em sua subjetividade pessoal.

Constate, na fala das duas companheiras operárias, que aquilo que ficou na sua memória, mesmo muito tempo depois, foi a sensação de empoderamento político à qual Perry Anderson se refere no seu vídeo.

Portanto, estamos falando da mesma coisa, da força que emerge da coletividade política, de classe em ação, o que nos remete para algo muito maior do que a vida cotidiana no capitalismo.

Esse algo maior e universal, que se desprende “do real” – como dizia Marx – que outra coisa pode ser senão a aspiração por uma sociedade comunista?
[Crédito de imagem, modificada: www.news.softpedia.com news]
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Confira o vídeo abaixo, de 3 minutos [do canal Fronteiras do Pensamento], onde Perry Anderson responde àquela questão de porque nos politizamos:

Confira também a entrevista das duas operárias de São Paulo, em trecho do documentário “Peões”, de Eduardo Coutinho:




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