Teoria

MARXISMO

A literatura segundo Marx e Engels:

Afonso Machado

Campinas

terça-feira 13 de setembro| Edição do dia

No conhecidíssimo prefácio à sua obra Para a Crítica da Economia Política(1859), Marx apresentou uma bussola para o entendimento das relações entre a produção material e a produção espiritual das sociedades humanas ao longo da história: (...) “ Com a transformação da base econômica, toda a enorme superestrutura se transforma com maior ou menor rapidez. Na consideração de tais transformações é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; em resumo, pelas quais os homens tomam consciência desse conflito e o conduzem até o fim “(...). É neste pedacinho do banquete teórico de Marx, que os escritores confirmam sua suspeita criadora: enquanto áreas da superestrutura, a arte e a literatura estão entre as formas que contribuem para que os homens, de uma determinada época, tomem consciência quanto aos conflitos entre as classes sociais. De que maneira Marx e Engels nos ajudam a explicar a influência política da literatura?

Mesmo sem terem sido propriamente teóricos da literatura, Marx e Engels apresentaram fecundas observações estéticas e políticas que nortearam o trabalho de muitos escritores de esquerda; e isto vale tanto para um autor militante do século XIX quanto para um escritor socialista dos nossos dias. Obviamente que tais observações realizadas pelos pais do socialismo científico, não podem ser tomadas como evangelhos materialistas: seria uma piada considerar a dupla de pensadores comunistas como gurus que apresentam todas as respostas prontas para os dilemas da arte e da literatura; afinal de contas, ambos escreveram seus comentários num contexto marcado pelas escolas literárias oitocentistas, sendo que as transformações técnicas e as necessidades artísticas do século XX acabaram por exigir dos marxistas novas considerações sobre novos problemas. Alguns marxistas fizeram uso de cartas e fragmentos de obras da dupla comunista com o intuito de criar um molde para a literatura revolucionária. Lukács, por exemplo, tentou confirmar sua a tese resumida em um realismo de bitola, fazendo uso dos textos de Marx e Engels. Separando o joio do trigo, isto é, separando a fecundidade teórica que Marx e Engels apresentam para a literatura, da estética lukacsiana(cujo relógio parou nos procedimentos do realismo tradicional e não despertou para a modernidade artística) vejamos como um escritor militante pode se beneficiar com observações que datam dos primórdios do materialismo histórico.

Talvez o aspecto mais rico e ao mesmo tempo mais polêmico das observações críticas de Marx e Engels, esteja na questão da literatura de tendência: o que está em questão é a maneira como a obra literária exprime uma tendência política, revelando os conflitos históricos fundamentais e contribuindo assim para a tomada de consciência sobre as contradições de uma época. Em uma carta de Engels endereçada à Minna Kautsky , escrita em 26 de novembro de 1885, o teórico comunista comenta o romance Os Velhos e os Novos, escrito por Minna. O ponto crucial da carta encontra-se na maneira como Engels concebe a intencionalidade política no gênero do romance: (...) “ É evidente que a Senhora experimentava a necessidade de publicitar as suas convicções, de fazer sua profissão de fé diante do mundo. Mas a Senhora já o fizera e não há por que repeti-lo. Não sou, em absoluto, contrário à poesia de tendência enquanto tal. Ésquilo e Aristófanes, respectivamente pais da tragédia e da comédia, foram poetas claramente tendenciosos, assim como Dante e Cervantes; e o principal mérito de Intriga e amor, de Schiller, reside em ser o primeiro drama alemão de tendência política. Os modernos escritores russos e noruegueses, autores de excelentes romances, são, sem exceção, autores de tendência. Mas eu sou da opinião que a tendência deve surgir com naturalidade das situações e da ação, sem que seja necessária a sua exposição especial; e penso que o autor não está obrigado a apresentar ao leitor a futura solução histórica dos conflitos sociais que descreve “(...).

Que o leitor perdoe o tamanho desta transcrição da carta de Engels, mas acontece que nela encontram-se observações que são definitivamente porretas para orientar o trabalho dos escritores de esquerda: muita porcaria não teria sido escrita no gênero do romance político, se escritores marxistas tomassem conhecimento deste tipo de análise empreendida por Engels. Quer dizer, considerando o papel da literatura empenhada em defender uma tese política(inclusive em outros trechos da mesma carta, as qualidades da escrita de Minna Kautsky são acentuadas) , Engels exige uma exposição nada artificial das situações e das ações dos personagens intrínsecas ao enredo do romance: a narrativa necessita de naturalidade e logo de verossimilhança , que são elementos a serem considerados quando um autor deseja expor sua posição política. Mesmo num romance moderno, que desafia a linearidade e insere novos recursos de linguagem para tratar dos problemas sociais, estas considerações são importantes para que o leitor realize uma apreensão crítica daquilo que é narrado . Isto serve inclusive para o jovem escritor militante: quando este tenta exprimir convicções políticas num texto de ficção, a primeira tentação é forçar a barra das situações apresentadas na narrativa e atropelar tudo com a ideia política revolucionária. Isto faz lembrar o que Plekhanov disse: (...) “ O artista expressa seu pensamento por meio de imagens, enquanto o publicista comprova suas ideias com argumentos lógicos. Se um escritor emprega argumentos lógicos em lugar de imagens, ou se as imagens, que criou, lhe servem para demonstrar tal ou qual assunto, não se trata de um artista, mas de um publicista, mesmo que escreva, em vez de ensaios e artigos, romances, novelas ou peças de teatro “(...). Tá legal, Plekhanov distingue corretamente os procedimentos que diferenciam a criação artística e a propaganda política. Mas será que o escritor não tem o direito de ser panfletário? É possível realizar a agitação revolucionária e ao mesmo tempo possuir méritos literários?

Seria um moralismo tipicamente burguês sacralizar a arte e a literatura: pairando acima da história, estariam as obras de arte que não se contaminariam abertamente por assuntos mundanos, tais como as lutas do movimento operário. Besteira! Enquanto expressão das formas de consciência a literatura é inevitavelmente política. Proclamar aos quatro ventos uma ideia política revolucionária num romance é uma necessidade ideológica. Porém, sabemos que existe um grande perigo para o valor artístico da obra caso o escritor viole seu procedimento criativo a partir de ordens externas, a partir da indevida/forçada infiltração da ideia política que torna artificial a trama de um romance. Quando um escritor decide pisar em solo histórico, reservando ao drama uma importância que não se restringe ao destino individual dos personagens, ele está conscientemente no terreno da luta de classes. Sendo assim o problema não é ser ou deixar de ser panfletário. O problema é não compreender o contexto histórico que uma obra literária se ocupa.

Marx tratou do assunto numa célebre correspondência com Lassalle: em 19 de abril de 1859, Marx comenta a tragédia revolucionária Franz Von Sickingen, redigida por Lassalle entre 1858-59. A obra baseia-se na insurreição dos cavaleiros e suavos renanos de 1522, encabeçada por Franz Von Sickingen e Ulrich Von Hutten. Esta tragédia revolucionária levanta um problema literário e político: perante a então recente e fracassada experiência revolucionária de 1848, Lassalle vai para 1522 defendendo a seguinte tese: haveria sempre, inevitavelmente nas lutas revolucionárias, uma contradição entre ideia e ação, sendo que os líderes revolucionários não conseguiriam atrair as massas. Isto valeria tanto para a insurreição de 1522 interessada em estabelecer reformas na sociedade alemã, quanto para a luta proletária do século XIX. Marx responde ao idealismo de Lassalle dizendo que se o conflito revolucionário é de fato a base da tragédia moderna, a obra em questão possui uma abordagem histórica equivocada. Segundo Marx: (...) “ Sickingen(e, nalguma medida, também Hutten) não fracassou por causa da sua própria astúcia. Fracassou porque se rebelou contra (o regime) existente ou, mais precisamente,, contra a nova forma do (regime) existente, mas porque o fez na sua condição de cavaleiro e representante de uma classe agonizante(...). O fato de começar a sua rebelião sob a forma de uma querela entre cavaleiros significa simplesmente que a começa à moda dos cavaleiros. Se a tivesse iniciado de outro modo, seria obrigado a apelar, diretamente, e desde o primeiro momento, às cidades e aos camponeses, ou seja, àquelas classes cujo desenvolvimento equivale à negação da cavalaria “(...). Esta aula de História dada por Marx, permite entender que não se pode tratar em literatura de um tema revolucionário com uma visão idealista; isto é, sem o entendimento preciso das verdadeiras relações entre as classes sociais num determinado período histórico. Mesmo que Marx valorizasse na obra de Lassalle a composição e a vivacidade da ação, o idealismo torna-se um obstáculo para o seu alcance político. Engels, numa outra correspondência que data desta mesma época, também realizou observações críticas sobre a tragédia revolucionária escrita por Lassalle.

Marx e Engels possuem várias outras importantes observações sobre literatura espalhadas por entre correspondências e em trechos de suas obras. Embora não dê para fazer de tudo isso um manual de estética, estas reflexões ajudam o escritor de esquerda: se for para tratar da miséria nas grandes cidades brasileiras, é preciso compor situações em que a ação dos personagens convençam o leitor e não surjam como um catecismo marxista. Se for para referir-se aos nossos dias pegando emprestado o fundo histórico de outra época, então que se respeite as especificidades das lutas sociais em cada época, evitando armadilhas idealistas. Isto nada tem a ver com os limites do mero reflexo realista: a questão é representar corretamente uma época para poder fazer a escrita decolar pelos mais variados caminhos. A literatura revolucionária pode ser panfletária sim, não é preciso que o escritor fique todo cheio de dedos para atingir seu objetivo militante(o realismo é dinâmico, precisa servir-se de outras estéticas, pois ninguém pode hoje em dia limitar-se a um retrato imóvel, a uma armadura classicista) . Mas mesmo para ser panfletária, abertamente tendenciosa, é preciso considerar na feitura da obra literária aquilo que Trotski chamou de “ as leis da arte “.




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