Mundo Operário

CAMPANHA PELA READMISSÃO DE ANDREIA

A luta de Andreia contra as arbitrariedades da JBS e em defesa dos trabalhadores

Após amargar duas quedas significativas em suas ações esse ano, uma por envolvimento na Lava Jato, outra pela flutuação cambial, a gigante da carne JBS, dona das marcas Friboi, Seara e outras, adotou uma nova estratégia financeira e chegou a ter alta de 27,5% em um dia. Uma de suas principais características, o desrespeito às leis trabalhistas, contudo, também continua em alta e em abril a empresa foi condenada a pagar multa de quase R$ 2 milhões por trabalho infantil. A operária Andreia Pires, demitida por justa causa pela JBS é um exemplo de como a empresa trata aqueles que a contestam.

sexta-feira 10 de junho de 2016| Edição do dia

O balanço negativo no primeiro trimestre, em R$ 2,74 bilhões, devido a variação cambial, foi ofuscado pelo anuncio de uma reorganização institucional da maior empresa de carne do mundo, a JBS, que de imediato valorizou suas ações. A manobra consiste em criar uma empresa sediada na Irlanda, que será JBS Internacional, passando a atual JBS S.A a se chamar JBS Brasil. A vantagem é que as ações da JBS Internacional serão cotadas na bolsa de Nova Iorque, o que segundo analistas deve fazer a empresa ser percebida como americana, gerando mais confiança, além de diminuir a influência da desvalorização das oscilações cambiais e da situação política e econômica no Brasil. As ações subiram 27,5%, a maior alta desde 2008.

A unidade da JBS de Osasco (SP) é uma das mais valiosas no país, pois é fornecedora direta de hambúrgueres para grandes redes de fast-food, como Mc Donald’s, Bob’s e Burguer King, além dos produtos da marca Seara, vendidos em supermercados, tais como empanados (mini-chickens) e fatiados (mortadela, salame). No terceiro turno (madrugada) a produção para, as máquinas são desmontadas e lavadas com produtos químicos corrosivos e água-fervente. Ali trabalhava, há três anos, Andreia Pires. Ela almejava trabalhar como inspetora de qualidade, curso concluído pelo Senai de Osasco, mas um dia foi chamada para conversar com o supervisor e desde então nunca mais se recuperou totalmente.

Em janeiro de 2015 Andreia foi demitida por justa causa. O motivo alegado pela empresa foi acúmulo de suspensões – medida disciplinar aplicada ao funcionário que comete falha considerada grave. A última suspensão que Andreia havia recebido fora dois dias antes, por ter saído 1h mais cedo do trabalho. Além de chamar atenção o fato da empresa ter demorado dois dias para perceber a “falha grave”, o suposto “abandono de posto de serviço” havia sido combinado com seu superior, prática comum segundo funcionários da empresa.


Foto: trabalhadores da JBS Osasco manifestam seu apoio à Andreia

Propaganda milionária a serviço de que mesmo?

Na televisão, no metrô, na internet, a qualquer momento, é difícil ficar um dia sem ver uma propaganda das marcas da JBS. A maior processadora de carnes do mundo também está entre as que mais investem em publicidade. Em 2016 a empresa aprofundou e ampliou uma estratégia que vinha de 2014, quando investiu R$ 24 bilhões em propaganda, que consiste em atrelar suas marcas centralmente à rede Globo. Os programas “Academia da carne” e “Hoje tem frango”, contam com âncoras como Ana Maria Braga e Fátima Bernardes, são produzidos em parceira com a Globo e transmitidos pela internet.

Os altos investimentos em publicidade desde o início tinham por objetivo não só instalar o conceito de marca no ramo da carne, no caso da Friboi, com Tony Ramos à frente, mas também de contrabalancear as fortes “propagandas negativas” amplamente difundidas sobre a empresa, pelas condições de trabalho degradantes e altamente nocivas, tais como o documentário Carne e Osso, produzido em parceira com a Globo News, havia retratado. Não à toa foram até o fim no “desafio contratual” que foi converter Fátima Bernardes, que pela condição de jornalista, que “transmite a verdade”, não poderia ser garota propaganda, em embaixadora da marca Seara (veja mais aqui). Tanta propaganda por um lado e não cessam, por outro, as notícias reais. Em abril passado a JBS foi condenada em ação movida pelo Ministério Público do Trabalho de Criciúma (MPT), SC, a pagar R$ 1,075 milhão de multa e mais R$ 500 mil por danos morais devido a uma fábrica da marca Seara em Forquilhinha contratar empresa que explorava mão de obra infantil no processo de pega de frangos. A denúncia do MPT ainda aponta que o trabalho era feito durante a noite.


Foto: manifestação na Av. Paulista pela reintegração de Andreia

Com tanta relação com os governos, pode não ter envolvimento em corrupção?

Apesar desse esforço todo, em janeiro desse ano a empresa foi denunciada pelo Ministério Público por crime contra o sistema financeiro após manobras ilegais com o Banco Rural, e também apareceu em anotações do ex-presidente da Petrobrás e delator da Lava Jato, João Roberto Costa, citando valores recebidos da empresa a serem repartidos. A empresa já havia aparecido nas investigações da Lava Jato após serem identificadas doações feitas para uma empresa de fachada do doleiro Carlos Habib, preso em 2015. Em maio desse ano a esposa e sócia do marqueteiro Sérgio Santana, ambos presos durante a 23ª fase da Lava Jato, disse que a empresa pagou “caixa 2” para o PT durante a campanha pela reeleição de Dilma. Além desses vários casos que não se resolveram, existe ainda um pedido do Tribunal de Contas da União (TCU) para que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) repasse todos os processos de concessão à JBS para serem analisados (veja mais aqui), mas esse pedido não foi atendido ainda. Trata-se de uma “bomba relógio” que aguarda ser armada para explodir.

Como já dissemos aqui, é falsa a história sobre o filho de Lula ser dono da JBS, mas isso não a faz menos ligada ao governo federal, inclusive ao governo golpista atual, que tem em um de seus nomes fortes, Henrique Meirelles, ministro da economia, ex-membro do conselho da J&F, controladora da JBS. Em seu antigo emprego Meirelles impulsionou o Banco Original, um pequeno banco controlado pela JBS para fazer empréstimos aos seus fornecedores de gado, estando à frente pessoalmente da criação desse que passou a ser primeiro “banco digital” do país, Meirelles não foi o próprio garoto propaganda do lançamento do banco porque já estava muito cotado para assumir o ministério da economia no governo Temer. Outra mostra de como essa “campeã nacional” participa da vida política do país foi o apoio crucial que recebeu do CEO global da JBS, Wesley Batista, o novo ministro da indústria, Marcos Pereira, que era rejeitado pela FIESP e CIESP, como falamos aqui.


Foto: panfletagem da Secretaria de Mulheres do Sintusp, grupo de mulheres Pão e Rosas e Movimento Mulheres em Luta, na JBS Osasco em defesa de Andreia

Voltando ao caso de Andreia Pires...

A dedicação com que Andreia encarava seu trabalho, higienização pré-operacional, era reconhecida por todos os colegas e até pela própria empresa, que alguns meses antes havia proposto a ela que assumisse posição de líder do turno – ela recusou. Não era somente com a higiene dos alimentos a serem produzidos que Andreia se preocupava, candidata eleita entre os mais votados para a CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), ela também estava sempre atenta aos riscos que o trabalho oferece. Entre os funcionários do terceiro turno é extremamente comum marcas de queimadura nas mãos devido ao poderoso sabão que escorre por entre as luvas ou ainda a chamada “conjuntivite química”, causada quando o produto entra em contato com os olhos. Conforme as mangueiras de alta pressão jorram água fervente a fábrica fica um completo vapor e não se enxerga poucos metros à frente, propiciando tropeços e quedas – apurou o Esquerda Diário em conversa com vários trabalhadores.

Durante sua atuação como cipeira Andreia passou a ser uma “mosca na sopa” para a JBS, reconhecida amplamente como empresa recordista em acidentes e doenças de trabalho. Mesmo com o índice de subnotificação de acidentes de trabalho ser considerado elevadíssimo, entre 90% a 95%, segundo o procurador Heiler Ivens de Souza Natali, coordenador nacional do Programa de Adequação das Condições de Trabalho nos Frigoríficos, em quatro anos a média da empresa foi de 5 acidentes por dia, deixando 7.822 trabalhadores doentes ou incapacitados para o trabalho. A situação teria se tornado insustentável para a JBS quando Andreia, junto a outros trabalhadores, organizou um abaixo assinado questionando a cobrança de refeições que a empresa estava prestes a implementar. Ocorre que a planta de Osasco pertencia à Marfrig, proprietária da marca Seara até 2013 e, portanto, uma série de “adequações” ao padrão JBS estavam sendo feitas na unidade, tais como redução do quadro de funcionários, mudança do convênio médico, que passou a ser muito mais caro, fim do convênio odontológico e outras questões menores, mas também sentidas no dia a dia pelos trabalhadores.


Foto: abaixo-assinado questionava cobrança de refeições

Entre as adequações que mais geraram revolta estava a cobrança das refeições, considerando que o cardápio também havia sido reduzido. Os trabalhadores relatam que passaram a comer os hambúrgueres por eles mesmos produzidos, as unidades com defeito estético, todos os dias, o que significa que a empresa estava economizando na compra de refeições, mas mesmo assim anunciou o desconto mensal em folha de R$ 28 reais – na época correspondente a cerca de 30% do salário da maioria que trabalhava ali. Em poucos dias o abaixo-assinado percorreu todos os turnos e chegou a cerca de 250 assinaturas, sendo que haviam na época em torno de 350 trabalhadores na produção. O texto do abaixo assinado pedia uma reunião da empresa com os funcionários para discutirem a situação. Nesse momento é que ocorre a demissão de Andreia.

Lutar é preciso!

Embora Andreia tenha passado por inúmeras dificuldades nesse um ano e meio desde a sua demissão, a principal delas o desemprego, ela conta que não desistiu de fazer justiça e buscar seus direitos arrancados pela JBS. Durante esse tempo ela contou com o apoio dos amigos e também do Esquerda Diário, construindo uma campanha de denúncia da empresa e em defesa de Andreia (veja aqui). Ela conta que participou de muitas panfletagens na porta da fábrica e outras atividades, está aliviada porque a audiência do seu processo está chegando, mas “não podemos esperar que a justiça resolva tudo por nós, por isso segui na luta, fizemos manifestação e vou continuar lutando, por todos os trabalhadores, contra todo esse desrespeito e exploração que agente sofre”.

Veja aqui a entrevista de Andreia no programa Virando a Mesa:




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