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NORDESTE

A maior das secas dos últimos 100 anos no Nordeste

sexta-feira 14 de outubro| Edição do dia

Sobre as secas no Nordeste foram escritos livros memoráveis (“A Bagaceira” de José Américo, “O Quinze” de Rachel de Queiroz e “Vidas Secas” de Graciliano Ramos são exemplos), foram compostas e cantadas tristes canções, bem como poemas e causos contam histórias que enfeitaram os folhetins dos cordéis.

A estiagem enquanto fenômeno climático faz aflorar o fenômeno social da Seca e desnuda a contradição de classe nos Sertões do Nordeste, faz visível as relações sociais de produção/exploração. Historicamente a falta de chuva atinge profundamente as formas de produção e reprodução da população do interior nordestino, que tem na base de sua economia, em grande medida, a agricultura e pecuária.

Desde o final do século XIX, e ao longo do século XX há um aparente esforço de intervenção do Estado no Nordeste por conta das Secas, atitudes como a construção de açudes e barragens, investimento de recursos, criação de órgãos específicos “Contra as Secas”. No entanto em meados do século XX o termo “industria da seca” já tinha sido cunhado, e significava a apropriação por parte das classes dominantes, para uso econômico e político, dos recursos emergenciais de socorro, dos açudes “públicos” construídos em propriedades privadas, etc. com claros benefícios para políticos e proprietários de terra, em detrimento dos demais habitantes dessas terras.

A partir da década de 1950 o estudo “Um Politica de Desenvolvimento Econômico para o Nordeste” do Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste – GTDN, mas na realidade produzido por Celso Furtado, e posteriormente a atuação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE, tira a centralidade da Seca do problema nordestino. Atribuindo ao atraso industrial a natureza dos problemas.

Desse modo a atuação estatal nas décadas seguintes tinham por foco industrializar a região, e assim resolver todos os problemas, quase que magicamente. Não foi o que se verificou, na década de 1980, mesmo que a economia na região tivesse se transformado, o aspecto social não acompanhou essa evolução e a Seca, enquanto problema econômico e social não deixou de existir.

Com o neoliberalismo a partir dos anos 1990, as políticas de desenvolvimento regionais foram praticamente abandonadas e os órgãos de desenvolvimento como a SUDENE esvaziados financeiramente e politicamente.

Os governos petistas, a partir de 2003, propuseram, ao menos no discurso, uma nova politica de desenvolvimento para a região Nordeste, que desde o incio mostra seus limites. Não se pode negar que houve um relativo avanço no que se refere a convivência com o Semiárido através dos investimentos e a atuação em parceria com a rede de organizações Articulação no Semiárido Brasileiro – ASA, longe de enfrentar a natureza do problema que é a propriedade e concentração da terra.

Desde 2012 vivemos uma das maiores secas da história da região, comparável à de 1910-1915. Há, atualmente, em todos os Estados nordestinos, cidades em estado de emergência. Enquanto alguns grandes jornais burgueses estão muito mais preocupados com a geração e abastecimento de Energia elétrica, do que com o abastecimento de água da população em geral.

Nos grandes centros urbanos é preciso um plano emergencial para enfrentar a crise hídrica com objetivo entre outras medidas de colocar à disposição dos bairros pobres a água dos gastos supérfluos, de piscinas e clubes, implementar um plano de obras públicas controlado pelos trabalhadores, sindicatos e associações de bairros para construir poços artesianos nas periferias, construir novos sistemas de abastecimento e tratamento, estatizando no plano nacional todas as empresas de coleta, tratamento e distribuição de água, colocando-as sob a administração dos trabalhadores que as fazem funcionar em aliança com a população de cada região.

Nas cidades pequenas e nas áreas rurais é preciso pensar em estratégia para que, mesmo que via Carros Pipa, seja acessível ao conjunto da população água de qualidade com distribuição regular, longe dos abusos que vem sendo cometidos. Além da ampliação dos projetos de convivência com o Semiárido, sem contar com a democratização dos meios de produção no campo, ou seja o acesso a terra.

Enquanto isso o governo golpista de Temer, por sua vez, está preocupado em como a seca vai afetar sua imagem em uma região onde é impopular, e já pensa em uma campanha publicitária direcionada ao Nordeste informando sobre a previsão de a estiagem continuar em 2017.




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