Cultura

LITERATURA

A literatura dos trabalhadores

Existe uma história do movimento operário brasileiro, desconhecida por muitos trabalhadores. Isto é grave. Existem inúmeras obras literárias escritas por trabalhadores e nem passa pela cabeça de muita gente de origem proletária, que eles podem e devem escrever suas próprias histórias. Isto também é grave. A importância dos trabalhadores narrarem suas experiências e dramas cotidianos, pode ser explicada pela necessidade de conhecermos as lutas e os problemas históricos de uma classe. Quem acompanha ou já passou os olhos por esta coluna, sabe que não se trata de defender aqui a equivocada tese da literatura proletária: trata-se de constatar que diante das novas relações de produção literária, é vital que o trabalhador tome para si o poder sensível da palavra escrita.

Afonso Machado

Campinas

quarta-feira 21 de junho| Edição do dia

O sofrimento de uma pessoa não pode ser explicado apenas por uma doença/ mal estar físico ou por algum determinado fato cotidiano que leve ao abalo psicológico. Quem não possui memória para além do núcleo familiar, quem não possui conhecimento quanto à sua condição de classe(portanto da classe a que pertencem seus familiares, vizinhos, amigos etc) e das lutas dos seus pares, sofre sem saber por que: não compreendendo seu papel na produção econômica, não compreendendo as razões políticas que explicam suas dificuldades e privações, o indivíduo acaba mergulhando em ilusões para dar sentido à vida. É este sentido perdido que a atividade literária e a reflexão histórica recuperam: quando um trabalhador com consciência política e sensibilidade estética escreve, ele não está produzindo um mero registro pessoal: ele está criando um documento de luta.

Quando o leitor de carne e osso(que come marmita, pega busão e conta os caraminguás para a cerveja) entende que ele também é alguém que escreve através do celular ou do notebook, estamos falando de um autor. O uso progressista dos novos meios de produção da chamada era digital, faz com que a capacidade literária não encontre-se mais subordinada à formação especializada: nesta nova realidade histórica, o operário é potencialmente poeta, romancista, jornalista e historiador. As clássicas distinções entre escritor e crítico, leitor e jornalista, estudante e professor, doutor e pobre mortal, poeta e agitador, são ameaçadas quando os trabalhadores ocupam espaços canônicos da cultura. Narrar, descrever e prescrever são atividades intelectuais que quando são redefinidas à luz do socialismo, revelam que o trabalhador possui acesso à autoria(para quem quiser entender melhor a questão, seria bacana ler o texto conferência de Walter Benjamin intitulado O Autor Como Produtor, de 1934).

Esta não é uma evidência pós-revolucionária. No interior das contradições da sociedade capitalista, o processo de formação e divulgação dos trabalhos dos escritores trabalhadores, deve ser uma realidade; ela já o é, em certo sentido, no Brasil de hoje. Ela também já foi fato em outros momentos da história do movimento operário brasileiro. Mas diferentemente de hoje, encontramos nas atividades culturais de militantes do século passado(sejam eles anarquistas, trotskistas e por incrível que pareça, até stalinistas), uma grande atenção por parte da esquerda.

Logicamente que em tais momentos históricos, verificam-se equívocos políticos e limitações estéticas: seja a técnica literária convencional de muitos escritores anarquistas do começo do século passado, seja o crescente aparelhamento jdanovista que contaminou os debates estéticos realizados no ambiente da esquerda a partir dos anos 30. Mas apesar destes e outros inúmeros problemas, a discussão literária podia ser entendida como parte de uma pauta das atividades revolucionárias. O que se passa hoje em dia?

Ainda que existam formidáveis exceções, atualmente notamos que a literatura e a arte de um modo geral, são usadas dentro da esquerda como meros suportes para se discutir questões que descartam o elemento estético: o acontecimento político, o tema histórico, as questões de classe e gênero, são discutidos ao mesmo tempo em que a proposta artística é minimizada, para não dizer desconsiderada. Não se trata de reivindicar o esteticismo: o acontecimento político, o tema histórico, as questões de classe e gênero, etc e tal, devem ser analisados/debatidos de acordo com a maneira como eles são expressos na obra de arte. O problema da representação artística é uma questão que diz respeito à maneira como o trabalhador entende/sente o que se passa com ele.

Em seus acertos e erros, a história da produção cultural do movimento operário brasileiro, ainda não foi devidamente contada, divulgada para quem realmente interessa esta mesma história: a classe trabalhadora. O escritor trabalhador precisa conhecer esta história porque ele não é parte de uma comunidade que existe meramente enquanto “ tribo “: ele é parte da classe trabalhadora, que por sua vez possui uma história de lutas e um projeto político.

Grande parte do conhecimento histórico e literário ainda é entendido enquanto sendo propriedade de intelectuais soberbos, uma elite invejosa dos seus privilégios culturais. Perante as novas condições técnicas mencionadas anteriormente, esta situação elitista deve acabar de vez. Aliás, quando o intelectual de classe média, origem essa de muitos líderes e pensadores revolucionários, realiza a opção política pelo proletariado, ele coloca todo seu conhecimento a serviço dos trabalhadores: sem pretender bancar o sabichão, este intelectual contribui com a formação de outros intelectuais.

Assimilando as tradições literárias, estudando História e compreendendo a marcha dos próprios acontecimentos históricos, os trabalhadores tornam-se os narradores da luta revolucionária.




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