Política

OPINIÃO

A luta das mulheres contra a extrema-direita é também contra a polícia

domingo 23 de setembro| Edição do dia

As mulheres ao redor do mundo tem protagonizado diversas lutas contra expressões da extrema-direita, como Trump, ou sido linha de frente dos ataques de Macri junto ao FMI na Argentina, além da multitudinária luta pela legalização do aborto. No Brasil, a polarização nacional marcada pelas eleições manipuladas pelo Judiciário e tuteladas pelas Forças Armadas, que tem como expressão de extrema-direita Bolsonaro e suas recorrentes declarações machistas, racistas, lgbtfóbicas e profundamente anti-operárias, fez com que fossem justamente as mulheres as que provavelmente vão decidir as eleições e que evidenciam nas redes sociais a necessidade do combate à extrema-direita.

No próximo sábado, dia 29, manifestações estão sendo convocadas em todo o Brasil contra Bolsonaro, mas se permitirmos que nossa energia sirva de água no moinho da conciliação do PT com os golpistas, ou para dar credibilidade e confiança para a polícia, as mulheres não farão mais do que tornar sua própria força inofensiva ao capitalismo. Essa força apresentada pelas mulheres deve também questionar o aparelho repressor do Estado, a polícia, que na boca de Bolsonaro ou mesmo do PT, que acredita numa polícia supostamente antifascista, são instrumentos para reprimir os trabalhadores na sua luta por direitos contra os ataques dos governos, matar os filhos das mulheres negras e pobres, como Marcos Vinícius e Maria Eduarda, exterminar e encarcerar a juventude negra e conter o potencial explosivo das mulheres em luta por seus direitos.

A polícia é inimiga das trabalhadoras e trabalhadores

A polícia possui uma função social: a proteção da propriedade privada, dos capitalistas e da sua ordem. O faz utilizando a violência contra os trabalhadores, a juventude, e o povo, sobretudo os pobres e negros. Ou seja, cumprem um papel reacionário por definição, à serviço da dominação capitalista em sua essência, são o braço armado do Estado.

Como cães de guarda da burguesia, possuem uma lealdade estrutural à propriedade burguesa, o que por sua vez faz com que ela seja completamente antagônica às demandas e necessidades das mulheres trabalhadoras, e por isso defendemos que a luta das trabalhadoras e trabalhadores precisa ser organizada de forma não apenas independente, mas contra o Estado. Na obra “Estado e Revolução” de Lênin, um dos principais dirigentes da Revolução Russa de 1917, sintetiza a utilidade do Estado: “Como o Estado nasceu da necessidade de refrear os antagonismos de classes, no próprio conflito dessas classes, resulta, em princípio, que o Estado é sempre o Estado da classe mais poderosa, da classe economicamente dominante que, também graças a ele, se toma a classe politicamente dominante e adquire, assim, novos meios de oprimir e explorar a classe dominada”. Pois bem, a polícia se encarrega da repressão por meio da violência.

Não fazem parte da classe trabalhadora, o produto de sua atividade é o genocídio da população negra e a repressão sistemática das mobilizações da classe trabalhadora e da juventude. Receber salário não torna a polícia parte da classe trabalhadora, já que não tem nenhum papel na produção material da vida e, pelo contrário, tem mandato da burguesia para atuar contra os verdadeiros produtores, para dissolver assembleias, reprimir greves, e mesmo matar em defesa a propriedade privada capitalista. Trotsky dizia que um poliial é um burguês armado, e tem toda razão. Sua atuação evidencia sua razão de existência, basta lembrar de Claudia e Luana, mulheres negras assassinadas pela polícia. Ou até mesmo Marielle, assassinada pelo Estado por denunciar suas atrocidades. Não são trabalhadores, como pontua Simone Ishibashi: “Não ensinam, como os professores, não salvam vidas, como os trabalhadores da Saúde. O “produto” do seu trabalho, sobretudo em grandes cidades como o Rio de Janeiro é bem explícito: crianças, mulheres, trabalhadores e jovens negros e pobres humilhados cotidianamente e assassinados. Isso os coloca em oposição aos trabalhadores, pois seu papel é contrarevolucionário por definição. Uma abordagem centrada no argumento de que “recebem salário” é, portanto, errada para definir se são aliados dos trabalhadores e suas lutas.”.

A polícia que assassinou Claudia, Luana, assassina também os filhos das mulheres negras nas periferias, como Maria Eduarda que brincava dentro da sua escola, ou Vanessa com apenas 10 anos. Recentemente, a polícia assassinou um bebê de apenas 1 ano no Morro do Alemão. As “policiais mulheres” cumprem esse mesmo papel, são nossas inimigas de classe.

As revolucionárias e revolucionários precisam batalhar portanto para que tanto no próprio movimento de mulheres, quanto operário e de juventude, a confiança no aparato repressivo seja minada, em um trabalho estratégico que prepare para desarmá-la e dissolvê-la nas futuras situações revolucionárias, o que hoje consiste em combater qualquer tipo de ilusão a seu respeito. Este trabalho faz parte de preparar as trabalhadoras e trabalhadores para a necessidade de destruição do Estado burguês, onde necessariamente as forças repressivas terão de ser enfrentadas, e os trabalhadores terão que organizar sua defesa de forma independente do aparato repressivo para arrancar-lhes o poder e abrir espaço para um novo mundo, construindo um governo de trabalhadores que possa romper com o capitalismo. Qualquer ilusão e aliança construída com a polícia coloca em evidência o desinteresse em preparar este enfrentamento, o único que pode realmente resolver as mazelas estruturais do capitalismo, do qual são as mulheres trabalhadoras, em especial negras, as principais atingidas.

O mito da polícia antifascista do PT e do PSOL

Não é possível unificar as forças com uma “polícia antifascista”, como defendem o PT, o PSOL e o MST para as mobilizações contra Bolsonaro, já que não existe qualquer movimentação da polícia que não defenda estruturalmente sua função social, a repressão dos trabalhadores e da juventude, que pagam com as suas vidas.

Esta é uma enorme cilada para qual a energia das mulheres não pode ser canalizada. Independentemente de também existirem mulheres na Polícia, ou de eventuais decisões individuais de ruptura com a corporação, sua função social não é alterada. Em Natal - RN, sua atuação empilha corpos da juventude negra na Zona Norte e semanalmente reprime espaços de entretenimento da juventude.

Na semana passada, Rodrigo Alexandre da Silva Serrano levava um guarda-chuva na mãos, enquanto voltava para sua casa com a carteira de trabalho renovada, tinha acabado de conseguir um emprego e foi assassinado porque a polícia “confundiu” o guarda-chuva com um fuzil. O Estado escravocrata brasileiro transforma qualquer coisa em pretexto para derramar mais sangue trabalhador e negro pelas mãos da polícia e não merece nem um pingo de confiança das mulheres.

A Polícia está à serviço do Estado, definido por Marx no Manifesto Comunista como “o balcão de negócios da burguesia”, serve unicamente para garantir a nossa exploração. Desta forma, tampouco o programa de desmilitarização da Polícia, defendido pelo PSOL e pelo PT, e também pelos supostos policiais “antifascistas”. A desmilitarização da polícia, defendida por alguns setores devido ao ódio legítimo contra a política militar, não vai resolver o problema, uma vez que as contradições no capitalismo seguirão sendo resolvidas pela política armada contra a população oprimida: como demonstra a polícia dos Estados Unidos, que é desmilitarizada e uma das mais assassinas do mundo. No Brasil, as guardas municipais e metropolitanas tampouco são militarizadas, o que não as torna menos assassinas. Um dos bastiões de tortura da Ditadura Militar, o DOPS, por exemplo, era comandado pela Polícia Civil.

O real combate à extrema direita só pode se dar pela organização independente das mulheres, da juventude, dos negros, LGTBs em unidade com os trabalhadores. Não podemos nutrir esperanças seja na polícia que é parte desse estado repressor, seja em no mal menor representados por Haddad do PT ou mesmo Ciro do PDT que buscam conciliar com os interesses dos patrões e dos golpistas, o que significará para as mulheres mais trabalho precário, desigualdade salário e não vão legalizar o aborto.

Contra o pacto de unificação com a direita, oferecido pelo PT, a única forma de seguir lutando contra o golpe institucional, é exigir dos sindicatos e organizações populares que lutem por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana.

Uma Assembleia que possa discutir o não pagamento da dívida pública, a revogação imediata e integral de todas as reformas do governo golpista de Temer e dos governos anteriores, a eleição dos juízes pelo voto popular bem como sua revogabilidade, o julgamento de todos os casos de corrupção por júri popular, o elementar direito ao aborto legal, seguro e gratuito e todas as medidas que possam fazer com que sejam os capitalistas que paguem pela crise, e que imponha a vontade das maiorias populares contra mais um pacto com golpistas e escravistas que pretende descarregar a crise sobre nossas costas. Somente a luta independente dos trabalhadores pode enfrentar o golpe, pois os de cima como o PT estão conciliando com os golpistas e capitalistas.

Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas chamamos todas a conhecer nossas ideias para lutar contra o capitalismo e seu Estado burguês, pela legalização do aborto, contra a desigualdade salarial entre homens e mulheres, brancos e negros, que faz com que as mulheres negras ganhem 60% menos que um homem branco, por um feminismo socialista para derrubar as estruturas do patriarcado que passa por preparar a destruição do capitalismo de maneira revolucionária pela classe trabalhadora: para isso, é indispensável a construção de um partido revolucionário dos trabalhadores, das mulheres, dos negros e dos LGBTs, que tire as lições da tragédia da conciliação de classes do PT.




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