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A liberaçao de celular em sala de aula e a falta de estrutura nas escolas

quarta-feira 22 de novembro| Edição do dia

Recentemente foi aprovada na Alesp a lei que regulariza o uso do celular em sala de aula como instrumento pedagógico sob supervisão e orientação dos professores. A aprovação dessa lei tem gerado muita polêmica entre os docentes, pois a proibição do celular é motivo de constante desgaste entre professores e estudantes no dia-a-dia escolar. Para compreendermos mais a fundo a questão do celular e dos cotidianos desgastes, é importante contextualiza-los dentro de uma reflexão mais ampla sobre a chamada “indisciplina” dos estudantes, bem como sobre o projeto de educação e de escola que o governo tem para a juventude trabalhadora.

Refletindo a escola: disciplina do escravo X disciplina emancipadora

É fato que a escola enquanto um espaço social precisa de organização, regras e algum tipo de ordem para funcionar e existir enquanto tal. E que é necessário algum tipo de disciplina para que estudantes possam construir conhecimento e se apropriar do já acumulado pela humanidade. No entanto temos que fugir das armadilhas e saídas fáceis que apontam o aluno como único problema e o aumento da repressão e punições como única saída para se resolver as contradições da escola. Para aprofundar a reflexão podemos considerar que existem dois tipos de ordem e disciplina: a que visa escravizar e a que visa emancipar. A ordem do escravo é aquela que é imposta de cima para baixo, onde deve-se aprender a baixar a cabeça e cumprir as regras sem nunca poder opinar, construí-las e sequer pensar sobre elas. Assim cria-se uma disciplina do escravo na qual sob ameaça de repreensões como ocorrências, suspensões e polícia o estudante deve seguir e naturaliza-la como única possibilidade. Já a ordem emancipadora é aquela em que as pessoas devem cumprir regras mas com a diferença de poderem construí-las coletivamente através de assembleias e espaços de auto-organização. Dessa forma exigência do cumprimento das regras vem acompanhada da possibilidade de opinar, pensar e decidir democraticamente a ordem que deverá ser seguida, ou seja, vem acompanhada da possibilidade de ser sujeito histórico.

O problema é a “indisciplina” dos alunos ou a forma como o Estado organiza as escolas?

Atualmente as escolas públicas estão organizadas com uma estrutura de poder autoritária e anti-democrática e não à toa durante as ocupações dos estudantes contra a reorganização escolar de Alckmin em 2015 foram chamadas de “Escola-Prisão”. No topo dessa estrutura estão: Grandes banqueiros, fundações e empresários – Governo - Secretaria da Educação - Diretoria de Ensino – Diretores. E na base os que não possuem voz: professores e por fim os estudantes.

Assim poderíamos pensar a indisciplina de modo geral como uma forma de resistência às imposições de tal estrutura. Desse ponto de vista a indisciplina pode ser vista como um fenômeno contraditório, ou seja, é boa e ruim ao mesmo tempo. Ruim quando se dá a negação total da escola impedindo qualquer forma de construção de conhecimento, qualquer forma de “disciplina”, se expressando desorganizada, despolitizada, individualizada e principalmente quando se transforma em violência contra professores e funcionários da escola.

Boa no sentido de que em alguns momentos é a única forma dos estudantes terem voz e resistirem contra os aspectos mais autoritários, carcerários e sem sentido da escola, principalmente quando ocorre de maneira organizada, coletiva, possui algum objetivo político e visa transformar a realidade escolar. O exemplo recente mais importante foram as ocupações de escola, que enquanto uma forma de indisciplina coletiva, derrubou o secretário da educação de Alckmin e alcançou o objetivo político de barrar a reorganização escolar do governo que fecharia mais de 90 escolas.

E a questão do celular nesse contexto?

Indepentemente da lei que proibia o uso de celular em sala de aula e agora da lei que regulariza o uso com fins pedagógicos, na realidade o que vem acontecendo é que cada vez mais os estudantes utilizam o celular na sala de aula para ouvir musicas, jogos e ficar nas redes sociais, durante as explicações. Por um lado é fundamental que exista um espaço maior de sociabilidade dos estudantes nas escolas para que tais necessidades de conversar, ouvir músicas, jogar, dançar possam ter vazão de forma organizada sem que haja prejuízo do aprendizado. Os intervalos de 20min de manhã e 15min a noite são pensados pedagogicamente para educar o corpo do futuro trabalhador a comer rápido visando adequá-lo para o horário de almoço e logo insuficientes para dar conta de tais necessidade. Por outro lado é fundamental que através de acordos entre professores e estudantes – que poderiam se estabelecer por meio de assembleias de sala ou de escola – que o espaço das explicações e das atividades da aula sejam respeitados para que haja de fato a construção e apropriação do conhecimento por parte dos estudantes, de modo que o celular e outras tecnologias possam ser utilizadas mais cotidianamente na sala de aula com o fim pedagógico.

A falta de estrutura e investimento nas escolas para a utilização do celular e outras tecnologias

Diante de uma geração que nasce em meio ao avanço tecnológico onde crianças de 2 anos jogam em seus tabletes ou nos celulares de seus pais, a escola permanece tendo como principal recurso cotidiano a lousa, o giz, os livros didáticos e os professores falando de 30 40 minutos para turmas de 40 alunos. O fato é que a escola permaneceu no mesmo modelo do século XIX e recebendo alunos do século XXI, e isso no mínimo gera desgaste físico e emocional nos docentes. Portanto, a prática docente com o usos das novas tecnologias se coloca como um grande desafio para os professores nos dias de hoje. Não se deve rechaçar o uso do celular em sala de aula, mas sim pensar como tornar essa tecnologia que está no cotidiano dos alunos um instrumento pedagógico que facilite o processo de ensino aprendizagem. A tecnologia digital interativa permite que os alunos aprendam e com a orientação dos professores esse recurso pode vir a ser muito útil e facilitar esse processo.

No entanto, estamos diante do dilema interminável que é como utilizar o celular como um instrumento pedagógico se em muitas escolas não tem a rede de wi-fi nem mesmo para que os professores possam preparar as aulas? Mais uma vez o governo faz propaganda falaciosa de que vai colocar o wi-fi nas escolas para que todos possam usar.

O problema não está na tecnologia, mas sim em um governo que tem feito propagandas de que as escolas tem salas de informática, tem lousa digital e agora terá wi-fi, enquanto a realidade da maior parte das escolas são de salas de informática com pouquíssimos computadores ou com computadores quebrados sem perspectiva de manutenção, muitas vezes sem internet e desde 2015 não sem funcionários "jovens aprendizes", para digitar as senhas e organizar as salas para o uso dos computadores.

Em 2013, o governador enviou para algumas escolas tabletes para serem distribuídos para os professores que deveriam utilizar como recurso pedagógico, no entanto, a maioria dos professores não conseguiram desbloquear e os que conseguiram nunca conseguiram utilizar nas aulas tanto pela péssima qualidade do produto quanto porque em muitas escolas não tem internet. As lousas digitas foram outra promessa que nunca chegou nas escolas. Em resumo, os professores tem se virado na era digital com a lousa tradicional, o giz que acaba com a saúde dos professores e dos alunos e por fim a saliva.

Por fim, os professores também não devem ficar no descompasso que a tecnologia gera aos que não se atualizam com ela. Os alunos não estranham a tecnologia, portanto tem que haver uma movimento que exija do governo a formação continuada para os professores sobre o uso das novas tecnologias e ferramentas suficientes e efetivas para que todos os alunos possam utilizar. A liberação do uso do celular não é o maior problema, mas a falta de democracia e de investimento e recursos nas escolas públicas.




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